O volume de debêntures – papéis que representam dívidas emitidas por empresas – nas mãos dos investidores de varejo cresceu quase 50% em 2022. Eles foram atraídos pelos rendimentos elevados em um cenário de juros altos.
Esse crédito privado é uma alternativa de diversificação da carteira de renda fixa, mas o investidor precisa estar atento aos riscos – e a Americanas (AMER3) está aí para provar que eles podem sim se concretizar.
As pessoas físicas de varejo (tradicional e alta renda) tinham R$ 41,6 bilhões em debêntures em novembro de 2022, segundo dados da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais). O volume representa um crescimento de 45,9% na comparação com o estoque do final de 2021.
A Anbima ainda contabilizava que esses papéis estavam distribuídos entre 417.406 contas.
Os investidores pessoas físicas têm preferência pelas chamadas debêntures incentivadas, que possuem isenção do Imposto de Renda (IR) sobre rendimentos e são ligadas a projetos de infraestrutura. Entre as dez debêntures mais negociadas em janeiro no mercado secundário, sete tinham essa isenção.
O número elevado de negócios é um indicativo de que são transações que envolvem pessoas físicas, que também é o público beneficiado pela isenção do IR. Esses papéis, em sua maior parte, também não estão entre os de maior volume financeiro no mês.
A debênture com maior número de negócios foi a da Jaguar Petróleo (PEJA11), que é controlada pela Petro Rio (PRIO3) e que tem uma nota de crédito AA, ou seja, é considerado um papel de baixo risco de crédito.
Análise dos riscos
Phillip Macedo, sócio e gestor de portfólio da G5 Partners, explica que antes de comprar um crédito privado, o investidor precisa saber qual o nível de solidez da empresa que está fazendo a emissão.
“Tem sempre que fazer uma avaliação das demonstrações financeiras da empresa, as questões de governança, como é o mercado em que ela atua e se ela está em uma fase de consolidação, e aí precisa de mais capital e isso oferece mais risco de crédito”, explica o gestor.
Esses fatores devem ser considerados para que o investidor avalie se o balanço entre risco e retorno está adequado. Um dos referenciais é fazer a comparação com o que estão pagando os títulos do Tesouro IPCA – lembrando que estes não possuem isenção do IR. O Tesouro IPCA com vencimento em 2035 está pagando a inflação mais 6,42% ao ano.
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Macedo lembra ainda que muitas vezes as debêntures de infraestrutura estão ligadas à construção de projetos e isso deve ser levado em conta, já que há o risco de execução.
E como há muitos projetos de infraestrutura ligados ao setor de energia, o gestor também explica que os riscos a serem avaliados são diferentes.
“Uma linha de transmissão, por exemplo, não tem risco de demanda por já ter a receita contratada, mas uma usina eólica, que é uma fonte intermitente, pode ser penalizada se gerar menos energia”, diz.
Risco de mercado
Victor Zucchi, especialista da Valor Investimentos, também recomenda a avaliação da nota de crédito e das demonstrações financeiras da empresa, mas reforça que é difícil identificar um caso como o da Americanas.
“A Americanas é um caso emblemático. Era uma empresa com nota de crédito boa no mercado local e os balanços não demonstravam problema. O problema foi fraude e é difícil detectar isso. Quando aconteceu, o papel já foi imediatamente a zero”, diz.
Ir a zero quer dizer que os gestores, dado o risco de calote elevado da noite para o dia, classificaram esse papel como inadimplente, em especial após a entrada da empresa em recuperação judicial.
Dada a complexidade da análise das debêntures, Zucchi recomenda que elas formem apenas parte da carteira de renda fixa de investidores de perfil moderado ou agressivo.
“Além de estudar a saúde financeira da empresa, é bom observar se o emissor tem dívida concentrada no longo prazo e também o prazo de vencimento desses papéis, que em geral são mais longos e a venda antecipada depende de condições de mercado”, diz.
Sim, além dos riscos de crédito e de execução, há também o risco de mercado. Esses papéis pagam a correção da inflação (IPCA) mais uma taxa de juro. Se os juros no país sobem, esses papéis vão se desvalorizar. Essa volatilidade aumenta em momentos de incerteza e quanto mais longo o vencimento, maior a volatilidade. No entanto, a própria dinâmica da inflação pode mitigar esse risco.