O plano da Méliuz (CASH3) para driblar a alta dos juros e atravessar a estagnação econômica

Em entrevista à Agência TradeMap, o CFO da empresa, Luciano Valle, explicou os próximos passos da Méliuz

Foto: Divulgação

Pioneira no mercado de cashback no Brasil, a Méliuz (CASH3) tem sido pressionada pelo cenário macroeconômico, com escalada da inflação e alta nas taxas de juros. A empresa, porém, tem buscado alternativas para driblar esse cenário, segundo disse o CFO da companhia, Luciano Valle, em entrevista à Agência TradeMap.

Com o aumento dos juros, empresas como a Méliuz acabam sendo duplamente afetadas. De um lado, é penalizada pelo mercado por fazer parte do setor de tecnologia, em geral apontado como um negócio de maior risco.

Quando a Selic sobe, os investidores tendem a ter menos apetite para ações desse tipo, cujo valor está na expectativa do que pode vir a ser entregue. Além disso, empresas de tecnologia dependem mais da captação de recursos no mercado para financiar sua expansão, e juros mais altos tornam esse crédito mais caro.

Do outro lado lado, a Méliuz também tem sofrido por estar ligada ao consumo. Em um momento de estagnação econômica — com juros altos, inflação superando a casa dos 10% ao ano e o desemprego se mantendo em níveis elevados –, o poder de compra dos consumidores fica comprometido.

Diante desse panorama, não é por acaso que, nos últimos 12 meses, a ação da Méliuz apresenta desvalorização de 40%. “Todas as causas para esse cenário são preocupações. É horrível, no setor em que atuamos, ver inflação crescendo, juros subindo, consumo baixando”, reconhece o CFO.

A empresa, porém, acredita que esses problemas logo farão parte do passado e traça uma estratégia para atravessar esse momento sem maiores sustos. A ideia, explica Valle, é diversificar. “Como a sua operação sobrevive sendo sempre dependente de um único setor? Já tivemos essa preocupação há bastante tempo e, agora, estamos dando os passos e executando o plano para reduzir essa dependência”, afirma.

Para além do cashback

Um dos principais objetivos desse plano é justamente diversificar a composição das receitas, que hoje dependem predominantemente do serviço de cashback. O último balanço divulgado pela Méliuz, referente ao terceiro trimestre de 2021, mostrou que, dos R$ 58,7 milhões em receita líquida, R$ 39,4 milhões, ou 67%, vieram do braço de cashback no Brasil.

Por isso, a empresa vem apostando no lançamento de novas ferramentas e produtos, com foco especial na oferta de serviços financeiros –- o que já tem surtido efeito, ainda que gradual. No terceiro trimestre de 2020, um ano antes, o cashback correspondeu a R$ 22,5 milhões, ou 88% do total da receita, de R$ 25,6 milhões.

O cartão de crédito próprio, sucessor do cartão em parceria com o Banco Pan (BPAN4), lançado no fim do mês passado, e a oferta de uma conta digital gratuita são algumas principais apostas da companhia para entrar com força no setor financeiro. A negociação de bitcoin dentro do aplicativo também está nos planos.

Valle, porém, que a Méliuz não tem pretensão de se tornar um banco ou fintech, e sim de melhorar o engajamento e a experiência de seus usuários.

“Quando o nosso cliente pensa em comprar alguma coisa, vai pensar em Méliuz. Mas ele não acorda todos os dias pensando em consumir. Então a nossa frequência de contato com os clientes de forma orgânica é menor. Agora imagina tendo uma conta, cartão de crédito…”, diz o Luciano Valle.

O executivo, contudo, explica que os novos produtos podem precisar de certo tempo para passarem a corresponder a uma fatia mais relevante do faturamento. Enquanto produtos transacionais, como a conta corrente e o Pix, dependem mais da operação da própria empresa, produtos como o cartão de crédito podem demorar mais, uma vez que dependem de outros fatores, como análise de crédito.

“Não estamos nos colocando em um lugar de crescer rapidamente a base para atingir um ponto de volume e retorno. Queremos construir as condições para termos uma forma segura de chegar lá”, diz o executivo.

Apesar de o setor de serviços financeiros ser altamente competitivo, a jornada da Méliuz, de começar sua operação no comércio eletrônico para depois entrar em serviços financeiros, movimento contrário ao que foi feito por algumas fintechs e bancos, pode jogar a seu favor, diz Murilo Breder, analista da Nu Invest.

“O caminho para fazer alguém que já usa a plataforma para fazer compras regularmente usar os serviços financeiros é muito mais suave do que converter alguém que só tem conta bancária e ainda não faz compras online”, explica o analista.

Os efeitos dos juros altos e da inflação também podem impactar menos a companhia do que alguns de seus concorrentes, na análise de Breder, uma vez que seu público é mais concentrado na parcela de alta renda da população, que tende a sofrer menos em um cenário de crise econômica.

A oferta de novos produtos e serviços, porém, não é a única vertical do plano de diversificação da Méliuz. A empresa também vê espaço para ganhar território além do Brasil depois de adquirir, por R$ 120 milhões, 21,5% da plataforma de comércio eletrônico polonesa Picodi, que atua em mais de 40 países.

Segundo Luciano Valle, há pretensão de ampliar as operações no exterior, mas de forma gradual e sem grandes aquisições no radar, ao menos por enquanto.

Vendas aceleram, enquanto crescimento de usuários pisa no freio

Apesar dos desafios do cenário macroeconômico, a Méliuz tem conseguido crescer em vendas. A prévia operacional da companhia para o quarto trimestre, publicada em 27 de janeiro, mostrou recorde no volume de vendas, o que foi bem recebido por analistas do mercado, segundo relatórios distribuídos a clientes na ocasião.

Na análise da Genial Investimentos, um dos principais pontos positivos foi que a Méliuz conseguiu acelerar o ritmo de expansão de vendas nos últimos três meses de 2021, que cresceram 77% em relação a igual período do ano anterior, para R$ 1,7 bilhão. Segundo a corretora, a Méliuz vinha apresentando uma média inferior de aumento, de 64%.

“É de bom tom destacar que em empresas em processo de maturação, a densidade de compras é essencial na perpetuidade de seu negócio”, afirmou a equipe de analistas da corretora.

Um dos principais fatores por trás da alta nos volumes, de acordo com o CFO da empresa, foi a Black Friday, que teve uma dinâmica diferente da dos anos anteriores, com as ofertas diluídas ao longo do mês.

O crescimento da base de usuários, por outro lado, tem desacelerado. A companhia terminou o quarto trimestre com 22,4 milhões, um aumento de 76% em relação a igual período de 2020. Nos últimos três anos, pondera a Genial, a taxa média de crescimento de usuários da empresa foi de 130%.

O ritmo de abertura de contas no quarto trimestre foi de 27 mil a cada dia útil, segundo Méliuz, também uma desaceleração em relação às 30 mil novas contas por dia dos três meses anteriores. De acordo com a empresa, a desaceleração já era esperada e tem motivo.

Segundo Valle, a redução de esforços de promoção do cartão de crédito em parceria com o Banco Pan (BPAN4), que foi descontinuado ao longo do trimestre para dar lugar ao cartão próprio, ajudou a diminuir o número de abertura de contas e, além disso, impactou o número de usuários ativos, uma vez que o pedido e o uso do cartão são algumas das métricas utilizadas para contabilizar esses clientes.

Otimismo à frente

Embora o cenário econômico ainda esteja complicado, pode haver uma luz no fim do túnel para a Méliuz, em meio a expectativas de que o ciclo de alta de juros esteja chegando ao fim, explica Breder, da Nu Invest. Em fevereiro, a ação da companhia acumula valorização de 0,35%.

Leia mais: Copom sobe Selic a 10,75% ao ano, e sinaliza redução do ritmo de altas

De uma maneira geral, o mercado parece otimista com o papel. De acordo com dados da Refinitiv disponíveis na plataforma TradeMap, das sete casa de análise consultadas, cinco recomendam compra para a ação, enquanto apenas duas indicam a manutenção do papel na carteira.

A mediana dos preços-alvo dos analistas é de R$ 4,50, o que representa alta de 58% em relação ao preço do fechamento da última quinta-feira (10), de R$ 2,84.

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