As ações de empresas ligadas a commodities seguiram sustentando o Ibovespa nesta quarta-feira (2) de cinzas, que marcou a volta da Bolsa após o feriado do carnaval, refletindo a alta dos preços destes produtos no mercado global diante do conflito entre a Rússia e a Ucrânia. A perspectiva de avanços nas conversas entre os dois países também deu certo alívio aos mercados.
O principal índice da Bolsa de valores brasileira fechou em alta de 1,80%, aos 115.173 pontos, com R$ 22,83 bilhões em volume negociado. No ano até aqui, o saldo é de avanço de 9,87%.
O movimento das Bolsas do exterior também ajudou o Ibovespa. Em Nova York, O S&P 500 teve alta de 1,86%, o Dow Jones subiu 1,79% e o Nasdaq avançou 1,62%. Na Europa, o índice Euro Stoxx 50 fechou com ganhos de 1,5%.
Ações ligadas a commodities seguem empurrando o Ibovespa
A alta nos mercados internacionais se deveu, em parte, à perspectiva de avanços nas conversas entre Rússia e Ucrânia, depois de o secretário de imprensa russo, Dmitry Peskov, dizer que o Kremlin está aberto a tratativas com o país vizinho. A expectativa é que oficiais russos se encontrem com autoridades ucranianas amanhã.
No entanto, até então a guerra vem se intensificando. As forças russas estão cada vez mais perto de Kiev, a capital da Ucrânia, e, segundo notícias divulgadas por agências internacionais e veículos de imprensa do exterior, enfrentam forte resistência do exército ucraniano, que por sua vez tem recebido cada vez mais ajuda internacional na forma de dinheiro e armamentos – fator que pode prolongar o conflito militar.
O Ocidente vem anunciando novas sanções contra a Rússia, como a retirada, pela União Europeia, de bancos russos estratégicos do sistema mundial de comunicação interbancária Swift; o fechamento do espaço aéreo dos Estados Unidos para qualquer aeronave russa; e sanções contra Belarus, que tem apoiado a Rússia.
A China, por outro lado, seguiu afirmando que não se unirá ao Ocidente nas sanções à Rússia. Por aqui, o presidente Jair Bolsonaro se declarou neutro no conflito, afirmando que um posicionamento contrário à Rússia poderia prejudicar o agronegócio.
Diante do receio de que a oferta possa ser prejudicada pelo confronto, o petróleo teve nova alta, ajudado também pela manutenção, pela Organização de Países Exportadores de Petróleo e aliados (Opep+), do aumento de 400 mil barris por dia em produção para abril. O Brent fechou em alta de 7,58%, a US$ 110,60.
Com isso, as petroleiras foram impulsionadas: 3R Petroleum (RRRP3) teve a maior alta do Ibovespa, com avanço de 12,93%, seguida de PetroRio (PRIO3), que subiu 9,02%. A Petrobras (PETR4), por sua vez, registrou alta de 1,97%.
O sócio da Fatorial Investimentos Jansen Costa considera que a subida mais tímida da Petrobras em relação às outras companhias do setor se deve por incertezas fiscais e políticas. “Os rumores envolvendo a questão de controlar preços dos combustíveis pela companhia fazem com que ela fique ‘atrasada’ na subida em relação às outras empresas de petróleo da Bolsa”, afirma.
A alta do petróleo também impulsionou as ações do setor sucroalcooleiro, que devem se beneficiar do aumento do preço do etanol no mercado interno. São Martinho (SMTO3) subiu 6,07%; Raízen (RAIZ4), 4,9%; e Jalles Machado (JALL3), 2,59%.
Outra commodity importante para a Bolsa brasileira, o minério de ferro subiu 3,47% na bolsa de Dalian, na China, para US$ 118, em meio a apostas de que a China irá exportar mais aço, e, assim, demandar mais minério.
Além da alta do minério, ações ligadas a commodities metálicas também subiram diante do temor de que Rússia e Ucrânia, grandes produtoras de aço e alumínio, reduzam a oferta destes produtos. “Enquanto a economia russa depende pesadamente de energia, o país também é um produtor de minerais, incluindo alumínio. Dessa forma, qualquer restrição pode ter um impacto significativo nos mercados globais de metais”, alertou o Bank of America em relatório divulgado na segunda (28).
Entre as empresas do setor, destaque para a CSN (CSNA3), que subiu 8,09%, na terceira maior alta do dia, e Vale (VALE3), que teve avanço de 7,99%.
Conflito no leste europeu coloca incertezas sobre política monetária global
Na tarde de hoje, o presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA), Jerome Powell, afirmou, em discurso para a Câmara dos Deputados do país, que a instituição irá elevar a taxa de juros do país em 0,25 ponto percentual neste mês, alta menos agressiva do que o esperado, o que animou os mercados americanos.
“Os efeitos de curto prazo sobre a economia dos EUA vindos da invasão da Ucrânia, da guerra em andamento, das sanções e de eventos futuros continua altamente incerto. Fazer política monetária apropriada neste ambiente requer o reconhecimento de que a economia evolui de formas inesperadas. Precisaremos ser ágeis para responder aos próximos dados”, disse Powell.
Os comentários do presidente do Fed deixaram o mercado mais convicto de que a instituição preferirá ser cautelosa ao elevar os juros em março. Até a semana passada, os investidores estavam embutindo nos preços uma probabilidade de pouco mais de 30% de as taxas subirem 0,50 ponto porcentual neste mês, mas este índice caiu desde a deflagração do conflito na Ucrânia.
Quando os juros sobem em países desenvolvidos, em especial na maior economia do mundo, que é a americana, a tendência é que aconteça um fenômeno batizado de “flight to quality” (quando investidores deixam ativos de maior risco, como os de países emergentes como o Brasil, para buscarem papéis considerados mais seguros).
Nesse cenário, nossos juros futuros tendem a subir, e isso tem efeito direto sobre a bolsa, em especial sobre empresas ligadas a consumo. As maiores baixas do Ibovespa no fechamento eram justamente destes setores: Ambev (ABEV3) teve queda de 4,47%, seguida de Nautra (NTCO3), que perdeu 4,02%, e Cielo (CIEL3), com recuo de 3,89%.
No Brasil, os analistas ouvidos semanalmente no Boletim Focus já projetam um IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) de 5,60% no final de 2022. Na semana anterior, a aposta era de uma alta de preços de 5,56%. Também houve leve alta na projeção para a inflação do ano que vem: de 3,50% no levantamento anterior para 3,51% agora.
Por outro lado, a forte entrada de recursos estrangeiros no Brasil levou a mediana dos analistas a reduzir suas expectativas para o câmbio em 2023: de R$ 5,36, na pesquisa anterior, para R$ 5,31 na atual. Para este ano, a projeção para o dólar foi mantida em R$ 5,50.
As expectativas para a taxa básica de juros e PIB (Produto Interno Bruto) se mantiveram as mesmas para 2022 e 2023. A projeção é que a Selic fique em 12,25% neste ano e em 8% no próximo, enquanto o PIB deve ter alta de 0,3% em 2022 e de 1,5% em 2023.