A pandemia chegou sem que ninguém esperasse e, da mesma forma, permanece rondando a sociedade enquanto desejo geral era sua eliminação completa. Neste ínterim, a economia digere inevitáveis consequências, em todos os setores, e com o varejo de moda não é diferente.
Poucos, na verdade, sofreram tanto como esse segmento. As empresas de varejo de moda, acostumadas com um Brasil aquém em termos de desenvolvimento do comércio eletrônico, se viram obrigadas a investir para fazer frente aos desafios desse período.
Os impactos negativos relacionados à liquidez no ponto mais crítico da pandemia foram parcialmente solucionados com a captação de recursos.
De caixa cheio, embora majoritariamente mais endividadas, as empresas do varejo de moda podem encarar um momento de consolidação entre players à frente.
Algumas viram a concorrência cada vez mais acirrada pegar tração e varejistas ficaram pelo caminho. Não obstante, as fronteiras concorrenciais estão sendo ultrapassadas, com empresas estrangeiras dando as caras por aqui também.
As duas faces da retomada
O varejo brasileiro passou por duas distintas conjunturas. Parte do setor usufruiu do distanciamento social e conseguiu colocar em prática medidas para expandir seu engajamento e monetização de plataformas.
A necessidade de adaptação das empresas, sobretudo as mais tradicionais. Os marketplaces fomentaram o crescimento do comércio eletrônico do país e, a despeito das barreiras logísticas, o fizeram bem-feito.
O Magazine Luiza (MGLU3), por exemplo, usou a contexto como trampolim para elevar suas vendas totais ligadas ao e-commerce de R$ 4,31 bilhões no quarto trimestre de 2019 para R$ 10 bilhões nos primeiros três meses deste ano.
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Diferentemente do varejo de moda, o Magalu vende de tudo e mais um pouco. A empresa, assim como suas concorrentes como Via (VIIA3) e Americanas SA (AMER3), conseguiram capturar a parte de renda disponível enquanto a população estava em quarentena residencial.
Isto é, aproveitaram o movimento de compra de móveis, materiais para informática, eletrodomésticos e eletroeletrônicos, enquanto a venda de bens duráveis ainda encaixava no bolso dos clientes . Ao mesmo tempo, havia pouco incentivo a renovar o vestuário, já que ninguém saía de casa.
Mesmo com todos os problemas econômicos do país em 2020 – quando houve queda de 4,1% do PIB, a maior na série histórica do IBGE -, as vendas do comércio varejista encerraram o ano em alta de 1,2%.
Em 2021, a alta foi maior, de 1,4%. Ou seja, as vendas no varejo nunca estiveram abaixo do nível pré-pandemia, em bases anuais, desde que a Covid-19 chegou. O último ano a registrar recuou em relação ao período anterior foi 2016, cuja queda foi de 6,2%.
A recessão econômica do novo coronavírus foi muito menos intensa que a observada em meados da década passada. Sinal disso é a forte retomada do próprio varejo.
De acordo com o ICVA (Índice Cielo do Varejo Ampliado), as vendas no varejo em abril deste ano cresceram 20,5%, acima da inflação, em comparação com igual mês de 2021.
Embora a alta ainda seja puxada pelo setor de serviços, em função da economia com portas totalmente abertas, há alta expectativa de que o varejo de moda solidifique sua retomada com a queda no desemprego do país .
O e-commerce como ferramenta obrigatória
Nos últimos anos, em qualquer espectro econômico, empresas se viram obrigada a investir em automação, tecnologia e inteligência digital. No varejo de moda, principalmente, as companhias tiveram de lidar com o fechamento de suas unidades físicas de forma abrupta.
Deixando de lado as lojas físicas de rua, que sofreram de forma intensa principalmente durante os últimos três trimestres de 2020, a suspensão das unidades de shopping centers também gerou forte impacto negativo.
Em 2020, os shoppings ficaram totalmente fechados em São Paulo por 85 dias. Entre março de 2020 e o final de 2021, o vaivém das medidas contra a Covid-19 levou instabilidade às varejistas de moda, além da queda da rentabilidade e maiores despesas de vendas, gerais e administrativas.
É verdade que já existia um movimento de migração para a internet, com o advento das redes sociais na última década. O processo, entretanto, foi acelerado durante a pandemia.
Durante meses a fio, o e-commerce foi entendido como ferramenta obrigatória para que as empresas continuassem operando.
Desde 2018, a Lojas Renner (LREN3) quase quadruplicou o número de colaboradores nas áreas de TI (Tecnologia da Informação) e dados, num constante trabalho de digitalização do negócio.
Neste cenário, a experiência dos clientes é um fator essencial na hora de fazer uma compra pela internet. Significa dizer que a plataforma deve ser intuitiva, inclusiva, com múltiplas opções de produtos e entrega rápida.
No ano passado, a C&A (CEAB3) investiu em tecnologia para reduzir o prazo de entrega para os clientes em seu comércio eletrônico. Cerca de metade dos envios de produtos são feitos em até dois dias úteis.
No primeiro trimestre deste ano, a Guararapes (GUAR3), controladora da Riachuelo, teve um Capex de R$ 121,04 milhões. Desse montante, R$ 64,02 milhões (52,9%) foram alocados em tecnologia.
E os investimentos têm razão de existirem. Embora o crescimento do e-commerce durante os períodos de distanciamento social tenham sido cavalares a ponto de ser observada uma desaceleração, avanço é ininterrupto.
Entre janeiro e março deste ano, o comércio eletrônico cresceu 12,59% em comparação ao mesmo período de 2021, segundo dados do índice MCC-ENET, desenvolvido pela Neotrust, em parceria com o Comitê de Métricas da Câmara Brasileira da Economia Digital.
Mas ainda há mato para cortar no segmento. No primeiro trimestre, o e-commerce foi equivalente a 11,6% do varejo total. Nos Estados Unidos, essa proporção é de aproximadamente 15%, enquanto na China ultrapassa 50%, segundo informações referentes a 2021.
De acordo com dados levantados pelo Grupo Soma (SOMA3), dono de marcas de vestuário, o varejo de moda tem mercado endereçável de R$ 115 bilhões no Brasil e de R$ 350 bilhões entre Estados Unidos e Europa.
Primeiro trimestre sustenta vieses do setor
Os principais nomes do varejo de moda brasileiro, dentre as listadas em Bolsa, são:
Lojas Renner;
Arezzo;
Grupo Soma;
Guararapes;
C&A.
Renner
No caso da Renner, a maior varejista de moda do Brasil, o crescimento reportado no primeiro trimestre deste ano foi forte, partindo de uma base fraca no mesmo período de 2021.
A demanda reprimida pelo varejo de vestuário fez com que a Renner pudesse usufruir de suas melhorias em termos de design, execução nas lojas físicas reabertas e tecnologia, sobretudo em função da omnicanalidade (integração de diversos canais de venda).
O resultado entre janeiro e março deste ano foi, majoritariamente, acima das expectativas do mercado. A empresa abandonou o prejuízo de R$ 147,7 milhões no primeiro trimestre do ano passado e reportou um lucro líquido de R$ 191,63 milhões.
Os dados de perdas com crédito, líquidas das recuperações, ficaram com comparabilidade prejudicada em função das reversões de provisões ao longo do ano passado. Ou seja, a sensação de risco para concessão de crédito no varejo de moda pode estar diminuindo.
O ponto de atenção, entretanto, ficou para o CPV (custo dos produtos vendidos), que saltou 53,3% (em menor proporção que a receita) no período, para R$ 1 bilhão.
Em todo o setor, há elevação de pressão dos custos de produção e de despesas operacionais (vendas, gerais e administrativas). A alta de preços de logística e algodão, por exemplo, podem ser o freio de mão, mesmo que parcial, dos resultados daqui para frente.
Arezzo
A Arezzo (ARZZ3), por sua vez, continua entregando crescimento inorgânico – principal vetor de geração de valor aos investidores. A controladora de Schultz, Reserva e operadora da Vans no Brasil, viu o seu lucro crescer mais de três vezes no primeiro trimestre deste ano, para R$ 98 milhões.
Crescimento do resultado líquido da Arezzo na última década
Fonte: TradeMap
As vendas online (representadas pelo web commerce no balanço) equivalem a 24% de toda a receita bruta e cresceu 40,6% em comparação ao mesmo período do ano passado (quando as lojas físicas ainda estavam fechadas), o que é um resultado sólido.
Mas chamou atenção a retomada das vendas em lojas próprias, considerando todas as marcas do grupo. O crescimento foi de 135,8%, mesmo que o faturamento desta linha equivalha a 21% da receita total.
Atualmente, a Arezzo tem 152 lojas próprias e 773 franquias, em um modelo de negócio que tem dado certo e gerado resultados.
As vendas em mesmas lojas (SSS, na sigla em inglês, que considera o mesmo número de lojas existentes em relação a igual período anterior) de franquias, carro-chefe do negócio, cresceram 38,1 pontos percentuais em 12 meses, para 42,8% no primeiro trimestre deste ano.
Grupo Soma
Assim como a Arezzo, o Grupo Soma é, de certa forma, blindado pelo consumo de alta renda. Com os recursos captados no IPO (oferta pública inicial de ações), em 2020, a companhia expandiu seus negócios e sua digitalização, sempre de olho nas marcas premium .
A empresa surgiu da combinação de negócios entre Animale e Farm há 12 anos, duas marcas que já conversavam com clientes de maior poder aquisitivo.
O destaque nos últimos meses foi ter fechado a compra da centenária Hering (ex-HGTX3 na Bolsa) por R$ 5,1 bilhões.
O movimento marcou a entrada do grupo na moda popular, ampliando o escopo dos negócios. O potencial mercado da companhia, com isso, mais do que triplicou, segundo ela mesma.
A razão para isso vem do amplo público-alvo. Com a Hering, a base ativa de clientes alcança cinco milhões. Sem a marca, é mais de três vezes menor.
Em termos de resultado, no primeiro trimestre deste ano, a receita total (proforma, devido às aquisições) atingiu o patamar de R$ 1,17 bilhão, avanço de 56,2% em relação ao mesmo período de 2021 e de 48,8% em comparação ao mesmo trimestre de 2019, quando a pandemia ainda não havia impactado os negócios.
Guararapes
A Guararapes, dona da Riachuelo, entretanto, ainda encontra dificuldades. Enquanto o setor retoma sua rentabilidade, a companhia ainda navega no campo do prejuízo.
No primeiro trimestre de 2022, a empresa registrou uma perda de R$ 80,1 milhões, mas que significa uma melhora de 23,6% em relação ao resultado negativo do mesmo período de 2021.
A boa notícia vem do faturamento. A receita líquida da companhia registra crescimento de quase 40% em 12 meses, alcançando R$ 1,7 bilhão.
A empresa aposta em seu banco digita, Midway, que já tem 1,7 milhão de contas abertas, para se integrar ainda mais com o varejo e aumentar as soluções para seus clientes.
C&A
A C&A, por sua vez, aumentou seu prejuízo . Entre janeiro e março, a companhia teve perdas de R$ 152,7 milhões. O mau momento vivido pela empresa – sinal da queda de 80% desde o IPO, em 2019 – ressuscita os rumores de que a varejista pode ser vendida para algum player do setor.
O primeiro trimestre reforçou os vieses do mercado para as companhias que já mostravam dominância, como Renner e Arezzo e, de certa forma, o Soma. E de modo contrário, Guararapes e C&A.
Contexto pandêmico
Entre oportunidades de crescimento e otimização do setor, o risco pandêmico ainda segue no radar. Um recrudescimento da pandemia poderia pesar sobre o resultado das empresas novamente.
Dados do poder público de São Paulo mostram um crescimento relevante no número de internados em função da Covid-19, mas o reflexo na quantidasde de óbitos é pequeno.
O contexto de alta vacinação, embora as doses adicionais tenham ainda pouca adesão – faz com que seja um tanto improvável que medidas restritivas voltem a fechar as lojas das varejistas. Caso acontecesse, não seria a primeira vez. Elas estariam mais bem preparadas, com planos contingenciais.
Chances de consolidação inorgânica
Enquanto parte do setor retoma as atividades no pós-pandemia de forma mais intensa do que antes, outros players indicam que enfrentam desafios. Esse cenário levanta a possibilidade de consolidação inorgânica do mercado.
Embora com um mercado endereçável de R$ 115 bilhões, é pouco provável que existam muitos gigantes atuando sobre o varejo de moda, a ponto de se diferenciarem em seus modelos de negócio.
A tendência é que, em algum momento, os agentes do mercado unam forças e que, aos poucos, as opções se restrinjam a menos empresas.
A C&A, por exemplo, disse anos atrás que queria ser a primeira varejista de moda 100% omnichannel . Contudo, mesmo com as medidas implementadas a partir de 2016, a empresa ainda está significativamente abaixo da Renner nesse sentido.
A própria C&A, inclusive, como dito, é constantemente citada como alvo de compra por algum outro competidor, dada a sua capilaridade no Brasil. A dificuldade em dar tração aos negócios, porém, pressiona a cotação dos papéis da varejista.
Os planos da companhia estão em curso e, sem tirar o pé do acelerador, é esperado que o Capex (investimentos em nova lojas, reformas e tecnologia) permaneça em crescimento no médio prazo, sobrando menos fluxo de caixa livre para os investidores.
Atualmente, o valor de firma da C&A, que considera o valor de mercado e a dívida líquida, está em R$ 1,98 bilhão.
Esse montante é praticamente o mesmo que a Renner possui em caixa, já descontado o endividamento. Após a captação de R$ 3,9 bilhões no mercado de capitais no ano passado, o rumor foi de que a companhia tentasse comprar a Dafiti.
A empresa-alvo, embora com maior escala no varejo eletrônico, custaria algo próximo de R$ 10 bilhões. A C&A seria uma opção mais barata, e a Renner é a mais capitalizada para apertar o gatilho.
Do outro lado, a Arezzo também procura crescer de forma inorgânica e procura um alvo da “base da pirâmide” para entrar de vez no segmento de vestuário unissex, já que seus negócios ainda são majoritariamente voltados para o público feminino.
No início deste ano, a empresa levantou R$ 830 milhões com um follow-on (oferta subsequente de ações). No fim de março, tinha R$ 426,27 milhões líquidos em caixa.
Um dos entraves para que a companhia entre, de fato, na disputa por um grande player diz respeito ao endividamento. O indicador está sob controle, mas 94,5% do montante vencem no curto prazo, ou seja, em até 12 meses.
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Com R$ 5,6 bilhões em caixa, faria sentido para a Renner comprar a C&A?
No próximo ano, a Arezzo terá de pagar R$ 268,46 milhões em dívidas, comendo quase 40% do caixa. Nada impede, contudo, que a empresa trace um novo plano de captação de recursos para colocar a mão na massa.
As sinergias de uma eventual compra da C&A seriam relevantes para a companhia, dada sua expertise em operacionalização de empresas em forma de holding.
Independentemente de qual competidor fosse mais agressivo na compra da C&A, os acionistas da empresa provavelmente veriam como positivo o negócio, sobretudo pela incerteza ligada à governança.
Menos de 10% do dinheiro levantado na abertura de capital – momento que deveria dar combustível à empresa – foi utilizado para a ampliação das operações efetivamente.
Do restante, metade foi em oferta secundária, enchendo o bolso da Holding Cofra e a Inca S.A, e a outra metade foi para o pagamento de uma dívida junto à C&A europeia, que pertence à Cofra. Acontece que tanto Cofra quanto a Inca são empresas da família Brenninkmeijer, controladora da C&A.
Isso foi bem explicado no prospecto do IPO, mas o esvaziamento da posição acionária dos controladores nunca é um bom sinal. Afinal, se houvesse confiança de que o longo prazo é promissor, não existiria razão para a venda das ações pelos controladores.
Desempenho das empresas na Bolsa
Com a contração monetária global, o mercado de capitais brasileiro tem exprimido suas expectativas de menor crescimento das empresas que o propunham de formas diferentes.
No Brasil as companhias ligadas ao e-commerce se confundem cada vez mais com tecnologia e fintechs , dado o alto potencial num país pouco explorado neste sentido.
Não foi diferente com as empresas do varejo de moda que, em maior ou menor grau, sofrem com a instabilidade dos mercados globais, além do contexto local de alta inflação e desemprego.
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No caso da Renner, se paga mais caro pela excelência e décadas de entrega de resultados; na Arezzo, a percepção é a de que o valor crescerá e irá convergir para os múltiplos, que estão acima dos pares.
Na Guararapes e C&A, por exemplo, os investidores precificam o ajuste dos preços para as médias históricas, mas não por aumento de múltiplo e sim por queda nos resultados.
Entretanto, diferentemente do território americano, onde pouco se sabe sobre a extensão do ciclo da taxa de juros, no Brasil já se estima o fim da guinada da Selic.
Embora a taxa de juros possa ficar mais tempo do que o esperado na casa dos dois dígitos e muito longe da mínima histórica, é possível que o caminho contrário seja traçado, os papéis se invertam e as empresas “de crescimento” do Brasil tenham desempenho superior às americanas no médio prazo.
De acordo com dados compilados pela Refinitiv , apresentados na plataforma do TradeMap , as recomendações majoritárias para as empresas do setor, com base nos dados de analistas no dia 6 de junho de 2022, eram: