Desde a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições presidenciais, em 30 de outubro, as ações da Petrobras (PETR3;PETR4) tiveram desvalorização de 17%, devido a temores sobre possíveis mudanças na política de preços da companhia, que poderiam impactar seus resultados.
O nível de preço atual das ações, contudo, ainda não incorpora os riscos da adoção de uma política de precificação mais extrema, como a baseada apenas nos custos de produção, afirmam analistas do Itaú BBA, em relatório distribuído nesta quarta-feira (23). Ou seja, pode piorar.
“Dada a incerteza em torno da política de preços da companhia e os potenciais impactos de cenários mais extremos, acreditamos que seja cedo demais para afirmar que o preço atual da ação está descontado o suficiente para acomodar todos os possíveis resultados deste risco”, avaliam Monique Grego, Bruna Amorim e Eric de Mello, analistas do banco.
Por volta das 13h desta quarta, as ações preferenciais da estatal (PETR4) eram negociadas em alta de 0,51%, a R$ 23,45, enquanto as ordinárias (PETR3) subiam 0,52%, a R$ 27,20.
Possíveis impactos
Desde 2016, a Petrobras adota a política de preços de paridade de importação, um dos principais fatores por trás da melhora nos resultados da companhia nos últimos anos. A paridade de importação leva em consideração o preço de aquisição do combustível mais os custos de sua entrega.
Assim, em primeiro lugar, os analistas afirmam que qualquer proposta que busque desconectar os preços domésticos da referência de paridade de importação causaria mudanças significativas nos resultados da companhia, e também traria consequências para toda a cadeia de produção e para as dinâmicas competitivas do mercado.
Uma das propostas que vem sendo discutida é a regionalização dos preços praticados pela Petrobras. Isto, na visão do banco, não traria grandes consequências, uma vez que, diferente do que se pensa, os preços dos combustíveis vendidos pela Petrobras já são regionalizados, levando em consideração os diferentes custos de transporte para cada ponto de venda ou refinaria.
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Outra proposta debatida é o descasamento entre os preços praticados pela Petrobras e os preços internacionais. Esta mudança, na avaliação do BBA, traria impactos significativos – que podem variar de acordo com a política adotada.
Nesta frente, uma das políticas propostas é a de precificação baseada em custos de produção. O resultado imediato desta medida, na avaliação do banco, seria preços domésticos muito abaixo dos níveis de paridade de importação, uma vez que a política poderia desconsiderar fatores como os custos de oportunidade de combustíveis e petróleo e o retorno sobre o capital investido.
“A implementação de uma composição de preços baseada em custos que não considere os custos de oportunidade de combustíveis, petróleo e capital investido na oferta para o mercado teria um impacto dramático nos resultados da companhia, e definitivamente não está precificado nos preços atuais da ação”, afirmam os analistas.
O BBA acrescenta ainda que esta política de preços não seria suficiente para gerar um retorno adequado para a Petrobras ao longo dos anos, impactando a saúde financeira e a capacidade de investimento da companhia. Enquanto a estimativa é que a prática de preços de paridade de importação gere retornos na casa de 10% no longo prazo, a adoção de uma política radical baseada em custos geraria retornos abaixo de 5%, calcula o banco.
Além disso, os analistas afirmam que, mesmo que a Petrobras passe a adotar uma política de preços baseada puramente em preços de referência ou em paridade de exportação, os preços dos combustíveis vendidos pela estatal devem seguir sendo impactados pela volatilidade do mercado internacional.
“Como deveria ocorrer para uma commodity facilmente transportável em uma economia globalizada, os preços domésticos de combustíveis sofrem grandes impactos das dinâmicas do mercado internacional, tanto em países importadores quanto em exportadores”, explica o banco.
Diante deste cenário, o Itaú BBA reiterou sua classificação de market perform, equivalente a uma recomendação neutra, para a ação. “Estamos esperando para ter uma imagem mais clara da tese de investimento da companhia, especialmente em torno das diretrizes para a política de precificação e a alocação de capital”, afirmam os analistas.