Demanda por Tesouro Direto cai em outubro, mas pode se recuperar com chance de juros maiores
A busca por títulos do Tesouro Direto diminuiu em outubro pelo terceiro mês seguido, com queda na demanda em todas as categorias, segundo dados do Ministério da Economia divulgados nesta quinta-feira (25).
Os números mostraram que as vendas de títulos pelo governo superaram os resgates feitos pelos investidores em R$ 774,1 milhões. Este, no entanto, foi o pior saldo desde maio do ano passado, quando as vendas líquidas foram de R$ 597,2 milhões.
A perda de interesse dos investidores pelo Tesouro Direto coincide com a pausa no ciclo de alta dos juros – que diminui o apelo dos investimentos nos títulos vinculados à Selic, a taxa básica de juros -, a deflação na economia brasileira – que é desfavorável aos títulos corrigidos pela inflação – e o período eleitoral – que traz incerteza sobre o cenário econômico e joga contra o investimento em papéis prefixados.
A situação, porém, pode se inverter nos próximos meses. A recente disparada dos juros futuros e o retorno das discussões sobre novos aumentos da Selic, dadas as dúvidas sobre o grau de compromisso do governo eleito com o equilíbrio das contas públicas, devem atrair novamente os investidores para o Tesouro Direto.
Cenário incerto
Ricardo Teófilo, head de renda fixa da Órama, destaca que o comportamento dos juros futuros está atrelado às respostas que o novo governo vai dar ao mercado financeiro.
A principal preocupação é como o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vai tratar a questão fiscal, considerada pelo mercado financeiro como um dos principais problemas do país.
Os sinais dados até agora foram de que o próximo governo quer uma licença para remover, por um período indeterminado, gastos sociais como o Auxílio Brasil das restrições impostas pelo teto de gastos – regra que impede as despesas públicas de crescerem mais que a inflação.
Isso porque, durante a campanha, tanto Lula quanto Bolsonaro prometeram manter o pagamento de R$ 600 mensais do Auxílio Brasil no ano que vem, mas esta despesa não estava incluída no orçamento de 2023.
O gasto adicional também estava fora da conta do mercado, que passou a enxergar na despesa extra um elemento inflacionário e que pode levar a novas altas nos juros.
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“Tudo isso deu uma tumultuada no cenário e passou a se precificar um novo aumento dos juros, revertendo as discussões anteriores sobre a possibilidade de corte da taxa”, afirma Teófilo “Caso esse cenário se mantenha, e não há nenhuma definição, é possível que fluxo para renda fixa retorne mais intenso”.
Luciano Costa, economista-chefe e sócio da Monte Bravo, segue na mesma linha ao condicionar a melhora do cenário de juros às definições da nova política fiscal e dos nomes que serão indicados para compor a equipe econômica.
“Se o governo optar por uma política fiscal muito expansionista, a tendência é o cenário ficar mais inflacionário”, afirma.
Atualmente, o mercado acha que a inflação terminará o ano que vem em 5,01%, acima do limite de 4,75% ao ano previsto no regime de metas do Banco Central. Segundo Costa, as previsões tendem a aumentar se persistirem as dúvidas a respeito de como o próximo governo vai controlar a dívida pública.
“A tendência é revisar para cima. O quanto poderia ser, ainda não tem como responder, já que não se sabe o que o governo vai fazer com a questão da política fiscal”, diz.
Nesse momento de incerteza, o sócio da Monte Bravo não recomenda aportes no Tesouro Direto em opções prefixadas e indexadas ao IPCA, os mais sensíveis às mudanças dos juros.
“A questão da PEC pode ser resolvida em questão de duas a três semanas. Isso vai tirar uma incerteza grande do mercado. E ao longo de dezembro o novo governo deve anunciar os novos ministérios, o que vai ajudar a dar clareza ao cenário”, explica.
Tesouro Direto ligado à inflação sofreu mais
Os títulos do Tesouro Direto relacionados à inflação foram os mais prejudicados pela queda na demanda em outubro. O Tesouro IPCA+ (NTN-B Principal) teve o pior resultado, com um resgate líquido de R$ 57,8 milhões, ante a entrada de R$ 86,7 milhões em setembro.
Já as vendas líquidas de títulos IPCA+ com juros semestrais (NTN-B) somaram R$ 18,8 milhões em investimentos, queda de 70% em relação ao mês anterior.
Os papéis de IPCA já haviam sido destaque negativo em setembro, segundo mês seguido de deflação na economia brasileira.
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Como parte da remuneração destes títulos cresce quando a inflação aumenta, em períodos de deflação – ou seja, de queda nos preços -, acontece o inverso, e há corrosão do rendimento proporcionado pelos papéis. O
Em outubro estava previsto o fim deste efeito negativo do IPCA, o que acabou se confirmando com a alta de 0,59% no índice, acima do esperado pelos analistas.
Selic e prefixados também recuam
Os papéis do Tesouro Selic (LTF), que tradicionalmente são os mais procurados do Tesouro Direto, registraram a entrada líquida de R$ 753,4 milhões em investimentos em outubro, queda de 19% ante setembro (R$ 909,4 milhões).
A opção é a mais impactada pela pausa na alta da taxa Selic porque oferece um rendimento semelhante ao da taxa básica de juros. A Selic está parada em 13,75% ao ano desde o início de agosto, após passar quase um ano e meio em alta.
Os papéis do Tesouro Direto indexados à taxa básica de juros são os mais indicados em momentos de forte incerteza e de expectativa de alta de juros, pois a remuneração que oferecem aumenta na mesma proporção.
O alto grau de liquidez e o acompanhamento da taxa de juros também fazem com que os papéis indexados à Selic sejam os mais recomendados para investidores mais conservadores e para a construção de uma reserva de emergência.
As opções prefixadas viram os aportes em outubro na comparação com setembro. As vendas líquidas de papel prefixado (LTN) pelo Tesouro caíram de R$ 102,8 milhões para R$ 50,9 milhões.
A opção prefixada com juros semestrais (NTN-F) teve retração mais suave. Em outubro, o papel registrou saldo positivo de R$ 26,9 milhões, queda de 24% ante setembro (R$ 35,4 milhões).
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