A nova biografia de Lacerda, o político genial que atraiu admiração e repulsa
O destino me proporcionou, com apenas 25 anos, conhecer Carlos Lacerda, uma das figuras mais brilhantes da história do século XX no Brasil.
Estive com Lacerda em diversos momentos, ora levado pelo senador Gilberto Marinho, ora pelo jornalista Helio Fernandes. Eram conversas fascinantes, nas quais não se perdia uma palavra.
Agora, meio século após sua morte, Carlos Lacerda ganha Lacerda – Coração de tempestade (500 páginas, Companhia das Letras), o primeiro e competente volume da biografia escrita por Mário Magalhães. (Compre aqui)
Lacerda pode ser considerado o principal personagem da República nos 40 anos em que foi ator relevante na política e, no conjunto da obra, o mais brilhante entre seus contemporâneos.
Jornalista, orador, tradutor, editor, gestor, político e parlamentar (foi vereador, deputado e governador do Estado da Guanabara), atuou intensamente por quatro décadas.
Como empresário, fundou o jornal A Tribuna da Imprensa, a editora Nova Fronteira, o banco Novo Rio (que comprou a operação do Lloyds Bank), criou uma empresa de serviços de informática – a Datamec, que atendia à loteria esportiva – e foi até floricultor.
Polêmico, Lacerda colecionava tanto admiração quanto restrições veementes. Não primou pela coerência nem pela lealdade – diziam que tinha “instantes de amizade” e facetas questionáveis de caráter – e colocou todo seu talento a serviço de suas ambições pessoais na vida pública.
Ainda em vida, foi objeto de um livro intitulado O carreirista da traição, do jornalista Epitácio Cao, que trazia à tona algumas de suas incoerências públicas.
Neste primeiro volume, por exemplo, vem fielmente colocado o fato de Lacerda ter denunciado Samuel Wainer como impossibilitado de ter um jornal por não ser brasileiro nato. Pior: o fato lhe foi revelado no período em que foi acolhido em casa por Samuel e sua mulher, Bluma, logo depois de Lacerda ter se afastado do grupo ligado ao Partido Comunista e sofrer restrições de antigos companheiros. Anos depois, fez uso da informação para prejudicar o ex-amigo.
A biografia demonstra a impossibilidade de admiração integral ou repulsa total por um personagem tão singular.
Magalhães procura ser isento – uma postura difícil diante de uma personalidade tão intensa como a do biografado – e consegue.
Demolidor de presidentes, Lacerda foi importante nas duas quedas de Getúlio Vargas, um participante direto e indireto do final físico e político do homem que dominou a política por mais de 20 anos. Tentou impedir a posse de JK, presidente eleito; protagonizou a crise que levou Jânio Quadros à renúncia; e ajudou a gerar o clima dos acontecimentos que levaram à deposição de João Goulart.
Não demorou a romper com a Revolução que ajudou a fazer, e tentou formar uma frente de resistência aos militares procurando Jango e JK, até então seus adversários.
Incansável militante, Lacerda morreu aos 63 anos, muito cedo para tanta história vivida.
Mas Lacerda – Coração de tempestade também provoca uma reflexão amarga.
A leitura sobre aquela época, feita agora no século XXI, impressiona pela qualidade dos atores da política naqueles anos, comparada com o momento que vivemos.
Lacerda reunia em torno de si um grupo de brasileiros de cultura, formação cívica e ética. Combatia (e era combatido por) personalidades de valor. Poucos conseguiram ser indiferentes a ele.
Magalhães inclui centenas de figuras da vida pública que cruzaram com Lacerda, sem adjetivações pessoais e com avaliações corretas. Há tão pouco tempo, havia um Brasil com mais qualidade no exercício da vida pública.
O meio século de silêncio desde sua morte certamente permite uma avaliação menos passional. Não entende o Brasil quem não conhece os 40 anos de vida pública deste furacão que passou na República, com seus defeitos e qualidades, mas sempre com a marca da genialidade.
Aristóteles Drummond é jornalista e escritor.
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