Combate à seca ganha fundo para atrair capital privado na COP17

A desertificação está deixando de ser tratada apenas como uma agenda de conservação e entrando na discussão sobre alocação de capital. A COP17, da Convenção da ONU para o Combate à Desertificação (UNCCD), colocou o financiamento privado e mecanismos de mercado no centro da discussão sobre restauração de terras.
A conferência está sendo realizada em Ulan Bator, na Mongólia, de 17 a 28 de agosto de 2026. “Falamos de financiamento não para doar, mas para investir. Para mobilizar recursos que invistam nas pessoas, nas economias e na prevenção”, disse a secretária executiva da UNCCD, Yasmine Fouad.
O problema não é apenas encontrar dinheiro para a restauração, mas transformar a atividade em uma classe de investimento financiável. Isso aproxima a agenda da UNCCD das discussões que já ocorrem nas COPs de clima e biodiversidade sobre blended finance, créditos ambientais, métricas e redução de risco.
Exemplo disso é o Fundo de Investimento para a Resiliência à Seca (DRIF, na sigla em inglês), lançado oficialmente nesta terça-feira (25) na COP17, um veículo de blended finance que tem a meta de mobilizar US$ 400 milhões em investimentos privados.
Esse é o primeiro mecanismo global dedicado a financiar agricultura sustentável, gestão sustentável da água e soluções baseadas na natureza para regiões afetadas pela seca. Ele foi criado no ano passado a partir de um memorando de entendimento assinado pelo governo de Luxemburgo e pela UNCCD.
À época, a secretária-executiva da UNCCD o classificou não apenas como uma inovação financeira, mas uma “tábua de salvação para as comunidades na linha de frente da seca.”
O DRIF usa uma estrutura de financiamento misto, em que o dinheiro catalítico (filantrópico ou subsidiado) entra para reduzir custos ou mitigar riscos, atraindo recursos privados em maior escala.
A meta é captar uma primeira tranche de US$ 40 milhões com governos, que será usada para absorver as primeiras perdas (first-loss capital). Isso funciona como incentivo para captar recursos de investidores institucionais, como seguradoras, fundos de pensão e fundos soberanos.
Luxemburgo foi o primeiro a anunciar aportes. O país se comprometeu com € 5 milhões. O fundo está estruturado dentro do Luxembourg Earth Impact Fund (LEIF), um fundo de investimentos do governo de Luxemburgo em parceria com a gestora Schroders e a BlueOrchard, e foi operacionalizado sob a plataforma Business for Land (B4L), veículo da UNCCD para envolver o setor privado na gestão sustentável da terra e da água.
O mandato do fundo prevê o financiamento de projetos de US$ 5 milhões a US$ 20 milhões, em média, em países do Sul Global vulneráveis à seca e à degradação dos solos, em três frentes: infraestrutura hídrica, agricultura sustentável e soluções baseadas na natureza.
Na frente de infraestrutura hídrica resiliente, o fundo prevê recursos para a construção de açudes, reservatórios e bacias de retenção, sistemas de tratamento e reutilização de águas residuais agrícolas, recarga de aquíferos e tecnologias digitais de monitoramento hídrica com inteligência artificial.
Na agricultura sustentável, financia a transição para práticas regenerativas, sistemas de irrigação eficiente por gotejamento e cadeias de valor agrícolas com impacto neutro na degradação da terra.
Já em soluções baseadas na natureza, o DRIF vai apoiar o reflorestamento de bacias hidrográficas críticas, a recuperação de solos degradados e a gestão sustentável de pastagens.
Além disso, o fundo prevê uma estrutura de assistência técnica para ajudar governos e entidades locais a preparar projetos antes da etapa de financiamento. Isso será feito com recursos não reembolsáveis (grants), que poderão ser usados para contratar engenheiros, consultores financeiros e outros especialistas, com o objetivo de transformar propostas em projetos estruturados e aptos a receber investimentos.
Onde está o dinheiro do solo?
O lançamento do DRIF vem na esteira de anúncios de financiamentos e investimentos no montante de US$ 1,3 bilhão nesta segunda-feira (24), o “dia das finanças” na programação da COP17. Desse valor, US$ 644,5 milhões são considerados novos recursos.
Destravar o financiamento para combater a desertificação é um dos objetivos deste ano da ‘COP dos solos’. Na edição anterior, os países não chegaram a um acordo para transformar compromissos voluntários em mecanismos práticos e financeiros.
Na COP16, os países saíram da Arábia Saudita com a promessa de levantar US$ 12 bilhões até a edição deste ano. A UNCCD estima que serão necessários cerca de US$ 355 bilhões por ano até 2030.
Meta brasileira
Outro objetivo da conferência é pressionar os países a assumirem compromissos para garantir que a quantidade de solos saudáveis e produtivos seja mantida ou aumentada ao longo do tempo em seus territórios. Dos 196 países membros da UNCCD, 131 comprometeram-se a estabelecer metas de Neutralidade da Degradação da Terra (LDN, na sigla em inglês).
Com quase dez anos de atraso, o Brasil apresentou sua LDN nesta terça-feira (25). A promessa é restaurar cerca de 163 mil km2 até 2030. O país usa como referência o ano de 2020, quando detinha 55,7 milhões de hectares com tendência à degradação.
Para chegar à meta, estão previstas iniciativas para recuperar a vegetação nativa, investimento em sistemas agroflorestais, além de ações em unidades de conservação, territórios indígenas, áreas de preservação permanente e bacias hidrográficas.
Cerca de 18% do território brasileiro é constituído por Áreas Suscetíveis à Desertificação (ASD), segundo o boletim mais recente da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene).
*Com informações da Agência Brasil

























