1,5°C ficou para trás, corrida agora é para reverter aumento, diz Pnuma
Não há mais avaliações científicas que considerem plausível que o aquecimento global se mantenha abaixo de 1,5°C. Esse é o diagnóstico do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) em relatório divulgado nesta quarta-feira (2). É a primeira vez que uma agência da ONU admite que vamos ultrapassar o limite estabelecido pelo Acordo de Paris.
O documento parte do diagnóstico de que o mundo já entrou em território novo e traz caminhos de como atravessá-lo causando o menor dano possível e, principalmente, de como voltar para os trilhos.
“O desafio que se impõe aos formuladores de políticas não é mais apenas como evitar essa ultrapassagem, mas sim como compreender, preparar-se para e transitar por um futuro no qual as temperaturas globais ultrapassem 1,5°C”, diz o relatório.
Os números explicam a urgência. Em 2025, a temperatura média global ficou cerca de 1,4°C acima dos níveis pré-industriais. As políticas climáticas em vigor apontam para cerca de 2,6°C até o fim do século, patamar “extremamente perigoso” que, na trajetória atual, provavelmente representa o piso, não o teto, do aquecimento futuro.
Mesmo com cumprimento integral de todas as metas climáticas condicionais já anunciadas, a conta chega a 1,9°C em 2100. E mesmo que o mundo abandonasse combustíveis fósseis imediatamente, já estaria comprometido com um pico de ao menos 1,7°C neste século.
Um ponto importante: ultrapassar 1,5°C não significa abandonar a meta do Acordo de Paris, mas buscar meios de retornar a temperatura média ao limite estipulado pelos países signatários. “O objetivo de longo prazo de limitar o aquecimento a 1,5°C permanece como a base da política climática internacional”, diz o Pnuma.
Over what?
O relatório detalha o conceito de trajetórias de overshoot. É o nome técnico para um pico temporário de temperatura seguido de um recuo gerenciado, via corte de emissões e remoção de carbono da atmosfera, até 1,5°C.
A maioria das projeções indica que esse pico precisa ficar limitado a 1,8°C — acima disso, a volta a 1,5°C até 2100 se torna extremamente difícil, com risco de a meta ser violada de forma permanente.
Ao mesmo tempo, manter a ultrapassagem abaixo de 1,7°C já não parece mais viável. É nessa margem estreita, entre 1,7°C e 1,8°C de pico, que se decide boa parte do que vem a seguir.
O Pnuma organiza a resposta em três fases sobrepostas no tempo: resposta imediata (corte rápido de emissões, incluindo metano, e adaptação); contenção, quando as temperaturas atingem o pico e o mundo precisa alcançar net zero; e resiliência de longo prazo, quando se tenta reverter, na medida do possível, os efeitos já incorporados.
O balanço líquido de zero emissões de carbono é um “marco essencial que não pode ser pulado”, diz o Pnuma. Mas o programa destaca que ele é insuficiente sozinho, pois não resolve os riscos acumulados durante a ultrapassagem.
“Devemos entregar imediatamente cortes rápidos e profundos de CO2, metano e outros gases com efeito de estufa, trabalhando no sentido do net zero — com os governos enviando os sinais políticos certos para as instituições financeiras e o setor privado”, disse Inger Andersen, diretora-executiva do Pnuma.
Cada grau, um tamanho de estrago
O Pnuma detalha como os impactos se intensificam de forma não linear. Sem adaptação eficaz, a produção agrícola global pode cair 14% até 2050, e o risco de quebra de safra em escala global passaria a ocorrer com mais frequência até 2040, ainda em cenário de 1,5°C — hoje esse evento acontece uma vez a cada 100 anos e a previsão é que a frequência passe a ser de uma vez a cada 30 anos.
A exposição da população a calor perigoso sobe de 1,8 bilhão de pessoas por ano em um mundo de 1,5°C, para 2,3 bilhões a 2°C e 3,3 bilhões a 3°C. Estimativas de perda econômica associadas ao calor apontam para um PIB global cerca de 11% menor até 2050 e renda média global até 23% menor até 2100 nos cenários mais quentes.
O ponto mais sensível do relatório é o dos pontos de inflexão (tipping points): mudanças em larga escala e, na prática, irreversíveis em escala humana. Com aquecimento de 1,5°C, recifes de coral de águas quentes, as camadas de gelo da Groenlândia e da Antártida e o permafrost (camada do subsolo que permanece permanentemente congelada) começam a cruzar esses limites.
A 2°C, entram nessa lista o giro subpolar do Atlântico Norte e geleiras de montanha, com praticamente todos os recifes de coral tropicais sob risco de colapso. Entre os exemplos mais citados estão a transformação da Amazônia de floresta em savana — um processo que se autoalimenta à medida que o desmatamento reduz a chuva gerada pela própria floresta.
Segundo o relatório, mesmo uma ultrapassagem temporária de 1,5°C eleva em 72% o risco de gatilhos críticos serem acionados, ante um cenário sem overshoot — por isso a duração e a altura do pico importam tanto quanto a meta final.
Remoção de CO2, uma saída nada fácil
Reverter parte do aquecimento depois do pico vai exigir remoção de dióxido de carbono da atmosfera em escala industrial, somada às soluções baseadas na natureza, como florestas e estoque nos solos — que já têm seus limites sendo testados pelos próprios impactos climáticos.
O relatório é enfático: a remoção de carbono só contribui de forma crível para o retorno a 1,5°C se o pico de aquecimento ficar bem abaixo de 2°C e todas as demais emissões forem cortadas.
Mesmo em cenários otimistas de escala, a remoção dificilmente reduzirá a temperatura em mais do que alguns décimos de grau neste século. Tecnologias industriais de captura ainda não foram comprovadas na escala necessária, com custos e efeitos colaterais relevantes.
Por isso, o relatório trata a remoção como complemento, nunca substituto, do corte de emissões, e pede governança forte sobre o tema.
Caminho mais viável
O Pnuma aponta a combinação necessária: eletrificação acelerada de energia, transporte e indústria, de modo que dois terços da demanda energética global venham de eletricidade limpa até 2050; eliminação de combustíveis fósseis, com economias avançadas livres deles até 2050 e o mundo todo até 2070; corte geral de metano de 20% até 2030 ante 2020, e de 50% no setor de energia; e ampliação da remoção de carbono para acelerar o declínio das temperaturas após o pico.
A receita foi feita com base no Emissions Gap Report 2025 do próprio Pnuma, no World Energy Outlook 2025, da Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês) e em modelagens climáticas recentes.
Do lado positivo: mais de 90% dos novos projetos renováveis já são mais baratos que alternativas fósseis, e o custo de baterias caiu mais de 99% desde 1991, sinal de que cortes rápidos de emissão são tecnicamente possíveis, ainda que politicamente difíceis.
O relatório termina com uma nota sobre equidade: países com maior responsabilidade histórica pelas emissões devem agir mais rápido, e nações mais vulneráveis precisam ser parte central das decisões, não apenas receptoras de seus efeitos. Isso inclui pequenos Estados insulares que podem perder seu território devido às consequências das mudanças climáticas.
“Entramos numa era de consequências, como a tragédia da última semana no Nepal deixou claro, e nenhum governo do planeta está preparado para o que enfrentaremos nas próximas décadas. É hora de começar a falar sério sobre adaptação e de cobrar recursos de perdas e danos dos países ricos para as nações mais pobres”, avalia Claudio Angelo, coordenador de política internacional do Observatório do Clima.
Mesmo que o mundo consiga voltar a 1,5°C ou menos até o fim do século, o documento é claro: muitas comunidades já vão enfrentar perdas permanentes.




















