Inflação recorde em março e aversão global ao risco derrubam ações de varejistas
As ações das principais varejistas da Bolsa têm caído em bloco nesta sexta-feira (8), não só porque o IPCA divulgado pelo IBGE bateu recorde em março e aumentou a chance de uma aperto monetário mais duro no Brasil, mas também por causa de um movimento de realização que tem ocorrido lá fora, em um momento de maior aversão ao risco.
Os papéis que mais sofrem são aqueles voltados para a classe mais baixa do varejo, enquanto os voltados para a classe alta sofrem menos, uma vez que o IPCA pressiona o poder de compra mais de um do que do outro.
Às 12h45 (de Brasília), a VIA (VIIA3) era a que mais caía, recuando 6,65%. Na sequência, aparecem Americanas (AMER3), com desvalorização de 6%, e Magazine Luiza (MGLU3), que caía 5,79%. O Ibovespa acompanhava a queda, com retração de 0,46%.
| Empresa | Ticker | Performance às 12h45 |
| VIA | (VIIA3) | -7,16% |
| Americanas | (AMER3) | -6,56% |
| Magazine Luiza | (MGLU3) | -5,49% |
| PETZ | (PETZ3) | -3,34% |
| Natura | (NTCO3) | -0,04% |
| Méliuz | CASH3) | -3,39% |
| Renner | (LREN3) | +0,45% |
| C&A | (CEAB3) | -0,79% |
| VIVARA | (VIVA3) | -0,84% |
| Grupo Soma | (SOMA3) | -0,77% |
De acordo com Rodrigo Crespi, analista da Guide Investimentos, há uma reação negativa nos setores mais cíclicos, mais voltados para a economia doméstica. “Essas empresas são correlatas a inflação, inversamente proporcionais, portanto, vemos os papéis mais voltados para a classe mais baixa do varejo sofrendo mais que os voltados para a classe alta, como Vivara e Soma”.
Segundo o IBGE, o IPCA de março ficou em 1,62%, a maior alta para o mês desde 1994, quando teve início do Plano Real. Em relação à Selic, a última sinalização do BC foi de mais um aumento de 1 ponto percentual, que levaria a taxa básica de 12,75%. O mercado, porém, começa a ver uma maior chance de a taxa ir mais longe.
Crespi explica que, no caso da Via, mais voltada para o crediário e, portanto, mais sensível aos juros, os papéis acabam sofrendo um pouco mais.
Para Samuel Cunha, economista e sócio da H3 Invest, os números de inflação pressionam esses papéis na medida em que o poder de compra das pessoas não aumenta na mesma proporção que os preços, gerando um impacto negativo tanto na economia real quanto nos mercados.
“Vemos o Ibovespa em queda e, considerando o cenário de inflação pujante, não tem como a gente criar um ambiente estável visando crescimento econômico, fortalecimento de nichos e da cadeia produtiva de uma forma geral”, diz o economista.
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Régis Chinchila, analista da Terra Investimentos, destaca que o IPCA acima do previsto afeta os juros futuros, que acabam pressionando os papéis ligados ao varejo e a economia doméstica.
De acordo com dados da Plataforma TradeMap, os juros com vencimento em 2023 sobem 21 pontos base no dia, chegando aos 12,85%. Enquanto isso, a previsão para os que vencem em 2025 e 2028 sobem 22 e 18 pontos base, respectivamente.

Recentemente, o presidente da instituição, Roberto Campos Neto, afirmou que o cenário mais provável é que o Copom (Comitê de Política Monetária do BC) só eleve a taxa básica de juros (Selic) mais uma vez neste ano, na reunião de maio. Além disso, ele sinalizou que a taxa deveria encerrar o ano aos 12,75%.
No entanto, o boletim Focus, pesquisa do BC que colhe estimativas do mercado, já aponta para uma Selic mais adiante, a 13% ao fim de 2022, segundo a mediana das projeções.
Para Fabiano Braun, private banker e sócio da Matriz Capital, esse avanço da inflação pode contribuir para o BC rever sua sinalização ao mercado. Ele é um dos que veem que a Selic pode encerrar o ano um pouco maior do que o indicado pelo BC, em 13%.