Ibovespa segue Nova York e reduz perdas com ata do Fed, mas fecha em baixa de 0,18%

Investidores seguem em modo de cautela diante de incertezas sobre PEC da Transição e do Ministério da Fazenda

Gabriel Bosa

Gabriel Bosa

Foto: Shutterstock/rafapress

A ata da última reunião do Fed (Federal Reserve, o banco central americano), divulgada na tarde desta quarta-feira (23), impulsionou as Bolsas americanas e ajudou a reduzir as perdas do Ibovespa.

A repercussão do documento, contudo, não foi suficiente para compensar o efeito negativo do risco político, e o principal índice da Bolsa brasileira fechou em baixa de 0,18%, aos 108.841 pontos.

O pregão de hoje também foi marcado pela baixa liquidez, com apenas R$ 18,72 bilhões em volume negociado, um dia antes do feriado de Ação de Graças interromper as negociações nos Estados Unidos.

Com mais este recuo, a queda acumulada pelo Ibovespa em novembro aumentou para 6,2%, enquanto o saldo do índice em 2022 agora é de alta de 3,83%.

Ata do Fed anima os mercados

A interpretação geral do mercado foi que a ata da última reunião do Fomc (Comitê de Política Monetária do Fed) confirma que o Fed deve reduzir o ritmo de alta de juros nas próximas reuniões.

“Uma maioria substancial de participantes julgou que uma desaceleração no ritmo de alta deve ser apropriada em breve”, diz um trecho do documento, que menciona a demora para que a política monetária impacte a economia real e afirma que a redução do ritmo de alta de juros reduziria o risco de instabilidade no sistema financeiro.

“A leitura é simples, mais e mais chegamos perto de um final de ciclo de aperto monetário”, afirma William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue Securities, em comentários ao mercado. “Ainda é cedo para falar em ‘pivotar’ (Fed baixar juros), mas o mercado gosta de especular isso na frente e a ata pode trazer uma interpretação positiva do mercado”, completa.

Commodities também ajudam

Além da ata, outro fator que ajudou a limitar as perdas do Ibovespa no pregão foi a alta do minério de ferro, refletindo estímulos ao setor imobiliário na China. Na Bolsa de Cingapura, a commodity fechou avaliada a US$ 95,05 por tonelada, com avanço de 1,7%.

“O que tem segurado um pouco o Ibovespa são as commodities”, afirma Alex Carvalho, analista CNPI da CM Capital, destacando a alta das empresas ligadas ao minério de ferro, como Vale (VALE3) e Gerdau (GGBR4), que subiram 0,99%, 1,42%, respectivamente.

A própria cautela em torno das incertezas políticas também impulsionou as ações ligadas a commodities, segundo Régis Chinchila e Luis Novaes, analistas da Terra Investimentos, uma vez que a insegurança faz com que os investidores busquem proteção na moeda estrangeira.

“Nesse contexto, as empresas com foco em exportação, sejam de commodities ou de produtos industrializados sobem no dia, em razão do favorecimento das receitas pela depreciação da moeda local”, avaliam os analistas.

O petróleo, por outro lado, teve um dia de forte baixa, com investidores à espera de mais detalhes de um plano para limitar os preços da commodity russa e dos impactos da Covid-19 sobre a demanda chinesa. O Brent chegou ao fim do pregão em queda de 3,34%, a US$ 85,41 por barril.

De acordo com uma matéria da Bloomberg, a União Europeia e o G7 (grupo dos países mais industrializados do mundo) estariam discutindo fixar o preço das exportações do petróleo da Rússia a um patamar entre US$ 65 e US$ 70.

A aprovação da medida precisa ocorrer de forma unânime pelos países-membro da União Europeia, que concordou em impor um limite como parte do pacote de sanções contra a Rússia. Com a fixação do preço, os países do bloco só transportarão a commodity se os preços do barril estiverem abaixo desse patamar.

Apesar da baixa do petróleo, as ações da Petrobras fecharam perto da estabilidade, com a preferencial (PETR4) subindo 0,47% e a ordinária (PETR3) avançando 0,04%. Na avaliação de Leandro Petrokas, diretor de research e sócio da Quantzed, o movimento parece ser um ajuste depois de o papel somar queda de cerca de 33% nas últimas duas semanas.

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Política puxou para baixo

O principal fator por trás da queda do Ibovespa nesta quarta-feira, contudo, segue sendo o risco político, em especial as indefinições em torno da PEC (Proposta de Emenda à Constituição) da Transição e da nomeação do próximo ministro da Fazenda.

A proposta está sendo discutida no legislativo e as expectativas eram que a proposta fosse protocolada hoje. No entanto, por volta das 12h, a presidente do Partido dos Trabalhadores (PT), Gleisi Hoffmann, informou que as negociações irão durar, pelo menos, mais um ou dois dias.

De acordo com o Estadão, a equipe de transição estaria disposta a reduzir a PEC para um valor máximo de R$ 160 bilhões (contra os quase R$ 200 bilhões do texto original) e concordou em retirar o Bolsa Família da âncora fiscal por quatro anos, e não de forma permanente.

Além disso, o novo governo aceitou em negociar com o Congresso a destinação de uma parte dos cerca de R$ 100 bilhões que ficariam livres no Orçamento com a retirada de benefícios sociais do teto de gastos em troca da aprovação.

Já em relação ao ministério da Fazenda, há rumores de que o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) estaria sondando interlocutores sobre a nomeação de Fernando Haddad (PT).

Ainda no campo político, repercute o pedido do Partido Liberal (PL), partido do presidente Jair Bolsonaro, para que o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) invalide parte dos votos do segundo turno das eleições presidenciais, alegando um mau funcionamento do sistema. Em resposta, o presidente do TSE, Alexandre de Moraes, deu ao partido um prazo de 24 horas para a apresentação de um relatório completo sobre as eleições.

Baixas do pregão

Os imbróglios políticos estressaram a curva de juros desde ontem. No fechamento de hoje, os juros futuros com contratos para 2024, 2026 e 2028 avançavam 0,22 p.p (ponto percentual), 0,33 p.p. e 0,32 p.p., cotados a 14,57%, 13,83% e 13,68%, respectivamente, de acordo com dados do TradeMap.

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Para Chinchila e Novaes, da Terra Investimentos, essa projeção de alta dos juros pode “exercer ainda mais pressão sobre as margens das companhias do setor doméstico”.

Os juros receberam um empurrão adicional de falas do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, em evento nesta quarta-feira, afirmando que o BC persistirá em seu objetivo de trazer a inflação para a meta.

Neste contexto, ações ligadas ao turismo e ao varejo dominaram as baixas do Ibovespa, com destaque para CVC (CVCB3), Americanas (AMER3) e Natura (NTCO3), com recuos de 7,22%, 5,36% e 4,2%, nesta ordem.

Criptomoedas

O mercado de criptoativos estendeu para esta quarta o ensaio de recuperação observado na véspera, apesar dos preços ainda estarem performando no patamar mais baixo desde novembro de 2020.

Por volta das 18h30, o Bitcoin (BTC) subia 2,71%, negociado a R$ 88.944, segundo dados disponíveis no TradeMap. O Ethereum (ETH) também seguia na linha positiva, com alta de 4,65%, a R$ 6.311.

A alta das cotações impactou na capitalização do mercado, que subiu 3% em comparação as últimas 24 horas, totalizando cerca de US$ 862 bilhões.

Os investidores reagiram positivamente à ata do Fomc, que indicou que os juros americanos deverão parar de subir de forma agressiva em breve.

O tom do Fomc corrobora as expectativas otimistas de desaceleração na escalada dos juros após dados da inflação ao consumidor e produtor americano em outubro virem melhores do que o esperado.

No início de novembro, o Fed elevou a taxa em 0,75 p.p, o quarto aumento sequencial dessa magnitude. Atualmente, os juros americanos estão na banda de 3,75% e 4% ao ano.

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