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Os IPOs estão de volta? Duas empresas acionaram a CVM, mas ainda é cedo para se empolgar; entenda

Os IPOs estão de volta? Duas empresas acionaram a CVM, mas ainda é cedo para se empolgar; entenda

Há quase um mês, a Corsan retomou o processo de IPO e a BRK Ambiental protocolou o pedido para abrir capital

Sede da Bolsa Brasileira

Sede da B3, em São Paulo. Foto: Shutterstock

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Após o “boom” de IPOs vivido no Brasil no ano passado, com 46 ofertas, a maior quantidade desde 2007, o mercado entrou em uma verdadeira “seca” em 2022.

O primeiro semestre está perto de acabar e, até agora, não só não houve nenhuma abertura de capital na Bolsa, como chega a 22 o número de companhias que desistiram do processo ao longo deste ano. Na lista de desistentes estão as redes BlueFit, de academias, e Madero, de restaurantes.

A explicação para a escassez de IPO já é bastante conhecida. Em meio à incerteza gerada no mundo pela guerra na Ucrânia, com os juros subindo sem parar e uma inflação que assusta no Brasil e lá fora, não há clima para testar o apetite dos investidores.

Há quase um mês, porém, duas empresas de saneamento — a estatal gaúcha Corsan e a BRK Ambiental, do setor privado — buscaram a CVM (Comissão de Valores Mobiliários) para sinalizar que estão dispostas a tentar uma oferta de ações e, com isso, abriram espaço para a pergunta: os IPOs estão começando a voltar ou são apenas movimentos pontuais?

Segundo especialistas ouvidos pela Agência TradeMap, parte da resposta está no tipo de atividade que as duas companhias exercem.

O saneamento é um dos setores que ainda despertam interesse entre os investidores. Por estar inserido no guarda-chuva das chamadas utilities (empresas que fornecem serviços básicos à população, como as de energia elétrica), é visto como um mercado com um alto grau de previsibilidade em relação à capacidade de gerar receita.

Afinal de contas, uma empresa de saneamento costuma ter contratos de longo prazo com governos, o que lhe permite ter um faturamento constante durante um certo período e a deixa em posição favorável para ser uma boa pagadora de dividendos, caso não esteja passando por um momento em que precise fazer grandes investimentos.

“É quase um componente de renda fixa”, compara Rodrigo Guedes, líder de Assessoria em Mercados de Capitais da KPMG no Brasil, em referência à segurança proporcionada por esse setor ao investidor. “E ainda tem a possibilidade de valorização da ação.”

Juro lá em cima, demanda lá embaixo

A menção que Guedes faz à renda fixa é sintomática. Desde que os juros voltaram a subir no Brasil, no início do ano passado, a renda variável tem perdido atratividade, com os investidores evitando o risco do mercado de ações e preferindo a segurança da Selic.

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De lá para cá, a taxa básica de juros saiu de 2% ao ano, o menor nível da história, para os atuais 13,25% — e o Banco Central (BC) já indicou que a próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), no início de agosto, terá um novo aumento de até 0,50 ponto percentual, em um esforço para contar a aceleração da inflação no país.

Quando os juros sobem, as empresas que se preparam para um IPO perdem interesse, porque correm o risco de se lançarem em uma oferta com baixa demanda, o que resultaria em uma ação com preço mais baixo do que os donos do negócio consideram como justo.

O Brasil, além de sofrer com juros e inflação em alta, dois fenômenos que afetam o mundo todo, ainda tem o que Guedes, da KPMG, chama de “cereja do bolo”: a eleição presidencial – um ingrediente que gera ainda mais incerteza, pois não se sabe quem estará sentado na cadeira presidencial a partir do dia 1º de janeiro e qual será a sua política econômica para o país. “Só depois da eleição o cenário vai ficar mais claro”, ele diz.

Consultado pela Agência TradeMap, um alto executivo de um banco de investimentos que assessora IPOs ressaltou que um mau sinal para a volta das ofertas é que os investidores têm sacado dinheiro dos fundos de gestoras e que, por causa do cenário de juros e inflação alta, não há previsão de entradas relevantes no futuro.

“Não estou otimista para o mercado de IPOs”, ele disse, em condição de anonimato. “Tirando situações específicas como essas [Corsan e BRK Ambiental], não vejo mercado de IPO no curto prazo. O investidor prefere tomar menos risco de preços e olhar ações de empresas já listadas.”

Em 2022, os fundos de ações acumulam um saldo negativo de R$ 48,2 bilhões em resgates, segundo dados da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais).

Cada qual com seu cada qual

Os casos de Corsan e BRK Ambiental, portanto, estão mais para exceções em um ano de seca do que para o início de uma nova leva de IPOs em 2022.

As duas empresas, além de fazerem parte de um setor que goza de uma certa atratividade entre os investidores, ainda contam com interesses próprios.

A Corsan retomou o processo de IPO que havia iniciado em dezembro, de olho em concretizar o plano  do governo gaúcho de privatizar a empresa.

Já a BRK Ambiental, que atua em 13 estados do país, do Sul ao Nordeste, e iniciou o processo de abertura de capital agora, está de olho em captar recursos para ampliar os investimentos.

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Segundo a advogada Jana Araújo, sócia na área de Mercado de Capitais e Societário e M&As do Lefosse, escritório que tem assessorado as duas empresas, tanto a retomada do IPO da Corsan quanto o início do processo pela BRK foram encorajados pela capitalização da Eletrobras.

A Eletrobras, que tem capital aberto na Bolsa desde 1998, realizou uma nova oferta de ações em junho com o objetivo de diminuir a participação do governo no controle da empresa.

A oferta, após ter sido aprovada pelo Congresso no ano passado, ficou emperrada por um tempo no Tribunal de Contas da União (TCU) e chegou a ficar ameaçada, com parte do mercado descrente na possibilidade de a capitalização ocorrer meses antes de uma eleição presidencial.

A capitalização, porém, da Eletrobras foi aprovada pelo TCU no dia 18 de maio e, menos de duas semanas, Corsan e BRK Ambiental anunciaram seus planos. Em junho, a estatal de energia elétrica captou cerca de R$ 30 bilhões.

“O sucesso em torno da capitalização da Eletrobras mostrou que ainda existe interesse em renda variável”, disse a advogada. Vale lembrar que a Eletrobras, de energia elétrica, também está no guarda-chuva das utilities.

Guedes, da KPMG, lembrou que Corsan e BRK Ambiental até se anteciparam para anunciar a volta do IPO, no caso da primeira, e o início do processo, no caso da segunda.

A próxima janela da Bolsa para IPOs é em setembro e, em geral, as empresas fazem o arquivamento dos documentos em julho. “Ao começarem antes, as empresas terão mais tempo para medir a demanda do mercado”, ele disse.

Se não for possível realizar em setembro, às vésperas da eleição, as ofertas seriam adiadas para a janela seguinte, em dezembro, já com a definição do próximo presidente. Segundo Jana Araújo, do Lefosse, a intenção das duas companhias é que os IPOs saiam ainda em 2022.

Retomada aos poucos

Embora seja improvável que o segundo semestre de 2022 tenha uma nova leva de IPOs, os movimentos de Corsan e BRK Ambiental podem significar o pontapé de uma nova tendência a partir de 2023.

Tanto para a sócia do Lefosse quanto para o líder da área de Assessoria em Mercado de Capitais da KPMG, as próximas aberturas de capital devem se concentrar em empresas da área de infraestrutura em geral, que ainda encontram apetite entre os investidores, e não em companhias de tecnologia, que foram a bola da vez em 2021.

“Os investidores estão mais seletivos”, disse Guedes. “Isso é visível inclusive no mundo de venture capital [de mais risco]. Há uma liquidez abundante, mas os gestores estão preferindo fazer as suas investidas preservarem caixa. Eles estão se preparando para um cenário em que a prioridade será gerar resultado e não tanto crescimento.”

Além disso, mesmo após a definição do cenário eleitoral, os IPOs não voltarão todos de uma vez, mas aos poucos, até porque os indicadores macroeconômicos devem seguir desfavoráveis, com juros ainda em um patamar elevado. “Ainda vai piorar antes de começar a melhorar”, disse Guedes, da KPMG.

A equipe de economistas do Itaú Asset Management já fala em uma Selic chegando ao nível de 15%, contra os 13,25% atuais e acima até do nível atingido durante o governo de Dilma Rousseff, a 14,25%.

Para Sérgio Goldestein, ex-diretor do Banco Central e estrategista-chefe da Renascença, uma das maiores corretoras do país, a Selic só deve voltar a cair em maio de 2023.

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