Como juros, inflação e câmbio mexem com ações de diferentes setores da Bolsa

Aprenda a levar em conta os grandes indicadores macroeconômicos na hora de tomar decisões

Saber como indicadores macroeconômicos podem influenciar nos preços de ações de setores específicos da Bolsa é uma ótima forma de melhorar suas decisões de investimento. Juros, inflação, câmbio e dados de atividade da economia afetam ativos financeiros como um todo, mas a intensidade desse impacto varia bastante, dependendo do segmento de atuação da empresa e de como ela se financia.

Pensando nisso, a Agência TradeMap entrevistou Priscila Araújo, gestora de renda variável e sócia da Macro Capital, e montou um guia sobre como as principais variáveis econômicas tendem a mexer com os preços dos seus investimentos. Confira a seguir:

Juros altos podem atrapalhar…

A taxa de juros é um indicador que afeta a Bolsa como um todo, por um motivo bastante simples. O quanto de dinheiro que uma empresa vai gerar no futuro (ou seja, seu fluxo de caixa) é abatido a uma taxa de desconto, que geralmente corresponde a juros de longo prazo. Essa é uma espécie de prêmio, uma compensação pelo risco corrido pelo investidor, na hora de aportar recursos em uma companhia, deixando de alocá-los em renda fixa.

O chamado valor justo de uma empresa é formado pela soma desses fluxos nos próximos anos. Quanto maior a taxa de desconto (que é calculada com base nos juros futuros), menor o valor delas no presente.

Se o valor da companhia é muito mais vinculado a receitas futuras, como nas chamadas empresas de crescimento (ecommerce, fintechs e bancos digitais, por exemplo), a tendência é que ela seja muito mais impactada por esse movimento.

“Empresas que estão investindo hoje para gerar resultado lá na frente tendem a ser mais afetadas, porque o lucro está lá no futuro, não no presente”, explica Araújo. Da mesma forma, juros em baixa tendem a beneficiar essas companhias.

Outro cenário em que o valor mais elevado do dinheiro tem consequência nas ações diz respeito ao custo de capital. Muitas empresas, para financiar suas operações, tomam empréstimos. Taxas de juros mais salgadas aumentam essa despesa com financiamento.

“Tanto a Selic como a curva de juros futuros elevam o custo de captação e as despesas financeiras da empresa”, afirma a gestora. Ela esclarece que, nesse caso, o que é determinante não é o setor no qual a companhia está inserida, e sim o quanto está alavancada (ou seja, endividada para investir). “Quanto maior a alavancagem, mais a empresa vai sofrer com essa taxa mais alta.”

Há também o impacto dos juros nos resultados, na parte operacional das companhias. Neste caso, as varejistas e as empresas do setor imobiliário tendem a sofrer mais. “O crédito mais barato é um grande incentivo para a parcela caber no orçamento das famílias. Quando os juros sobem, você tem redução nas vendas e de receita”, aponta Araújo..

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Esse cenário ajuda a explicar porque as companhias ligadas ao ecommerce vêm perdendo tanto valor com o aumento da taxa básica de juros, a Selic. A perda ocorre nas duas pontas: porque o consumo tende a se retrair e também porque, como são empresas que tendem a gerar mais valor no futuro, sua taxa de desconto também é maior.

…ou ajudar

Por outro lado, o investidor deve ter sempre em mente que há empresas que se beneficiam de taxas de juros mais altas. Isso porque parte relevante do resultado dessas companhias é composto por receitas financeiras.

“São basicamente bancos e seguradoras”, diz a sócia da Macro Capital. “Neste caso, quanto maior a taxa de juros, maior o spread bancário [diferença entre os juros pagos para captação de recursos no mercado e aqueles cobrados na ponta, de consumidores e empresas].”

Ela lembra que, no caso das seguradoras, a Susep (Superintendência de Seguros Privados) determina que as empresas precisam ter provisões em caixa para fazer frente aos sinistros. “Isso é investido no mercado financeiro. Quanto mais juros, maior a receita financeira dessas empresas.”

Inflação prejudica empresas de consumo…

A divulgação de índices de inflação também pode afetar, e muito, o valor de empresas. Em momentos como o atual, em que o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) dispara — o índice já alcança quase 10% de alta no acumulado deste ano –, o poder de compra das pessoas se reduz bastante, em especial no caso de famílias de menor renda.

“Quando vai se considerar o impacto da inflação sobre os preços de ações, o primeiro ponto a ser levado em conta é que ela corrói o poder de compra da população. É o imposto que a gente não vê, e que consome parte da nossa renda com a elevação de preços”, afirma Araújo.

É por isso, explica a gestora, que empresas de consumo em geral e varejistas em particular acabam sofrendo bastante nessas horas.

…mas pode beneficiar ações de shoppings e utilities

Ao mesmo tempo, há empresas que oferecem uma blindagem parcial contra a disparada de preços.

É o caso de companhias de concessões rodoviárias e de energia elétrica (as chamadas utilities, ou seja, empresas que prestam serviços públicos), cujas tarifas são atreladas à variação de preços. Além disso, os contratos são renovados com base em índices como IPCA ou IGP-M (Índice Geral de Preços ao Mercado).

“Essas empresas acabam sendo beneficiadas em momento de rotação de carteira, em que o mercado pode estar buscando setores mais protegidos da inflação. Em horas assim, se busca um porto seguro.”

Outro caso, que acaba não sendo tão óbvio, é o do setor de shoppings. “Shoppings ganham dinheiro com duas coisas: tem o aluguel das lojas, e esse aluguel é reajustado pela inflação, e a participação sobre vendas do lojista. Se uma loja vendia um tênis a R$ 200 e passa a vender a R$ 250 porque os preços subiram, a receita do shopping sobe junto”, explica Araújo.

Dólar

Já o vai e vem do câmbio afeta principalmente as empresas altamente exportadoras, como de commodities, companhias aéreas e com operações fora do Brasil — lembrando que a nossa moeda foi uma das que mais perderam valor em relação ao dólar durante a pandemia de coronavírus.

A gestora da Macro aponta que, quando vai avaliar o impacto do dólar sobre uma ação, um dos primeiros pontos a serem levados em conta é em qual moeda é a estrutura de custos e de receitas de uma companhia.

“Se a empresa tem a receita em dólar, seja porque ela vende muito para outros países ou porque os preços dos seus produtos são dados em moeda americana, e tem sua estrutura em reais, o câmbio acaba impactando muito suas operações”, afirma Araújo.

O caso mais famoso é o da Vale, mineradora que opera no Brasil, ou seja, tem estrutura de custos em reais, e que exporta grande parte da produção. Uma variação cambial, no caso da empresa, possui grande efeito sobre suas ações e inclusive sobre o Ibovespa, já que ela tem o maior peso no principal índice brasileiro.

Araújo esclarece que, por outro lado, as empresas que têm custos em dólar mas receitas em real podem ser altamente prejudicadas em um cenário de desvalorização do câmbio. “Um exemplo são as companhias aéreas, para as quais uma parte importante do custo é combustível de aviação, cujo preço é em dólar.”

Outro caso são as importadoras, como a M. Dias Branco, produtora de massas e biscoitos que importa trigo principalmente da Argentina. “Esse preço é dado em dólares, e a matéria-prima principal é importada. Em momentos de queda do real, a empresa tem dificuldade para repassar a alta para o consumidor”, destaca a gestora.

E quais os setores mais protegidos?

Existem também aqueles segmentos da Bolsa menos afetados em momentos de crise econômica.

O consumo de remédios e alimentos, por exemplo, tende a ser menos pressionado em contextos de maior turbulência, já que são prioridades para a população. Da mesma forma, ações de empresas de saneamento ou do setor elétrico, por exemplo, são consideradas mais defensivas.

“São aqueles segmentos que não dependem necessariamente do crescimento da atividade para ter uma boa performance”, resume Araújo.

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