Iene dispara e mercado vê sinais de nova ofensiva do Japão para defender moeda
O iene se fortaleceu acentuadamente frente ao dólar, deixando os operadores em estado de alerta para possíveis sinais de que as autoridades estariam adotando novas medidas para apoiar a moeda japonesa.
A divisa japonesa chegou a avançar 1,2%, para 158,22 ienes por dólar, durante a sessão de negociações em Nova York. O movimento levou participantes do mercado a monitorar possíveis contatos de autoridades com bancos para verificar cotações cambiais, um procedimento frequentemente visto como precursor de uma intervenção direta.
“E estou cético de que o movimento do iene nesta manhã tenha sido provocado por intervenção”, disse Howard Du, estrategista da TD Securities em Nova York. Segundo ele, a magnitude da valorização foi menor do que a observada em episódios anteriores de consultas cambiais por parte das autoridades.
Du ressaltou que o iene já vinha ganhando força mais cedo na sessão após declarações de Hajime Takata, membro do conselho do Banco do Japão (BoJ) considerado um dos mais favoráveis ao aperto monetário. Takata deixou aberta a possibilidade de uma elevação mais agressiva dos juros, além de altas consecutivas das taxas.
Os movimentos desta quarta-feira repercutiram em todo o mercado global de câmbio, que movimenta cerca de US$ 9,5 trilhões por dia. O Bloomberg Dollar Spot Index recuou 0,3%, sua maior queda intradiária desde 21 de agosto, enquanto um índice de moedas de mercados emergentes atingiu as máximas da sessão. O iene também avançou mais de 1% frente ao euro.
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Ainda assim, a valorização foi menor do que a observada quando Tóquio e Washington uniram esforços para apoiar a moeda japonesa em uma escala não vista havia décadas. A primeira operação coordenada de compra de ienes desde 1998 provocou uma recuperação de cerca de 5% a partir do nível mais fraco da moeda em aproximadamente 40 anos, perto de 164 ienes por dólar. Na ocasião, os dois governos sinalizaram disposição para novas ações conjuntas, se necessário.
Mas a intervenção direta não é a única ferramenta disponível para apoiar a moeda japonesa. Em janeiro, o Federal Reserve Bank de Nova York contatou instituições financeiras para obter informações sobre a taxa de câmbio do iene. Na época, estrategistas de Wall Street e operadores interpretaram a movimentação como um possível passo preparatório para uma eventual intervenção do Japão.
O Departamento do Tesouro dos EUA não respondeu imediatamente a pedidos de comentário sobre uma eventual intervenção ou consultas cambiais nesta quarta-feira. O Fed de Nova York também não se manifestou de imediato.
“Ouvimos rumores de que isso seria intervenção, mas continuo cético pela dimensão do movimento”, afirmou Andrew Hazlett, operador de câmbio da Monex. Ainda assim, ele observou que os movimentos do iene frente ao dólar e ao euro “não poderiam ser explicados de outra forma”.
Para Ben Ford, estrategista cambial da Macro Hive, a valorização relativamente pequena, mas rápida, se assemelha a uma possível consulta cambial, especialmente quando comparada às intervenções vistas nos últimos anos.
“Hoje pode representar uma mudança do Japão, deixando de sinalizar previamente as intervenções e passando a agir de maneira mais agressiva desde o início dos períodos de atuação”, disse.
Intervenção recente
O Japão gastou um valor recorde de US$ 96,4 bilhões no último mês para apoiar o iene após a moeda atingir o menor nível em quatro décadas, segundo dados do Ministério das Finanças. Autoridades japonesas têm repetidamente afirmado que o principal fator para decidir por uma intervenção não é um nível específico da taxa de câmbio, mas a velocidade e a desordem dos movimentos do mercado.
O iene tem sofrido pressão devido à ampla diferença entre os juros do Japão e de outras grandes economias, além das preocupações com a situação fiscal do país diante dos ambiciosos planos de gastos da primeira-ministra Sanae Takaichi.
Ao mesmo tempo, fundos hedge voltam a ampliar posições apostando na queda da moeda japonesa, após terem reduzido essas apostas pessimistas logo depois da intervenção coordenada entre Japão e Estados Unidos.
Diante da fraqueza do iene, o governo de Takaichi estaria apoiando uma elevação dos juros pelo Banco do Japão já na reunião de setembro.
O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, afirmou esperar que o presidente do Banco do Japão, Kazuo Ueda, “faça a coisa certa” em relação à política monetária, classificando os movimentos recentes do iene como “relativamente contidos”. Bessent também defendeu o apoio à moeda japonesa, argumentando que uma volatilidade excessiva do iene poderia acabar pressionando para cima os juros nos Estados Unidos.
Mais cedo, Takata reforçou a percepção de investidores de que o Banco do Japão pode agir de maneira mais agressiva do que o esperado. Segundo ele, uma alta de 0,25 ponto percentual nos juros “não está necessariamente definida” e aumentos consecutivos também são uma possibilidade.
Ueda já havia sinalizado anteriormente que uma elevação dos juros é provável quando o conselho do banco central se reunir ainda este mês, destacando os riscos de alta para a inflação. Os contratos de swap atrelados a juros já praticamente precificam uma alta de juros na reunião de setembro do BoJ.
“Seja uma intervenção de fato ou apenas uma tentativa de influenciar o mercado por meio de consultas cambiais, a reação mostra como o posicionamento dos investidores se tornou sensível. O mercado recebeu a mensagem de que as autoridades querem um iene mais forte”, disse Nathan Thooft, da Manulife Investment Management. “Mas, considerando os fundamentos, é difícil argumentar que esse movimento seja sustentável.”
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