O brasileiro está tomando mais crédito rotativo e usando mais o cheque especial, duas das linhas com juros mais elevados. O resultado é o aumento do endividamento, que está em patamar recorde. Outro sinal é o calote, que avança, mesmo que a passos lentos, entre as pessoas físicas.
Em agosto, a taxa de inadimplência (atrasos acima de 90 dias) entre as pessoas físicas era de 3,7%, alta de 0,1 ponto percentual na comparação com o mês anterior mas de 0,8 ponto percentual em 12 meses, segundo dados divulgados nesta quarta-feira (28) pelo Banco Central.
Inflação acima da meta, juros em patamares elevados e renda em queda são desafios para o consumidor que quer manter as contas em dia.
E nesse cenário de restrição, a pessoa física tem buscado as linhas de crédito de mais fácil acesso, como cheque especial e o rotativo do cartão de crédito.
A concessão de crédito no cheque especial entre as pessoas físicas subiu 9,9% em agosto, para R$ 38,5 bilhões. Em 12 meses, a concessão na modalidade sobe 27,3%.
No caso do rotativo, o crescimento no mês foi de só 3%, mas em 12 meses chega a 59,6%. O total de crédito para pessoas físicas com o uso de recursos livres (aqueles em que os bancos aplicam como quiserem) sobe 24,3% em 12 meses.
Eduardo Vilarim, economista do Banco Original, vê o maior uso desses créditos como uma forma das famílias lidarem com as contas cotidianas.
“O varejo está dando resultados negativos, então essas linhas não estão sendo usadas para consumos de bens. Para mim, o destino é o pagamento de despesas correntes”, explica.
Outro fator que colabora com essa tese é que ao olhar as linhas de crédito destinadas às empresas, há uma queda de 3% na antecipação de recebíveis, indicando que a venda de bens de consumo está em um patamar mais baixo.
Bola de neve
Essas são linhas para serem utilizadas em caso de emergência. Quando passam a ser usadas de forma rotineira, o efeito é danoso às contas pessoais devido aos juros elevados – que causam um efeito bola de neve.
A taxa média do cheque especial em agosto era de 128,6% ao ano, o equivalente a 7,1% ao mês. No caso do rotativo, o juro é ainda maior, 398,4% (14,3% ao mês). Atualmente, a taxa básica de juros (Selic) está em 13,75% ao ano.
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O efeito desses juros, ao longo dos meses, piora as condições de pagamento das famílias. Isso já aparece nos dados do BC.
O nível de endividamento das famílias chegou a 53,1% em julho, alta de 5,1 pontos percentuais em 12 meses. Esse indicador significa que, da renda bruta das famílias recebida em 12 meses, uma fatia de 53,1% foi destinada ao pagamento de dívidas, o que é recorde dentro dessa nova metodologia.
O dado do BC leva em conta o conceito de Renda Nacional Disponível Bruta das Famílias (RNDBF), que considera a renda extra recebida pelos consumidores, como o saque emergencial do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), em 2019, e auxílios.
Esse nível recorde, no entanto, pode estar perto do teto. Para o economista do Original, a expectativa é de arrefecimento desse indicador nos próximos trimestres devido à desaceleração da inflação e os dados do IBGE (Pnad) mostrando aumento dos salários nominais.
Em abril, quando atingiu seu pico, a inflação em 12 meses foi de 12,1%. Já nos 12 meses encerrados em agosto, a alta do IPCA era de 8,7% e o boletim Focus do BC projeta que o índice chegue a 5,88% ao final do ano.
“Inflação mais baixa, aumento dos salários nominais e o Auxílio Brasil podem garantir uma renda disponível maior para as famílias”, diz.