A mudança nas bandeiras tarifárias na cobrança da energia elétrica ao consumidor final não costuma ter um impacto significativo para as companhias do setor, uma vez que o valor extra cobrado age como um repasse para cobrir a alta nos custos. Há, no entanto, uma potencial vantagem para as distribuidoras: a redução da inadimplência.
“A diminuição da tarifa, principalmente em um momento em que a renda está comprimida e a inflação está alta, ajuda na capacidade de pagamento dos contribuintes. Tivemos aumento nos níveis de inadimplência e de perdas, então a tarifa mais baixa é positiva para o setor nesse sentido”, afirma Guilherme Gattas, analista de utilities da Moat Capital.
Na tabela abaixo, que utiliza os dados de PECLD (perdas estimadas em créditos de liquidação duvidosa) de distribuidoras de energia, fica evidente o aumento dos níveis de inadimplência entre o terceiro trimestre de 2020, último período de bandeira verde, e o mesmo período de 2021.
Empresa | Inadimplência 3T20 | Inadimplência 3T21 | Variação |
Equatorial (EQTL3) | R$ 37 milhões | R$ 52 milhões | +40,5% |
Energisa (ENGI11) | R$ 549,8 milhões | R$ 683,8 milhões | +24,4% |
Light (LIGT3) | R$ 153,3 milhões | R$ 245,8 milhões | +41,8% |
Fonte: Balanços das companhias, elaborado pela Agência TradeMap |
Giuliano Dedini, gestor de portfólio da 4Um, concorda com a análise de Gattas. “A bandeira verde eventualmente vai ter um impacto marginal de aumentar a capacidade das pessoas de pagar a conta em dia. Mas acho que é um impacto pequeno considerando todo o resultado das distribuidoras”, diz.
Bandeiras tarifárias e distribuidoras de energia
Na prática, as bandeiras tarifárias são percentuais a mais cobrados na conta de luz, repassados diretamente para as distribuidoras de energia. A bandeira de escassez hídrica simboliza um aumento de R$ 14,20 a cada 100 kWh (quilowatt-hora) consumidos, enquanto a bandeira verde zera os acréscimos sobre a tarifa cobrada.
“A bandeira foi criada para ajudar a dar um colchão de liquidez maior para essas empresas, ou seja, no momento em que a energia começa a ficar mais cara, e aqui no Brasil isso geralmente acontece quando a hidrologia não está muito favorável, essas empresas já conseguem repassar às tarifas dos consumidores”, afirma Erico Sganzerla, coordenador de equity research da 4Um Investimentos.
As distribuidoras de energia são companhias responsáveis pela compra de energia e posterior revenda para o consumidor final. Sem as bandeiras tarifárias, essas companhias ficam muito expostas às variações no preço da energia que compram.
“A bandeira é justamente um mecanismo para que as distribuidoras não fiquem com exposição muito grande ao capital de giro de compra de energia. Elas têm que comprar energia para depois vender e, quando os preços sobem muito rápido, elas ficavam defasadas. A bandeira tarifária faz esse descasamento ficar menor e onerar menos as companhias”, explica Gattas, da Moat.
Cenário hidrológico apoia as geradoras
As geradoras de energia, por sua vez, não são impactadas pela bandeira tarifária em si, mas se beneficiam de condições hidrológicas melhores.
“A bandeira indica muito como está a geração de energia, principalmente no negócio de geração hídrica. Já vemos volumes de geração maiores para as geradoras de energia via hidrelétricas”, diz Érico Sganzerla.
Isso, por sua vez, pode significar, no médio prazo, uma necessidade menor de recorrer a energia de usinas térmicas, que foram ativadas no ano passado para suprir a necessidade de energia.
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Em seu informativo mensal relativo a fevereiro, a CCEE (Câmara de Comercialização de Energia Elétrica) já dá sinais dessa tendência. No mês, houve queda de 30,1% na geração das usinas termelétricas, enquanto a geração de energia de maneira geral subiu 1,8% em relação ao mesmo mês de 2021.
No entanto, é importante ressaltar que nem todas as geradoras atuam em hidrelétricas. Além disso, a comercialização de energia também tem um forte peso para essas empresas.
“Na geração tem um fator importante que é a comercialização de energia. [Este ano] tende a ser melhor se considerarmos apenas a hidrologia, mas é necessário uma análise específica de cada empresa”, diz Gattas, Moat Capital.
As inabaláveis
As companhias transmissoras de energia elétrica, por outro lado, não são impactadas por condições hidrológicas – assim, não sofreram pressão negativa quando a situação estava ruim e não devem se beneficiar da melhora.
Como o nome indica, as transmissoras apenas transmitem a energia das geradoras para as distribuidoras de energia elétrica. Além de sua atividade não ser impactada pelo volume de energia, os contratos com as transmissoras, que têm valores fixados para o longo prazo, garantem a manutenção da receita para essas empresas.
“Para transmissão tem zero impacto. É um segmento que não depende de volume de chuvas. Um segmento que recebe uma receita fixa”, diz Érico.
As preferidas
De acordo com Gattas, a Moat tem uma grande exposição a empresas do setor, como Neoenergia (NEOE3), Eletrobras (ELET6) e Alupar (ALUP11). “Temos uma variação de exposição a diferentes companhias nos três segmentos: geração, transmissão e distribuição”, diz.
Segundo Sganzerla, a 4Um também tem ações de várias empresas do setor em carteira, especialmente em um fundo da casa que segue uma estratégia de dividendos. Entre os nomes preferidos, ele cita a EDP Brasil (ENBR3) e a CPFL (CPFE3).
“São empresas que, por terem um portfólio com participação em todos os segmentos, acabam conseguindo alocar capital de uma forma bastante eficiente. Essa diversificação de risco é algo que acaba ajudando bastante”, explica.
Trajetória recente
Com a falta de chuvas e as consequências do fenômeno La Niña, o Brasil passou por uma crise hídrica no ano passado, o que prejudicou a geração de energia hidrelétrica, a principal matriz energética do país. Com isso, o governo optou por implementar, em setembro de 2021, a bandeira de escassez hídrica, aumentando o custo da conta de luz.
A bandeira escassez hídrica foi criada para compensar o aumento do custo de geração por conta da crise hídrica, que obrigou o acionamento de usinas termelétricas, mais caras.
Mais recentemente, o governo antecipou o fim da bandeira de escassez hídrica e, desde 16 de abril, está em vigor a bandeira tarifária verde, depois do registro de chuvas acima do esperado entre novembro do ano passado e março deste ano.