A poupança teve mais um mês de saques expressivos. Os resgates superaram os depósitos em R$ 12,7 bilhões em julho, o maior volume já registrado para o mês. No acumulado do ano, a captação está negativa em R$ 63,2 bilhões, também a maior já registrada para o período entre janeiro e julho, segundo dados do Banco Central (BC) divulgados nesta quinta-feira (4).
Juros e inflação altos e retorno às atividades presenciais são os fatores que ajudam a explicar essa sangria.
Do lado macroeconômico, os juros em alta fazem com que os investidores busquem alternativas mais rentáveis. A taxa Selic está em 13,75% ao ano, o que equivale a 1,08% ao mês. Já a caderneta está pagando 0,5% ao mês mais a TR, o que totaliza 0,74%.
A inflação faz com que as famílias, em especial as de menor renda, precisem recorrer às economias para lidar com o aumento dos preços.
Um terceiro efeito é à volta as atividades presenciais. Em 2020, com o início da pandemia da Covid-19, as famílias deixaram de gastar com serviços presenciais, como viagens. Além disso, houve o pagamento de auxílios emergenciais.
“A poupança em queda se explica muito pelo aumento do consumo pós-pandemia. No período de maior restrição, houve um acúmulo por parte dos poupadores e agora é o movimento reverso”, disse Ademir Correa, presidente do fórum de distribuição da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais), na última terça-feira.
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Migração
Enquanto a poupança sofre saques recordes, os fundos de investimento de renda fixa registraram captação positiva de R$ 81 bilhões no acumulado do ano. Os de ações perdem R$ 53 bilhões e os multimercados, R$ 75 bilhões, segundo a Anbima.
Apesar do resgate recorde no mês passado, a poupança acumula um saldo total de R$ 1 trilhão. A título de comparação, o patrimônio dos fundos de previdência privada no Brasil é de R$ 1,1 trilhão.
Remuneração
O brasileiro que tem recursos aplicados na caderneta de poupança recebe uma remuneração de 6,17% ao ano mais a variação da TR (taxa referencial, que está em 0,2273%). Ao mês, a rentabilidade da poupança está em 0,73%.
A aplicação, mesmo com rendimentos isentos do Imposto de Renda, tem um retorno abaixo de outras alternativas também consideradas seguras, como o Tesouro Selic 2024, que está pagando a taxa básica (13,75% ao ano) mais 0,0939%.
Outra alternativa mais vantajosa ao investidor na comparação com a poupança é a oferta de papéis de bancos. É possível encontrar CDBs (Certificados de Depósitos Bancários) com remuneração de 110% do CDI, cuja taxa acompanha a Selic de perto.
Por serem instrumentos de renda fixa, há a incidência de IR sobre os rendimentos, mas ainda assim o rendimento líquido é mais vantajoso que o entregue pela poupança.
Tanto a poupança como os produtos bancários (CDBs e as letras de crédito agrícola e imobiliária, conhecidas como LCIs e LCAs) possuem a proteção do FGC (Fundo Garantidor de Crédito), que é a cobertura que o investidor recebe caso a instituição venha a quebrar ou sofrer intervenção do BC. Essa proteção é limitada a R$ 250 mil por investidor e instituição financeira.
Mas caso o investidor queira fazer a migração, é bom ficar atento aos prazos ofertados pelos demais instrumentos financeiros, já que nem todos possuem liquidez diária como a poupança, aplicação na qual o recurso pode ser resgatado a qualquer momento.
Vale ressaltar, porém, que o rendimento incide só na data de aniversário da aplicação. Se a aplicação foi feita em 1º de agosto, por exemplo, o investidor só terá acesso ao rendimento dela se fizer o saque dos recursos da poupança em 1º de setembro. Se o valor for sacado antes, o rendimento do período será perdido.