O mercado de capitais é feito de expectativas, não só no Brasil, mas em todo o mundo. A Bolsa de Valores apenas manifesta as estimativas dos agentes no curto, médio e longo prazos. Essas perspectivas, porém, podem ser disfuncionais.
Desde a crise do subprime, em 2008, o mercado viu exageros na precificação de ativos ligados a crescimento, em função do dinheiro fácil e barato. Já desde a chegada da pandemia, a Bolsa de Valores projeta que algumas companhias nunca mais voltarão a prosperar, ou que o valor delas mudou drasticamente.
O valor de mercado das empresas, que nada mais é que o número de ações emitidas multiplicado pela cotação atribuída a elas, demonstra o quanto tais companhias valem sob o prisma dos investidores, sem considerar o endividamento e o valor em caixa.
Em teoria, o valor imputado a uma empresa para que seja possível adquiri-la deve levar em consideração não só o valor de mercado, mas também a dívida bruta, subtraindo o dinheiro em disponibilidades. Esse é o EV (valor de firma, na sigla em inglês).
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O valor de mercado, contudo, é uma métrica inteiramente dinâmica, que varia conforme a oferta e demanda dos investidores no dia a dia. Neste contexto, a alta e queda das cotações conversa com a diferença entre preço e valor.
Muitas vezes, as companhias podem estar sendo negociadas abaixo do que realmente valem – até mesmo do que têm em caixa.
De acordo com um levantamento do TradeMap , 12 empresas da Bolsa brasileira têm seu valor de mercado abaixo do que possuem em disponibilidades, considerando apenas papéis com liquidez diária acima de R$ 1 milhão.
Qual é a explicação por trás disso? Oportunidade ou cilada?
As dissonâncias do mercado
De acordo com o levantamento, as empresas que se encaixam nos critérios citados, fazendo parte do Ibovespa ou não, são as seguintes:
EMPRESA
TICKER
VALOR DE MERCADO (16/5/22)
CAIXA
MARFRIG
MRFG3
R$ 10.584.873.368,03
R$ 11.167.837.000,00
SULAMÉRICA
SULA11
R$ 10.470.350.092,37
R$ 17.679.034.000,00
SIMPAR
SIMH3
R$ 9.015.805.480,11
R$ 14.696.205.000,00
BANRISUL
BRSR6
R$ 4.429.116.510,20
R$ 8.972.135.000,00
IRB BRASIL
IRBR3
R$ 3.169.725.827,50
R$ 3.952.753.000,00
LIGHT
LIGT3
R$ 3.036.325.890,60
R$ 3.287.712.000,00
MODALMAIS
MODL11
R$ 1.814.775.340,49
R$ 2.050.055.000,00
TENDA
TEND3
R$ 521.721.230,00
R$ 803.390.000,00
GAFISA
GFSA3
R$ 506.168.590,50
R$ 598.170.000,00
BR PARTNERS
BRBI11
R$ 1.609.584.142
R$ 4.115.074.000,00
GETNINJAS
NINJ3
R$ 214.459.097,51
R$ 290.161.000,00
PDG REALT
PDGR3
R$ 78.025.505,23
R$ 97.666.000,00
Fonte: TradeMap
Um aspecto interessante baseado na amostragem é que a dissonância na avaliação das empresas atinge uma série de setores, não ficando restrita a apenas uma ou outra conjuntura econômica.
Os setores financeiro e de construção civil têm três representantes cada, seguidos do setor de seguros com dois, além de frigoríficos, logística, energia elétrica e tecnologia.
A lista conta com a participação de empresas que recentemente abriram capital, como Modalmais (MODL11), BR Partners (BRBI11) e Getninjas (NINJ3). O caixa das companhias está robusto pelas captações dos IPOs, não sendo inteiramente resultado do dia a dia das empresas.
Chama atenção o caso da Marfrig (MRFG3). A companhia tem surfado o bom momento para os frigoríficos, com os custos sendo repassados a uma velocidade adequada, a ponto de mitigar a valorização do real ante o dólar.
Porém, desde a máxima histórica, atingida em outubro do ano passado, os papéis da empresa de Marcos Molina já recuaram mais de 40%, com o receio do mercado ante eventual arrefecimento da demanda e normalização da produção dos pares.
Em entrevista recente, o CEO do Getninjas (NINJ3) disse que tem caixa para 25 anos da empresa. Atualmente, as disponibilidades da companhia equivalem a 1,3 vez seu valor de mercado.
O cenário, porém, não é tão claro para as empresas de tecnologia. Elas demandarão capital para crescer e devem ter dificuldade em encontrar, já que o custo de capital não é mais o mesmo. O caixa não ficará ileso.
Atenção: não é tão simples assim
À primeira vista, pode parecer que a avaliação do mercado nestas empresas está incorreta, já que não faz sentido elas valerem menos do que possuem em disponibilidades e, com isso, aparentemente são oportunidades.
De fato, a relação é atrativa e mostra que as companhias são negociadas a múltiplos abaixo das médias históricas, como é o caso da maior parte das empresas do levantamento.
O dado fica tão distorcido que no caso de empresas que não têm dívidas, como o próprio Getninjas, o EV é negativo.
Essa desconexão da avaliação dos investidores ante o que as empresas têm de caixa muitas vezes não é positiva, podendo dar pistas sobre o que vem à frente.
Quando tal fenômeno ocorre nas empresas de tecnologia, é esperado que elas queimem caixa ao longo do tempo, algo natural em termos de “investimento” para o crescimento nos primeiros anos de vida.
Com isso, o caixa convergiria ao preço atribuído – reforçando a tese de que o mercado opera na expectativa, antecipando os fatos. O mesmo pode ser observado no setor de construção civil.
O ceticismo do mercado vai desde empresas que atuam com o público de alta renda, como Gafisa (GFSA3), e outras que trabalham com consumidores com menor poder aquisitivo, como a Tenda (TEND3).
Receita líquida da Tenda mostra arrefecimento após período de alta
Fonte: TradeMap
A contração monetária tende a diminuir o apetite dos consumidores por financiamentos imobiliários. No caso das companhias que operam sob as normas do Casa Verde e Amarela ainda há a intempérie de não poderem aumentar o preço de venda das unidades, mesmo com a disparada dos custos, levando à queima de caixa.
A situação das seguradoras, por sua vez, é curiosa. O modelo de negócio prevê o recebimento dos recursos antes da despesa com sinistros.
O dinheiro que fica em posse da seguradora é alocado em aplicações, o que faz com que ela tenha resultado financeiro positivo. Esse movimento é chamado de floating , sustentando a geração de caixa da companhia.
No caso da SulAmérica (SULA11), os investidores atribuem risco à guinada da sinistralidade ao longo dos últimos meses, o que impactou o lucro líquido no primeiro trimestre deste ano. Além disso, a combinação de negócios com a Rede D’Or ainda gera dúvidas.
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De acordo com a Refinitiv , em dados compilados na plataforma do TradeMap , as recomendações para algumas das empresas mencionadas são:
EMPRESA
RECOMENDAÇÃO MAJORITÁRIA
PREÇO-ALVO MEDIANO
UPSIDE
MARFRIG
MANUTENÇÃO
R$ 26
75%
SULAMÉRICA
COMPRA
R$ 36
46%
SIMPAR
COMPRA
R$ 18
63%
IRB BRASIL
VENDA
R$ 3,50
43%
LIGHT
MANUTENÇÃO
R$ 12,08
43%
MODALMAIS
MANUTENÇÃO
R$ 20
153%
TENDA
MANUTENÇÃO
R$ 18
253%
GAFISA
MANUTENÇÃO
R$ 6,50
351%
BR PARTNERS
COMPRA
R$ 26
67%
GETNINJAS
COMPRA
R$ 20
426%
Como avaliar empresas descontadas na Bolsa de Valores
A decisão de investir nas empresas listadas em Bolsa não deve levar em consideração apenas um tópico, mesmo que ele chame atenção, como é o caso de empresas estarem valendo menos do que têm em caixa.
Existe uma série de indicadores relevantes para análise pelos investidores, em termos de valuation , eficiência, rentabilidade e endividamento, como mostra este artigo .
Como demonstrado, cada caso possui alguma razão para que o mercado esteja receoso, seja pela expectativa de queima deste caixa residual ou então tempos de vacas magras para as empresas, o que faz com que sua percepção de valor diminua, a ponto de se tornar menor do que as próprias disponibilidades.
É preciso compreender de forma extensa os fundamentos da companhia, não apenas com base no valor de mercado na tela, mas no longo prazo. Dívidas de curto prazo podem corroer o caixa, ou mesmo a geração de caixa pode enfraquecer ao longo do tempo.
Uma análise refinada levando em consideração os aspectos mais importantes, que inevitavelmente giram em torno de preço, fará o investidor ser assertivo em suas decisões, deixando de lado os ruídos do mercado. Como uma vez disse Warren Buffett, o mercado, ou a Bolsa de Valores , é uma máquina que transfere dinheiro dos impacientes para os pacientes.