PagSeguro (PAGS34) prega cautela na concessão de crédito para segurar inadimplência

Companhia aposta em seu banco digital, o PagBank, como nova fonte de faturamento

Foto: Shutterstock

Para entrar no mercado de serviços financeiros, mais lucrativo do que o seu negócio principal, no caso a adquirência, a PagSeguro (PAGS34) tem apostado suas fichas no banco digital PagBank. E, apesar do cenário de aumento na taxa de juros e inflação, a estratégia deve continuar, de acordo com o diretor de Relações com Investidores e ESG da companhia, Éric Oliveira, em entrevista à Agência TradeMap.

“Com a consolidação do PagBank, esperamos explorar um mercado que é 30 vezes mais lucrativo do que a adquirência. Os lucros somados do setor de adquirência foram de R$ 4 bilhões, e os lucros do setor de banking, vertical que começamos a explorar, somam R$ 120 bilhões”, diz o executivo.

Desde sua fundação, em 2019, até o fim de 2021, o PagBank entrou numa trajetória de crescimento para se consolidar como o segundo maior banco digital do país em número de clientes, com 22 milhões de usuários, diz Oliveira. Um ano antes, o número de clientes era de 15,8 milhões.

Cautela é a palavra de ordem

Ainda que o PagBank continue como a grande aposta da companhia, o cenário macroeconômico deverá fazer com que o banco adote cautela na concessão de crédito, para evitar o aumento da inadimplência.

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“Em 2022, especificamente, vamos ser um pouco mais cautelosos na concessão creditícia e dar foco para produtos que têm garantia. Isso vai nos ajudar a manter a inadimplência sob controle, apesar de um cenário macroeconômico desafiador”, explica Oliveira.

Apesar de ressaltar que a cautela deve ser redobrada neste ano, o executivo afirma que o PagBank sempre foi cuidadoso na concessão de crédito. Além disso, Oliveira destaca sua base de dados de microempreendedores brasileiros, que permite realizar com mais precisão a gestão do risco de crédito e de inadimplência.

Em relatório recente, a equipe de analistas do Itaú BBA tem a mesma opinião e acredita que os produtos de crédito do PagSeguro eram uma extensão natural dos serviços bancários básicos e de adquirência que a empresa já oferecia para vendedores e para os clientes de varejo no geral. “Ciente dos riscos e de que ainda não era um negócio chave, a evolução foi muito prudente”, diz o banco.

Em 2021, a carteira de crédito do PagBank cresceu 212%, para R$ 1,9 bilhão, ao mesmo tempo em que a carteira passou a ter embutir menos risco. A expectativa da companhia, de acordo com a apresentação de resultados do quarto trimestre, é que a carteira de crédito tenha “performance melhor” em 2022.

O BBA, porém, ressalta que as preocupações do mercado sobre a qualidade de crédito dos bancos digitais não são infundadas, pois o cenário de fato está mais conturbado.

Foco no PagBank

Hoje, o PagBank corresponde a 9% da receita total da PagSeguro, com R$ 916,9 milhões, contra 6% em 2020, a R$ 564,2 bilhões. Para o primeiro trimestre de 2022, a projeção da empresa é que a receita do PagBank fique entre R$ 240 milhões e R$ 260 milhões, ante R$ 96 milhões no mesmo período de 2021.

Receita total do PagBank

Gráfico comparando a receita total do PagBank em 2020 e em 2021
Fonte: Apresentação de resultados do quarto trimestre/PagSeguro

Ou seja: a estratégia da companhia é continuar desenvolvendo esse negócio e gerar mais lucro nos próximos anos. Em 2021, o investimento no PagBank foi de R$ 300 milhões.

Além do lucro, a PagSeguro pretende priorizar produtos com mais aderência, aumentando as ofertas de crédito com garantia, além de ampliar seu público alvo, para incorporar tanto microempreendedores quanto pequenas e médias empresas.

Para José Augusto Albino, sócio-fundador da Catarina Capital, a busca da PagSeguro por ter novas alternativas de receitas com soluções financeiras vem em um contexto de acirramento da concorrência. “A competição do mercado é grande, e eles vêm tentando expandir o leque de produtos, lançando soluções financeiras e ficando cada vez mais com cara de fintech”.

Mais receita, menos lucro?

Diferentemente do que se poderia supor, a companhia não espera que a maior cautela na concessão de crédito impacte suas receitas.

“Apesar das oscilações macroeconômicas, saímos de uma receita de R$ 6,8 bilhões para R$ 10,4 bilhões em 2021. Então continuamos esperando, apesar dessa cautela, um forte crescimento de receitas para 2022”, diz Oliveira.

Receita total da PagSeguro

Gráfico comparando a receita total da PagSeguro em 2020 e em 2021
Fonte: Apresentação de resultados do quarto trimestre/PagSeguro

Para o primeiro trimestre de 2022, a projeção da empresa é de receita entre R$ 3,3 bilhões e R$ 3,4 bilhões, o que representa uma alta de 60% a 64% na comparação com os mesmos três meses de 2021.

Em seu cenário base, o Itaú BBA projeta receitas de R$ 14,2 bilhões para a PagSeguro em 2022 e de R$ 17 bilhões em 2023.

Albino disse ainda que, embora os resultados da companhia no quarto trimestre tenham sido bons em termos de crescimento, com alta de 55% nas receitas em relação ao mesmo período de 2020, o lucro sofreu queda de 1%, para R$ 425,8 milhões.

“O resultado foi muito impactado pela maior competição, pela dificuldade em repassar custos e pelo aumento da inadimplência, que aumenta as provisões de perda”, explica.

As provisões para contingências da PagSeguro passaram de R$ 1,127 milhão em 2020 para R$ 17,763 milhões em 2021 – alta de 1.476%.

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Segundo Oliveira, a expectativa para o primeiro trimestre deste ano é que o lucro da empresa apresente crescimento, mesmo com a piora do cenário de juros, desemprego e inflação – o que teria potencial de atingir em cheio a PagSeguro, uma vez que o foco da companhia está nos microempreendedores.

O Itaú BBA também acredita que a PagSeguro tenha entrado em uma tendência de alta de lucros neste momento. “Acreditamos que o quarto trimestre de 2021 tenha sido o fundo para os lucros da PagSeguro. Uma combinação de take rates (ganho com cada transação) mais altas e crescimento contínuo de volumes devem garantir um crescimento de 36% nos lucros em 2022”, dizem os analistas.

Assim, a projeção do banco é que a PagSeguro registre lucro de R$ 1,3 bilhão em 2022 e R$ 2,3 bilhões em 2023.

Adquirência não deve ficar para trás

Apesar de reconhecer os desafios e transformações que tem atingido o setor de adquirência nos últimos anos, Oliveira destaca a capacidade da PagSeguro de manter sua lucratividade superior a de seus pares.

Lucro dos principais players do setor em 2021

Tabela comparando os lucros de Rede, Cielo, GetNet, Stone e PagSeguro em 2021
Fonte: Apresentação de resultados do quarto trimestre/PagSeguro

Isso é especialmente relevante, diz o executivo, quando se considera que a companhia tem 10% de participação no mercado de adquirência. “Em um setor de competição feroz e novos entrantes, a cada R$ 100 de lucro do setor, com somente 10% de market share conseguimos capturar R$ 45”, explica Oliveira. Por ainda ter 10% de participação de mercado, a companhia vê espaço para crescimento no negócio de adquirência.

Ações também esboçam recuperação

Apesar das perspectivas positivas da gestão da PagSeguro, as ações estão sob pressão. Nos últimos 12 meses, as ações da PagSeguro, negociadas em Nova York, acumulam desvalorização de 58%, enquanto seus BDRs somam perdas de 64%. “A empresa sofreu bastante, derrubada pelas preocupações de aumento de juros, aumento de inadimplência e maior concorrência”, diz José Augusto Albino.

 

Performance de PAGS nos últimos 12 meses

Gráfico da performance das ações da PagSeguro nos últimos 12 meses
Fonte: Nasdaq

Em um cenário de taxas de juros, empresas consideradas de crescimento tendem a sofrer, uma vez que seus lucros são projetados para o futuro. A visão de Oliveira, porém, é de que este cenário está mudando. “Começamos a ver uma mudança de humor do investidor, que começa a entender melhor as oportunidades que estão à nossa frente”, afirma.

Desde o início do ano, as ações americanas acumulam queda de 25,5% e os BDRs, de 36,5%.

Performance de PAGS desde o início do ano

Gráfico com performance das ações da PagSeguro desde o início de 2022
Fonte: Nasdaq

“Acho que esse pode ser o início de um ciclo virtuoso de reconhecer e precificar essas oportunidades que temos visto no mercado”, conclui Oliveira.

O Itaú BBA parece concordar que as ações estão baratas e devem entrar em trajetória de crescimento, com perspectiva de resultados melhores quando os juros voltarem a cair. A Selic, que subiu de 2% para 11,75% no último ano, deve subir para 13% até o fim de 2022 e cair para 9% em 2023, segundo projeções do boletim Focus.

“Estimamos que, com os mesmos níveis operacionais que projetamos para 2023, mas com uma Selic em 8%, a empresa produziria lucros 45% maiores do que com uma Selic em 13%”, diz o banco.

O banco recomenda a compra do papel, com preço-alvo de US$ 31, o que representa uma alta de 59% em relação ao valor do fechamento da última quarta-feira (6), de US$ 19,52. Os BDRs da PagSeguro encerraram a quarta-feira a R$ 19,29.

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