Compra periódica e fracionada: a forma mais cautelosa de adquirir papéis prefixados no Tesouro Direto
Ao investir em títulos públicos do governo federal, por meio do programa conhecido como
“Tesouro Direto”, é possível adquirir um ativo que promete, na data do vencimento, uma
remuneração com base em um indexador (pré ou pós-fixado) definido no momento de
realização do investimento.
Há três tipos distintos de títulos do Tesouro Direto, cada um com características e indexadores
de rentabilidade próprios: Tesouro Prefixado, Tesouro Selic e Tesouro IPCA+. Além desses, o
Tesouro informou, no fim do ano, que lançará um papel voltado para a aposentadoria.
Neste artigo, vamos falar especificamente do Tesouro Prefixado, sobre como funciona seu
mecanismo de rentabilidade e por que a compra feita aos poucos periodicamente pode ser a
melhor forma de adquirir títulos públicos com essa característica.
Valor no vencimento? R$ 1.000,00
Primeiramente é preciso saber que todo título inteiro do Tesouro Prefixado vale R$ 1.000,00
na data de vencimento. Partindo dessa premissa, perceba que sempre que você compra um
Tesouro Prefixado, independentemente da data de vencimento ou da taxa de juros em vigor
no momento da aplicação, você adquire um ativo “programado” para valer R$ 1.000,00 no
prazo final e que possui essa condição assegurada pelo governo federal.
Por outro lado, se decidir resgatar esse tipo de papel antes do vencimento, não há garantia do
valor exato a ser recebido em virtude dos efeitos da chamada marcação a mercado (explico
detalhadamente esse assunto neste artigo).
Para melhor compreensão, vamos analisar na prática o título Tesouro Prefixado 2024. No
momento em que redijo esse artigo, em fevereiro deste ano, esse ativo é oferecido com uma
taxa de rentabilidade anual de 11,54%, ao preço unitário de R$ 772,70 e vencimento em 1º de
julho de 2024.
É importante perceber que R$ 772,70, submetidos a uma taxa de rentabilidade anual de 11,54%,
nessa data de julho de 2024, resultarão no valor unitário de R$ 1.000,00. Portanto, a diferença
entre R$ 1.000,00 e R$ 772,70 será a rentabilidade que você terá ao comprar um título inteiro,
se levá-lo até o vencimento.
Leia mais:
Títulos atrelados à Selic lideram ganhos do Tesouro Direto em janeiro; saiba quais papéis estão mais atrativo
Sob essa lógica, como as taxas de juros praticadas nos títulos públicos oscilam todos os dias e
como o título prefixado sempre deve valer R$ 1.000,00 no vencimento, cada variação impacta
diretamente o valor unitário do título.
Se a taxa de juros cai, para o título valer R$ 1.000,00 no prazo final, o valor unitário tem que
subir. Se a taxa sobe, o valor unitário tem que cair.
Taxa versus preço
Perceba que é possível identificar claramente um movimento inverso entre taxa e preço do
título. Quanto maior é a taxa de rentabilidade, menor é o preço do título, e vice-versa.
As taxas praticadas nos títulos públicos têm como principal referência o mercado de juros
futuros, com contratos negociados diariamente que representam uma estimativa do mercado
para o valor dos juros praticados no país futuramente.
Dessa forma, quando os juros futuros sobem, as taxas dos títulos públicos também sofrem
elevação, o que inclui o retorno do Tesouro Prefixado. Por outro lado, quando os juros futuros
caem, as taxas dos papéis tendem a ser reduzidas.
Crises institucionais, instabilidade política e práticas governamentais que gerem um aumento
da dívida pública implicam elevação das taxas de juros futuros, uma vez que tais
acontecimentos aumentam a percepção de risco dos investidores.
Potencial de ganho
Para identificar o potencial de ganho de um título, você deve acompanhar o comportamento
das taxas dos títulos públicos de forma periódica e analisar a compra de prefixados
comparando com períodos anteriores e levando em consideração a taxa Selic e a inflação.
A rentabilidade desses ativos caminha no mesmo sentido do sobe e desce da taxa de juro.
Portanto, quanto maior a Selic, maior também será o retorno oferecido para novos
investimentos em um papel prefixado
Mas essa análise é apenas uma tentativa de buscar taxas de rentabilidades interessantes no
momento da compra. Como não somos capazes de prever o futuro (quem dera isso fosse
possível!), pode ser que, após a aquisição dos títulos, os juros aumentem ainda mais,
reduzindo o potencial de lucro.
Esse é um dos riscos embutidos na compra de títulos prefixados. O aumento das taxas após a
realização do investimento não levará a ganhos maiores que os contratados. Se o juro mantém
uma trajetória de alta, o investidor continuará com o retorno baseado na taxa acordada
inicialmente e, portanto, possivelmente menor que a vigente no mercado na data de
vencimento.
Além disso, se tiver a necessidade de se desfazer do papel antes do prazo final, o investidor
estará exposto à chamada “marcação de mercado”, que pode ser impiedosa. O título pode
valer menos (ou mais) do que o preço da data de compra.
E não menos importante é a inflação. Preços em alta reduzem o potencial de retorno de um
título prefixado.
As variáveis macroeconômicas que o investidor deve considerar são muitas, ainda que algumas
estimativas possam ser consultadas, por exemplo, no Boletim Focus. Essa pesquisa do Banco
Central com instituições financeiras aponta, entre outros dados, uma visão do mercado para a
inflação no ano. Confira aqui o boletim mais recente.
Por isso, a posição mais cautelosa é fazer compras periódicas e fracionadas (pouco a pouco)
para minimizar os riscos e garantir, assim, uma rentabilidade média vantajosa em relação aos
juros pagos em investimentos disponíveis no mercado. Isso nada mais é que a aplicação da
regra da diversificação, mesmo se tratando de um mesmo tipo de investimento.
Passado algum período, você terá uma carteira de títulos prefixados com diferentes taxas de
retorno, comprados com os menores preços unitários possíveis no momento da realização da
compra.