Celular como garantia de crédito? Fintech cobra juros de até 18% ao mês e bloqueia aparelho de inadimplente
Está precisando urgente de dinheiro e não consegue aprovação para um empréstimo? A solução pode estar em suas mãos, literalmente. É possível usar o seu celular como garantia de crédito, mas saiba que o aparelho pode ser bloqueado em caso de inadimplência. Essa modalidade de empréstimo começou a ser oferecida no ano passado e tem o objetivo de atender pessoas sem acesso às linhas tradicionais, incluindo aquelas com restrições de crédito.
A modalidade surgiu a partir da fintech SuperSim no primeiro semestre de 2020. O montante a ser emprestado varia de acordo com o valor do celular — a liberação máxima é de R$ 2,5 mil –, o serviço só está disponível para aparelhos com o sistema operacional Android e as taxas de juros chegam a dois dígitos ao mês.
“O celular serve para controlar o risco de inadimplência e, assim, conseguimos ter uma taxa de aprovação [dos pedidos de crédito] alta”, diz Daniel Shteyn, fudador da SuperSim.
O interessado precisa instalar no celular um aplicativo que identifica qual o modelo do aparelho e que também serve para limitar o uso das funcionalidades e dos aplicativos do celular em caso de inadimplência.
Embora essa modalidade de empréstimo seja chamada de crédito com garantia de celular, ela difere de outras operações garantidas.
No crédito com garantia de automóvel ou imóvel, o bem fica alienado à instituição financeira que concedeu o empréstimo e só volta ao nome do tomador quando a dívida é quitada – e o imóvel ou veículo passa a ser do banco em caso de inadimplência. Já no crédito com garantia de celular, não há acesso físico ao aparelho.
Como funciona?
O bloqueio dessas funcionalidades de celulares é feito em caso de inadimplência e não é possível desinstalar o aplicativo antes da quitação do empréstimo. As ligações para serviços de emergência não são bloqueadas.
Antes de liberar o dinheiro, a SuperSim faz uma série de verificações para confirmar a identidade da pessoa. Para trabalhadores informais, é pedido algum tipo de comprovante de renda, como extrato de movimentação bancária.
Sobre o aparelho, a empresa não pede a apresentação da nota fiscal. A justificativa é que o crédito é destinado a pessoas de menor renda, que muitas vezes compram aparelhos já usados e não possuem esse documento.
O público-alvo da empresa é formado por pessoas que ganham até dois salários-mínimos (R$ 2.200) e que não possuem acesso a outras linhas de crédito. São, na maior parte, pessoas negativadas, nome dado a quem possui restrição em cadastros como os do Serasa e do SPC.
De acordo com Shteyn, o valor dos empréstimos varia de R$ 250 a R$ 2.500. Quando o tomador faz seu primeiro pedido, o valor aprovado de empréstimo é menor, chegando no máximo a R$ 750, e deve ser pago em até três vezes. Se o empréstimo for quitado, ele começa a ter acesso a um limite e a um prazo maior — máximo de 12 meses.
Taxa de juros
O histórico de pagamentos também poderá levar à redução da taxa de juros. Elas começam em 18% e caem até 10% ao mês. A taxa mais baixa é destinada aos clientes que já possuem um histórico de pagamentos junto à fintech.
“Temos uma taxa de juros que pode ser comparada ao rotativo do cartão de crédito, que é um produto ao qual muitas vezes nosso cliente não tem acesso”, diz Shteyn.
O crédito rotativo é quando um cliente não paga o total de sua fatura. O valor não pago é financiado pela instituição financeira administradora do cartão e essa linha leva o nome de rotativo.
A taxa de 18% da SuperSim está no patamar de juros mais elevados nesse tipo de operação, segundo dados compilados pelo Banco Central (BC). A taxa média do rotativo está em 343,6% ao ano, o equivalente a 13,2% ao mês.
Os cartões da Realize (financeira da Lojas Renner) e do Banco BV cobram taxas de 16% ao mês no rotativo. A financeira Lecca tem taxa de 18,6%. Na faixa de 10%, há os cartões da Caixa (10,1%) e da Nu Financeira, do Nubank (10,5%).
Crescimento
A SuperSim não informa sua carteira de crédito e nem a taxa de inadimplência. A empresa levantou em 2021 R$ 136 milhões em um Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC) para ter recursos para a sua operação.
A única informação operacional revelada por Shteyn diz respeito ao índice de aprovações de solicitações de crédito, que fica entre 5% e 9%. Ou seja, de cada 100 pedidos, no máximo nove são aprovados. Segundo o executivo, esse percentual é considerado elevado levando-se em conta que a maior parte dos clientes é de negativados.
A empresa também busca parcerias para ampliar a distribuição do produto. Uma delas é com a Ame Digital, que é a carteira de pagamentos da Lojas Americanas (LAME3; LAME4). “Somos uma opção na carteira da Ame para a oferta de crédito”, diz Shteyn.