Por que o Nepal não conseguiu avisar a população sobre a enchente devastadora

O sistema de alerta precoce para enchentes do Nepal dependia de uma rede convencional de medidores instalados em rios e lagos, que não estava preparada para alertar adequadamente a população sobre a parede de água que devastou os vales do país na quarta-feira, segundo cientistas e especialistas em resposta a desastres.
Geólogos acreditam que a enchente repentina que atingiu Nepal e Tibete foi desencadeada por uma combinação de deslizamento de terra em grande altitude e avalanche glacial, liberando enormes volumes de água. Especialistas afirmam que a velocidade do fenômeno, somada ao fato de sua origem estar em uma região extremamente remota do Himalaia, tornou praticamente impossível que o sistema de alerta nepalês avisasse os moradores a tempo de buscar abrigo.
De acordo com esses especialistas, o Nepal utiliza uma rede de sensores em rios e lagos projetada para detectar elevações graduais do nível da água, como as que normalmente antecedem enchentes causadas pelas monções ou pelo rompimento de lagos glaciais, fenômeno que ocorre quando um reservatório de água derretida de geleiras transborda.
Quando os medidores do Nepal teriam detectado a inundação de quarta-feira, já era tarde demais, afirmam os pesquisadores. A enxurrada destruiu vilarejos, matou centenas de pessoas e deixou mais de mil desaparecidos.
“Não tínhamos a informação certa no momento certo e, por isso, não conseguimos salvar mais pessoas”, disse Basanta Raj Adhikari, diretor do Centro de Estudos sobre Desastres da Universidade Tribhuvan, no Nepal. “O governo nepalês está muito bem preparado para enchentes ligadas às monções e cheias recorrentes, mas não estávamos preparados para uma inundação repentina com essa velocidade.”
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“A enchente se desenvolveu tão rapidamente que as pessoas simplesmente não tiveram tempo suficiente para chegar a locais seguros, mesmo com o sistema funcionando”, afirmou Shushil Kumar Shrestha, engenheiro sênior da Autoridade Nacional de Redução e Gestão de Riscos de Desastres. “O desafio desta vez foi o intervalo extremamente curto entre o início do evento e a chegada da enchente.”
Kristen Cook, geomorfóloga da Universidade Grenoble Alpes, na França, disse que a rede de medidores mantida pelo Departamento de Hidrologia e Meteorologia do Nepal é ampla, mas não foi concebida para detectar deslocamentos de água tão rápidos e volumosos. “O problema em eventos como esse é que os próprios sensores acabam sendo destruídos”, afirmou.
Segundo Cook, quando a água chega ao medidor, normalmente instalado em pontes ou áreas habitadas, já não há tempo para emitir alertas eficazes.
Outro desafio foi o isolamento geográfico da área onde ocorreu o deslizamento inicial, afirmou Austin Lord, pesquisador do Stimson Center, em Washington, especializado em desastres naturais no Nepal. Segundo ele, o deslizamento ocorreu em um “ponto cego” na face norte da cadeia montanhosa de Langtang, uma região pouco habitada e raramente monitorada.
“Em eventos dessa escala, se você não estiver observando constantemente a área e detectando deformações no terreno, é muito difícil prever quando uma encosta vai ceder”, explicou.
“Em termos de alerta precoce, esse tipo de evento é extremamente difícil de prever”, afirmou Stuart Dunning, professor de geomorfologia da Universidade de Newcastle. “Não se trata de um lago glacial, em que se sabe exatamente de onde virá a água.”
Para Cook, uma possível solução seria instalar sistemas capazes de detectar atividade sísmica incomum, em vez de depender apenas do monitoramento do nível dos rios.
Segundo ela, esse tipo de tecnologia poderia ter alertado comunidades situadas rio abaixo sobre um deslizamento como o de quarta-feira, que foi tão intenso que o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) o registrou como um evento sísmico de magnitude 5,2.
Outra alternativa seria aprimorar sistemas de monitoramento por satélite capazes de identificar mudanças ambientais que possam indicar um deslizamento ou avalanche iminente, disse Lord.
“Mas não existe uma única rede capaz de detectar todos os tipos de risco”, afirmou. “É preciso combinar diferentes sistemas para identificar diferentes ameaças até que eles se complementem.”
Na avaliação dos especialistas, o aumento das temperaturas provocado pelas mudanças climáticas torna ainda mais urgente a adoção dessas ferramentas. “Terremotos, deslizamentos e colapsos de encostas podem ocorrer mesmo sem mudanças climáticas”, afirmou Lord. “Mas o aquecimento global é um fator adicional que aumenta a probabilidade, a escala, a frequência e a intensidade desses eventos.”
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