Mercado subestima risco elevado de inflação superar 10% em 2022
A inflação voltou definitivamente ao centro do debate de política econômica. O fenômeno, como já destacado por vários veículos de imprensa, não é uma exclusividade do mercado brasileiro. Desde a década de 1970 a economia mundial e particularmente os Estados Unidos não enfrentavam um cenário de taxas de inflação tão elevadas.
No Brasil, entre 2019 e 2020 os índices ficaram próximos das metas de inflação estabelecidas pelo governo, especialmente em decorrência do quadro de baixo nível de crescimento e o início da pandemia. Porém, em 2021 se percebeu o recrudescimento da inflação e a sua continuidade no início de 2022. Neste ponto, é importante destacar a fragilidade de alguns prognósticos realizados pelo mercado em torno da inflação futura.
No final de 2021 e início de 2022 muitos analistas projetavam a inflação para algo em torno de 5%. Naquele momento, em conversas com jornalistas, nas quais discutia os resultados do IPCA, ao ser questionado se esse seria realmente o comportamento da inflação para 2022, devolvi a pergunta: qual seria a base existente para sinalizar tal projeção.
O que se observava naquele momento era a baixa probabilidade de que este resultado fosse alcançado. E o cenário sinalizado não poderia ser materializado exatamente pelo fato de que os fatores que contribuíram para a inflação elevada em 2021 continuavam presentes. Assim, não era crível situar as taxas de inflação nesse patamar (oscilando próximo dos 5%).
De modo bem simplificado, podemos destacar que cada consultoria econômica, ao tentar calcular suas expectativas para a inflação e construir seus modelos, considera algumas variáveis como: consumo; adversidades climáticas sazonalidade, juros nominais; preços externos. Além disso, são observados os padrões de resposta do governo por meio das políticas fiscal e monetária.
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E, no caso da economia brasileira é sempre importante destacar o papel das crises políticas, especialmente em períodos de eleições.
Lembrando que realizar previsões macroeconômicas é um exercício bastante complexo na medida em que é necessário conhecer bem o comportamento das variáveis analisadas. Outro dilema, que está implícito, especialmente em algumas “leis” econômicas, refere-se à crença de que o futuro deve se comportar como o presente. Ressalte-se que não é uma exclusividade da economia. Trata-se de um pressuposto do método indutivo.
Mas, então, o que está ocorrendo em 2022?
Inicialmente, devemos destacar que os fatores climáticos adversos observados em 2021 se repetiram em 2022, afetando importantes culturas. A volatilidade das taxas de câmbio também contribuiu sobremaneira para aumentos em inúmeras cadeias produtivas.
No caso das influências dos fatores externos, devemos destacar que, em 2021, a gasolina teve um reajuste de 47,5%, resultado do aumento do petróleo no mercado internacional.
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Por fim, e não menos importante, o cenário político instável e a crise sobre as instituições também foram elementos presentes no ano passado e que persistiram em 2022.
A inflação acumulada em 12 meses já bate os dois dígitos. É verdade que o Brasil não está descolado do que ocorre no mundo. Porém, além das adversidades que já se colocavam para a economia brasileira no início do ano, o conflito Rússia-Ucrânia contribuiu para a radicalização deste cenário.
O resultado já conhecido foi a grande pressão sobre a produção de diversos itens que são dependentes dos insumos importados. Paralelamente, o aumento de commodities como milho e soja se traduz no aumento de preços da produção de ração animal.
Assim, quando observamos os índices de preços, especialmente o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) e INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor), percebemos uma elevada taxa de difusão, o que sinaliza que a inflação começa a fugir do controle.
No curto prazo
Mas, voltando as observações iniciais, se é de fato um difícil exercício projetar inflação para período mais longo, em função do pouco domínio das variáveis independentes, pelo menos no curto prazo é possível sinalizar esse comportamento. E, sendo assim, os agentes econômicos podem se posicionar e antecipar algumas decisões.
No caso do governo, a resposta seria a antecipação do processo e tomadas de decisões que pudessem reverter ao quadro. Por exemplo, além do comportamento dos preços e do cenário político internacional, é possível observar atentamente a evolução dos preços no atacado.
No curtíssimo prazo, o IBGE já disponibiliza a prévia da inflação (IPCA -15) próximo ao término de cada mês e, nesse sentido pode contribuir para sinalizar qual deverá ser a taxa de inflação divulgada, sempre na segunda semana do mês.
Para um período um pouco mais elástico, informações disponíveis possibilitam que sejam observados movimentos em algumas cadeias produtivas, como o comportamento dos preços no atacado.
Desde 2009, o IBGE divulga o Índice de Preços ao Produtor (IPP), e a FGV desde 2010, o Índice de preços ao Produtor Amplo (IPA). É claro que há muitas limitações em torno destes indicadores.
No caso do IPP, observa-se a agregação excessiva, pois os itens seguem a Classificação Nacional de Atividades Econômica (CNAE), integrando basicamente a indústria extrativa e de transformação. Assim, em certa medida, o comportamento dos preços no atacado provoca ressonância nas demais etapas produtivas e nos preços ao consumidor. Ou seja, não há nenhuma surpresa na inflação de curto prazo.
Assim, o que foi possível perceber, especialmente no início de 2022, é que muitos formadores de opinião acabaram reproduzindo essa percepção de que ocorreria declínio da inflação ao longo do ano. Certamente muitos vão apontar que o cenário de conflito Rússia-Ucrânia não estava no contexto.
Por fim, há um grande impasse, especialmente no tocante aos dois grupos que mais têm pressionado o índice de preços ainda. O grau de incerteza em torno do comportamento dos preços dos combustíveis no mercado interno ainda é extremamente elevado.
No caso do grupo alimentação, medida recente adotada pelo governo foi a redução do imposto de importação de alguns itens como feijão, massas, arroz e carnes. É importante destacar que em março a mesma medida ocorreu para itens como café, margarina, óleo de soja e macarrão.
A título de exemplo, o café teve uma variação de 2,5% em abril e, no acumulado do ano já registra um aumento de 13,2%. Existem fatores que que podem explicar o comportamento.
Em algumas cadeias produtivas, a redução dos tributos não chega aos consumidores. Além disso, devemos lembrar da crise nos preços do arroz em 2020. O governo zerou tributo sobre a importação do produto, no entanto, os preços só declinaram com a entrada da nova safra.
Por fim, ainda temos o aumento da temperatura no processo eleitoral. Ou seja, novamente se o passado recente for a referência, a probabilidade de fecharmos 2022 com inflação de dois dígitos é muito elevada.