Por que proibir o acesso de crianças e adolescentes às redes sociais não é suficiente
Os esforços pioneiros da Austrália para manter os jovens longe das redes sociais são um experimento acompanhado de perto que mais de duas dúzias de países vêm tentando imitar. Mas os primeiros dados sugerem que isso não está dando muito certo.Mais de 81% dos menores de 16 anos ainda usavam pelo menos uma plataforma restrita após a proibição entrar em vigor em dezembro do ano passado. O uso do TikTok entre crianças de 10 a 12 anos foi mais alto do que antes, segundo constatou uma empresa de controle parental, e praticamente inalterado para adolescentes de 13 a 15 anos. A Qustodio, empresa responsável pelos dados, reconheceu que os números abrangem apenas famílias que já utilizam seu software para restringir aplicativos, o que significa que o quadro geral pode ser pior.É muito cedo para declarar que a política foi um fracasso. Avaliar sua eficácia levará anos. Outros países que adotaram rapidamente a medida, no entanto, incluindo a Malásia e a Indonésia, também estão descobrindo que as crianças conseguem contornar as restrições (como muitos suspeitavam que aconteceria). ⟶ Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.Mas uma das razões pelas quais as proibições por idade fracassaram é que a proibição aborda apenas metade do problema. Se os formuladores de políticas querem tirar as crianças das redes sociais, precisam oferecer a elas outro lugar para onde ir.Quando o primeiro-ministro Anthony Albanese fez campanha pela primeira vez a favor da proibição do acesso de jovens às redes sociais, ele declarou que o objetivo era tirar as crianças "de seus aparelhos e levá-las para o campo de futebol". Foi um grito de guerra extremamente popular entre os pais que se sentem impotentes diante de algoritmos viciantes. No entanto, dados divulgados pelo Comissário de Segurança Digital da Austrália sugerem que isso também não aconteceu; houve pouca ou nenhuma mudança na participação em atividades offline, como esportes, desde que a política foi introduzida.Leia também: Dona do TikTok é multada em R$ 153,7 mi no Brasil por uso indevido de dados de menoresO custo ajuda a explicar o motivo. Os esportes juvenis estão se tornando cada vez mais um privilégio para os ricos. Uma pesquisa australiana publicada em agosto constatou que as despesas eram um fator limitante na capacidade de participar de esportes comunitários para 78% das crianças. Muitas jurisdições oferecem subsídios de até 200 dólares australianos (US$ 143) por ano por criança. Em média, porém, o custo anual total para participar de esportes era de 4.567 dólares australianos (US$ 3.274). Mandar as crianças largarem os celulares é a parte fácil; levá-las de fato para uma quadra esportiva (ou para os palcos, clubes ou mesmo apenas um lugar seguro para brincar ao ar livre com os colegas) exige um trabalho político mais árduo.No entanto, pesquisas demonstram repetidamente que o aumento do tempo dedicado a atividades extracurriculares está associado a um menor uso de telas. Na China, onde a escola pode ser altamente competitiva desde cedo, pesquisadores tentaram verificar se proporcionar a crianças do ensino fundamental duas horas de atividade física ao ar livre após o horário escolar teria impacto em suas notas. Eles acabaram descobrindo que isso não prejudicava o desempenho acadêmico e que trazia o benefício de reduzir o tempo de uso de telas em comparação com o grupo de controle. Um estudo separado no Canadá, com quase 29 mil alunos do 7º ano, constatou que aqueles que participavam de esportes, artes e programas comunitários relataram um tempo de uso recreativo de telas significativamente menor; e os alunos com atividades extracurriculares e menor tempo de uso de telas apresentaram os melhores resultados em saúde mental.Leia também: Influenciadores criados com IA avançam na política e desafiam regras eleitorais no paísMuitos continuam comparando a pressão regulatória global sobre as empresas de mídia social a um momento semelhante ao da indústria do tabaco, quando as empresas de tabaco passaram a ser responsabilizadas pelos malefícios dos cigarros nos anos 1990. A Islândia oferece outra lição de política pública. O país tratou o consumo de cigarro e álcool entre adolescentes como um problema de infraestrutura social, aumentando drasticamente o financiamento para esportes subsidiados, atividades extracurriculares e centros juvenis. Os resultados foram impressionantes: a proporção de alunos do 10º ano que afirmaram ter ficado bêbados pelo menos uma vez nos últimos 30 dias caiu de um pico de 42% em 1998 para cerca de 6% em 2024. A proporção de fumantes diários de cigarro caiu de 23% para menos de 1%.De onde virá esse dinheiro? Talvez das próprias big techs. Nos Estados Unidos, a Meta Platforms (META) concordou, na semana passada, com um acordo de até US$ 18 bilhões para resolver uma série de processos judiciais. Os documentos judiciais especificam que os pagamentos aos estados envolvidos no acordo podem ser usados, entre outras coisas, para programas extracurriculares ou de verão, incluindo esportes, alfabetização e outras atividades. A Austrália pode, em algum momento, cobrar multas de empresas de mídia social que não consigam manter as crianças fora de suas plataformas. Os legisladores fariam bem em destinar esses recursos à ampliação do acesso a espaços offline.Leia também: Meta fecha acordo de até US$ 18 bi nos EUA sobre impacto de redes sociais em jovensNo fim das contas, ainda será difícil para esses clubes competir com o apelo do algoritmo. O acordo nos EUA também forçará a Meta a mudar a forma como administra as contas de jovens usuários no Facebook e no Instagram. Por enquanto, essas atualizações se aplicarão apenas às jurisdições abrangidas pelo acordo multiestatal. Órgãos reguladores de outros países devem pressionar para que as mesmas proteções sejam implementadas globalmente. Mudar o design dessas plataformas será fundamental para manter os jovens longe delas. Os pais, sem falar nas mentes em desenvolvimento, muitas vezes sentem que têm pouca autonomia diante de gigantescos sistemas de recomendação projetados para maximizar o engajamento. Se os adolescentes ainda estiverem encontrando maneiras de acessá-las — como provavelmente continuarão fazendo — os reguladores devem lidar tanto com o acesso quanto com os algoritmos.Uma das principais críticas da agência das Nações Unidas para a infância e de um número cada vez maior de acadêmicos é que afastar as crianças das redes sociais cortará os laços que sustentam a comunidade. Trata-se de uma preocupação legítima, já que grande parte da vida social dos adolescentes (e dos adultos) migrou para o mundo virtual. Mas isso apenas reforça a necessidade de reconstruir essas comunidades no mundo real.Problemas estruturais exigem mais do que soluções paliativas. Os formuladores de políticas devem enfrentar o que torna a vida online, mesmo que de forma ilícita, mais atraente para os jovens do que o mundo real.Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.Catherine Thorbecke é colunista da Bloomberg Opinion e cobre tecnologia na Ásia. Já foi repórter de tecnologia na CNN e na ABC News.Veja mais em Bloomberg.comLeia tambémPecuária em alerta: domínio do Brasil na carne bovina esbarra em regras da UE



















