Risco político dá o tom e Ibovespa cai mais de 3%; Banco do Brasil (BBAS3) despenca mais de 10%

No Brasil, poucos dias antes do segundo turno das eleições, risco político ganhou força após Roberto Jefferson atirar em policiais

Gabriel Bosa

Gabriel Bosa

Foto: Shutterstock/Travis Wolfe

Poucos dias antes do segundo turno das eleições presidenciais, que irá ocorrer no próximo domingo (30), o risco político dominou os mercados e o Ibovespa fechou em baixa de 3,27%, aos 116.013 pontos, derrubado pelas ações de empresas estatais.

Com a baixa de hoje, dia com R$ 24,8 bilhões em volume negociado, o saldo do Ibovespa no mês de outubro passou para alta de 5,43%. No acumulado do ano, a valorização é de 10,68%.

A derrapada da Bolsa brasileira foi na direção contrária ao visto no exterior. Em Nova York, o S&P 500 teve alta de 1,19%, o Dow Jones subiu 1,34% e o Nasdaq avançou 0,86%. Na Europa, o índice Euro Stoxx 50 fechou com ganhos de 1,47%.

Risco político cresce

O principal motivo por trás da queda do índice brasileiro foi o risco político, que ganha força com a aproximação do segundo turno.

Nesta segunda-feira (24), o mercado repercutiu o caso do ex-deputado Roberto Jefferson, que ontem jogou duas granadas e disparou tiros de fuzil contra policiais federais que iam prendê-lo em sua casa após decisão do STF (Supremo Tribunal Federal).

O caso ganha ainda mais relevância na semana da eleição. A percepção geral é que a proximidade entre Jefferson e o presidente Jair Bolsonaro (PL) pode prejudicar o desempenho do presidente no pleito eleitoral. Desde o ocorrido, Bolsonaro vem fazendo declarações para tentar se distanciar do ex-deputado.

“Avaliamos que o evento tem efeito negativo para o presidente, visto que, além da ‘proximidade’ que será explorada pela oposição, itens como posse de armas e artigos bélicos também deverão ser rechaçados”, afirmou Étore Sanchez, economista-chefe da Ativa Investimentos, em comentários ao mercado.

Diante do risco político, as ações de estatais dominaram as perdas do Ibovespa, com destaque para Banco do Brasil (BBAS3), em baixa de 10,03%, Petrobras ON (PETR3), que caiu 9,89%, e Petrobras PN (PETR4), com recuo de 9,2%.

Aceleração econômica

Na frente econômica, analistas do mercado ouvidos pelo BC (Banco Central) para o Boletim Focus voltaram a reduzir a expectativa de inflação medida pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) em 2022 e 2023, e também revisaram para cima as projeções para o PIB (Produto Interno Bruto) deste ano, do próximo e de 2024.

Agora, o mercado estima que o indicador de inflação encerre este ano a 5,6%, enquanto para 2023 a projeção passou para 3,93%. Para o PIB, a estimativa para 2022 é de avanço de 2,76%, a previsão para o ano que vem é de 0,63% e a expectativa para 2024 é de 1,8%.

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Do outro lado do mundo, dados da economia chinesa no terceiro trimestre surpreenderam positivamente, com o PIB (Produto Interno Bruto) avançando 3,9% na comparação com o segundo trimestre, acima das expectativas de 3,5%.

A produção industrial também surpreendeu positivamente com crescimento anual de 6,3% em setembro, ante expectativa de 5%. As vendas no varejo, por sua vez, avançaram 2,5% na base anual, abaixo das expectativas de 2,7%.

O otimismo, porém, foi limitado pela recondução de Xi Jinping para seu terceiro mandato, renovando preocupações relativas à política de tolerância zero à Covid-19 e ao relacionamento com Hong Kong e Taiwan.

Altas e baixas do pregão

Além das estatais, outra queda significativa, de 8,49%, foi a do IRB (IRBR3). A resseguradora registrou prejuízo líquido de R$ 164,7 milhões em agosto, revertendo o lucro líquido de R$ 84,8 milhões anotado no mesmo mês de 2021.

A BRF (BRFS3), por sua vez, caiu 7,7% depois de anunciar a criação de uma joint venture para o desenvolvimento da indústria Halal na Arábia Saudita. A parceira será a Halal Products Development Company (HPDC), subsidiária integral do fundo soberano saudita PIB (Public Investment Fund).

De acordo com o comunicado ao mercado apresentado nesta manhã, a joint venture será constituída com 70% pelo frigorífico brasileiro e 30% pela HPDC. O investimento total será de US$ 500 milhões (R$ 2,62 bilhões).

Na visão de Jader Lazzarini, analista CNPI do TradeMap, “a queda maior do que a média do mercado brasileiro pode dizer respeito às condições de pagamento e investimento, enquanto o endividamento é um dos entraves à tese de investimento na BRF”.

Na outra ponta, quem liderou os ganhos do pregão foi a Copel (CPLE6), com alta de 4,51%, após o governo do Paraná afirmar que pode rever sua posição de não privatizar a companhia.

“A afirmação desferida pelo governo do Paraná é positiva e veríamos com bons olhos uma maior participação da iniciativa privada na companhia. Não acreditamos, no entanto, que a fala de Ratinho Jr. por si só destravará valor no curto prazo”, avaliam analistas da Ativa Investimentos.

Na sequência, Suzano (SUZB3) teve alta de 3,48%. Segundo uma reportagem do jornal Valor Econômico, a empresa de papel e celulose pode comprar os ativos da Kimberly-Clark, dona da Neve e da Huggies, na América Latina.

Fontes a par das negociações afirmaram que a transação pode ser anunciada nos próximos dias. Além disso, a companhia divulgará seu balanço do terceiro trimestre na quinta-feira (27), após o fechamento do mercado.

Agora, os investidores aguaram uma bateria de balanços de empresas de peso, como Santander (SANB11), Ambev (ABEV3) e Vale (VALE3), que divulgam seus resultados nos próximos dias, assim como a prévia operacional da Petrobras, que será divulgada hoje após o fechamento.

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Nos EUA, ao longo da semana, saem os resultados de gigantes da tecnologia como Alphabet (GOGL34), Twitter (TWTR34), Meta (M1TA34) e Amazon (AMZO34).

Criptomoedas

Após ensaiar uma leve recuperação durante a véspera, o Bitcoin (BTC) iniciou a semana de lado, o mesmo observado nas últimas semanas. Olhando o copo meio cheio, analistas afirmam que a manutenção da cripto no patamar de US$ 19 mil é um bom sinal em meio às recentes quedas das Bolsas devido o cenário macroeconômico.

Por volta das 16h50, o BTC registrava alta 1,7%, negociado a US$ 19.398, segundo dados disponíveis na plataforma TradeMap. Na mesma hora, o Ethereum (ETH) subia 2,7%, a US$ 1.345.

“ […] os níveis a serem observados continuam os mesmos da semana passada: a faixa de US$ 18 mil como suporte e as resistências em US$ 20 mil e US$ 22 mil. Não há grandes expectativas de movimentações além destes níveis”, afirmou, em nota, a exchange Bybit.

A calmaria, porém, pode estar com os dias contados diante da expectativa da divulgação de resultados trimestrais de gigantes da tecnologia, mercado mais associado aos criptoativos.

Também deve mexer com o humor dos investidores a primeira leitura do PIB (Produto Interno Bruto) americano no terceiro semestre, que será publicado na manhã de quinta-feira (27).

O dado que mais interessa aos mercados internacionais, no entanto, sai na sexta-feira (28), o PCE (índice de despesas com consumo pessoal) de setembro. Esse é o indicador mais acompanhado pelo Federal Reserve (o banco central americano) para medir o comportamento da inflação, e deve indicar até que ponto o aumento de juros na maior economia do mundo já está chegando aos preços.

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