Depois de levantar preocupação entre analistas ao anunciar o investimento de R$ 1,57 bilhão em uma nova planta de produção de papelão ondulado, o Projeto Figueira, a Klabin (KLBN11) garantiu que o projeto tem grande potencial de valor.
Durante a teleconferência de resultados do segundo trimestre, na manhã desta quinta-feira (28), Cristiano Teixeira, diretor-geral da Klabin, e Marcos Ivo, diretor financeiro e de relações com investidores, citaram uma série de motivos por trás da decisão da companhia.
Em primeiro lugar, o próprio histórico da Klabin sugere a assertividade do projeto, diz Teixeira. “A Klabin tem um histórico de projetos com alto retorno e diligência na alocação de capital. Nosso ROIC (retorno sobre o capital investido) dobrou nos últimos dez anos, e caminhamos para entregar o décimo terceiro ano consecutivo de crescimento do Ebitda”.
O balanço do segundo trimestre mostra que a Klabin fechou o período com ROIC de 18,6% nos últimos 12 meses, em linha com o anotado em junho de 2021, enquanto o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) teve alta de 2% no trimestre, na comparação com o mesmo período do ano passado, para R$ 1,84 bilhão.
“Sigo confiante na estratégia de alocação de capital da Klabin com consistente geração de valor aos acionistas”, completou Teixeira.
O diretor-geral da empresa de papel e celulose aponta também o potencial do mercado de papelão ondulado, que apresentou crescimento médio anual de 4,1% nos últimos cinco anos – contra a média de expansão de 1% do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro. “Com a segurança de um mercado resiliente, anunciamos o projeto”, declarou, acrescentando que a planta trará reforço para a posição de liderança neste segmento.
De acordo com Teixeira, o projeto tem potencial de gerar ganhos de eficiência e produtividade e redução de custos operacionais, por meio do desligamento de máquinas menos eficientes, do fechamento de turnos em outras fábricas, da diluição de custos fixos e da adoção de equipamentos mais modernos.
“A nossa maior fábrica atual tem capacidade de produção de aproximadamente 120 mil toneladas. Essa vai ter, nessa primeira fase, capacidade de 240 mil toneladas. Claramente terá um custo fixo por tonelada menor, pela maior diluição”, explica Teixeira.
Além do aumento de produção já anunciado, o terreno comprado, com quase 1 milhão de metros quadrados, possibilita a construção de capacidade adicional de produção. “Parte desse investimento já contempla parte das utilidades desse investimento futuro”, diz o diretor-geral.
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Finalmente, a localização da planta, na cidade de Piracicaba, no interior de São Paulo, cria uma plataforma de crescimento na região Sudeste, importante mercado da Klabin, trazendo eficiência por meio a otimização logística, segundo o diretor geral.
Em relação ao valor investido, Teixeira afirma que está em linha com outros realizados por companhias do setor ao redor do mundo, impactado pela inflação de custos, que afetam o preço de equipamentos.
“Este é um projeto gerador de valor. Portanto, tem um ROIC acima do custo de capital da companhia”, conclui Ivo. O executivo reconhece, porém, que o retorno médio do projeto deve ser inferior ao ROIC geral da Klabin.
Relembre a repercussão
O investimento, anunciado pela Klabin em 20 de junho, levantou preocupações de parte do mercado, que considerou o valor alto demais.
“De acordo com nossos cálculos iniciais, o projeto não parece atrativo do ponto de vista financeiro”, afirmaram Daniel Sasson, Marcelo Furlan Palhares, Edgard Pinto de Souza e Barbara Soares, analistas do Itaú BBA, em relatório distribuído na manhã do dia 21 de julho.
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Considerando os números fornecidos pela empresa, o BBA calculou que o investimento por tonelada será de R$ 6,5 mil – valor acima da média do setor. Como exemplo, o banco destacou a aquisição dos ativos de papelão ondulado da IP pela Klabin em 2020, por R$ 1,1 mil por tonelada.
Nessa frente, o analista da XP Investimentos, Andre Vidal, que também comparou as duas transações, afirmou reconhecer que a comparação não é completamente justa, uma vez que o investimento de R$ 1,1 mil por tonelada nos ativos da IP ficou abaixo da média do setor, já que as usinas da IP estavam depreciadas, enquanto o Projeto Figueira é uma usina totalmente nova e a inflação de custos entre 2020 e 2022 significa gastos maiores de construção.
Os analistas do BBA calcularam ainda que o projeto deve gerar entre R$ 500 milhões e R$ 600 milhões em receita ao ano, o que, considerando uma margem Ebitda de cerca de 25% e um múltiplo EV/Ebitda (relação entre o valor da firma e o lucro operacional) de 8 vezes, considerado razoável, o valor do projeto seria de R$ 1 bilhão a R$ 1,2 bilhão – inferior aos R$ 1,57 bilhão investidos.
Além dos cálculos do BBA, o próprio posicionamento do conselho de administração da Klabin evidenciou as preocupações sobre alocação de capital e o retorno financeiro do projeto, segundo a XP.
“No geral, o tom dos comentários de alguns conselheiros foi negativo, questionando não apenas o projeto em si, mas outras questões como alocação de capital e mecanismos de incentivo para a diretora”, disse a corretora, após analisar a ata da reunião.
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Apesar das preocupações de analistas do BBA e da XP, houve quem recebeu o anúncio com bons olhos.
“Acreditamos que, por sua escala e know-how, a Klabin dispõe de vantagens competitivas para obter uma boa rentabilidade neste projeto, cuja execução comprova a confiança da empresa no que faz e sua condição financeira diferenciada, que a permite pensar em projetos robustos de expansão mesmo com os desafios inerentes a dinâmica atual de mercado”, afirmaram analistas da Ativa Investimentos, em comentários ao mercado.
Para Felipe Ruppenthal e Rodrigo Diniz, da Eleven, os projetos de crescimento que a Klabin vem apresentando ao longo dos últimos anos fazem da companhia “um case de crescimento em um mercado com boas perspectivas onde a companhia possui bons diferenciais competitivos, se consolidando como líder do setor”.
Por volta de 15h55, a unit da Klabin operava em baixa de 1,59%, a R$ 19,15.