No Nepal, a tragédia foi tão repentina que não houve tempo para fugir

KATMANDU, Nepal — Quando o alerta chegou, já era tarde demais.
Rajan Khatri, de 41 anos, policial em uma vila montanhosa no norte do Nepal, trabalhava na delegacia na manhã de quarta-feira quando recebeu uma ligação de um amigo avisando que uma enchente repentina avançava pelo rio em sua direção. Assim que desligou o telefone, ondas gigantes atingiram o prédio.
“Não consigo explicar o tamanho daquelas ondas”, relatou Khatri de um leito hospitalar em Katmandu, capital do Nepal, nesta quinta-feira. “Elas engoliram edifícios de vários metros de altura em questão de segundos. Não era apenas água. Era uma mistura de pedras, areia e lama espessa.”
A força da corrente o lançou para fora do prédio. Ele perdeu a consciência e sofreu ferimentos no peito. Dois colegas sobreviveram, mas outros quatro continuavam desaparecidos nesta quinta-feira.
Eles estão entre as mais de 1.400 pessoas desaparecidas após a devastadora avalanche de rochas, gelo, árvores, lama e água que percorreu vales fluviais na fronteira entre Nepal e Tibete, destruindo pontes, casas, escolas e usinas hidrelétricas e arrastando pessoas que tentavam fugir.
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Nesta quinta-feira, equipes de emergência percorreram encostas íngremes do Himalaia e utilizaram helicópteros para resgatar sobreviventes em estado de choque enquanto ampliavam as buscas por possíveis sobreviventes.
Autoridades nepalesas informaram que ao menos 389 pessoas morreram. Na China, onde poucas informações foram divulgadas, as autoridades registraram três mortes na região do Tibete.
A expectativa é de que o número de vítimas aumente.
No Nepal, mais de 900 pessoas permaneciam desaparecidas, incluindo cerca de 500 visitantes estrangeiros, segundo a agência nacional de gestão de desastres. Entre os desaparecidos estão pelo menos 288 indianos, além de cidadãos dos Estados Unidos, Austrália, Reino Unido, Canadá e Malásia.
No Tibete, ao menos 558 pessoas estavam desaparecidas no condado de Gyirong, incluindo 260 estrangeiros, segundo a imprensa estatal chinesa. O Ministério das Relações Exteriores da China informou que 100 cidadãos chineses desapareceram no Nepal.
O Departamento de Estado dos Estados Unidos afirmou, em comunicado, que cerca de 90 americanos “podem ter sido afetados pelas enchentes” e que três cidadãos foram resgatados no Nepal. O órgão disse não ter conhecimento de mortes de americanos.
Sobreviventes relataram que tiveram pouquíssimo tempo para reagir antes que ondas gigantes descessem pelos rios Bhotekoshi e Trishuli.
Smriti Ojha, de 17 anos, contou que se preparava para ir à escola na manhã de quarta-feira quando sentiu o chão tremer. Ela correu para fora de casa acreditando que se tratava de um terremoto. Em seguida, viu a enchente.
Segundo ela, sua família imediata sobreviveu, mas quatro parentes continuam desaparecidos.
“Foi aterrorizante”, disse Ojha de um hospital em Katmandu. “Não consigo acreditar que tudo foi levado diante dos meus olhos.”
Autoridades e organizações humanitárias ainda tentavam avaliar a dimensão da destruição na região remota, conhecida por seus lagos de altitude elevada e montanhas escarpadas.
Jornalistas do New York Times que acompanharam o Exército nepalês nesta quinta-feira observaram um cenário de devastação. Em alguns trechos próximos ao rio Bhotekoshi, rodovias praticamente desapareceram. Marcas nas encostas indicavam que, em certos pontos, o nível da água subiu mais de 200 metros durante a enchente.
As operações de resgate são dificultadas pela interrupção das comunicações, pela destruição de dezenas de pontes e por cerca de 40 quilômetros de estradas, informou o governo do Nepal.
A base de busca e resgate do Exército nepalês estava lotada de militares e sobreviventes. Alguns choraram ao desembarcar dos helicópteros. A área ficou sem energia elétrica e sinal telefônico após a tragédia, obrigando equipes de resgate a utilizar rádios militares para se comunicar.
O ministro das Relações Exteriores do Nepal, Shisir Khanal, classificou o episódio como “um dos maiores desastres naturais que enfrentamos nos últimos anos”.
Falando no Salão Oval, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou ter oferecido ajuda ao Nepal.
“Estamos enviando assistência e conversamos com as lideranças locais. Dissemos que qualquer ajuda necessária será fornecida”, declarou.
Cientistas que analisam imagens de satélite e dados sismológicos afirmam que um deslizamento de terra em grande altitude, coincidindo com o colapso de uma geleira, provavelmente provocou a enchente repentina.
Segundo os pesquisadores, o colapso ocorreu na face norte do Langtang Lirung, montanha nepalesa próxima à fronteira com o Tibete, a cerca de 5.200 metros de altitude.
Após uma grande porção da encosta se desprender, milhões de toneladas de rocha e gelo despencaram sobre os vales abaixo, explicou Kristen Cook, geomorfóloga da Universidade Grenoble Alpes, na França.
“Foi um colapso muito maior do que conseguimos identificar inicialmente nas imagens de satélite”, afirmou.
A queda de rochas e gelo provocou um tremor tão intenso que o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) registrou o evento com magnitude 5,2, equivalente a um terremoto moderado.
Segundo os cientistas, temperaturas mais altas associadas às mudanças climáticas podem ter contribuído para desestabilizar a geleira e a encosta, embora ainda seja cedo para determinar a causa exata.
“Terremotos, deslizamentos e rupturas de encostas podem ocorrer mesmo sem mudanças climáticas”, disse Austin Lord, antropólogo e pesquisador do Stimson Center, em Washington. “A questão é que as mudanças climáticas aumentam a probabilidade, a escala, a frequência e a intensidade desses eventos.”
O Nepal possui um sistema de alerta para enchentes, mas ele depende de sensores convencionais em rios e lagos e não estava preparado para detectar o colapso repentino de parte de uma montanha, segundo cientistas e pesquisadores especializados em desastres.
Esses sistemas foram projetados para identificar elevações graduais do nível da água, como as que normalmente antecedem enchentes provocadas pelas monções ou pelo rompimento de lagos glaciais.
“Não tínhamos a informação certa no momento certo e, por isso, não conseguimos salvar mais pessoas”, disse Basanta Raj Adhikari, diretor do Centro de Estudos sobre Desastres da Universidade Tribhuvan.
“O governo nepalês está bem preparado para enchentes de monções e cheias recorrentes, mas não estava preparado para uma inundação repentina com essa velocidade”, afirmou.
c.2026 The New York Times Company


















