Mais uma vez, as commodities salvaram o dia e limitaram as perdas do Ibovespa, que foi ajudado também pelo fluxo de capital estrangeiro, enquanto a falta de sinais de avanços nas negociações entre a Rússia e a Ucrânia pressionou as Bolsas pelo mundo.
Depois de abrir em alta, o principal índice da Bolsa anulou os ganhos do dia e fechou em leve baixa de 0,01%, aos 115.165 pontos, com R$ 26,67 bilhões em volume negociado. O saldo de março, porém, segue de alta de 1,79%.
No exterior, os mercados caíram com o aparente fracasso nas negociações de cessar-fogo entre a Rússia e a Ucrânia. Em Nova York, o Nasdaq teve baixa de 1,56%, o Dow Jones caiu 0,29% e o S&P 500 perdeu 0,53%. Na Europa, o índice Euro Stoxx 50 fechou com recuo de 2,06%.
Rússia e Ucrânia não avançam em negociações
Depois da aguardada reunião entre Rússia e Ucrânia para discutir um possível cessar-fogo nesta quinta-feira, um negociador ucraniano declarou que as conversas não produziram os efeitos desejados pelo país, segundo a agência de notícias Reuters, mas que os dois lados concordaram em se reunir para uma terceira rodada de negociações na semana que vem.
Enquanto isso, a Rússia segue intensificando os ataques à Ucrânia e o isolamento da economia russa continua a crescer, com cada vez mais sanções. Na noite de ontem, a MSCI Inc e o FTSE Russell, responsáveis pelos índices de ações que servem de referência para carteiras de fundos globais, anunciaram a reclassificação do mercado de ações da Rússia.
Os índices MSCI Rússia serão reclassificados do status de mercado emergente para mercado independente, enquanto o FTSE excluiu as ações listadas na Bolsa da Rússia de todos os índices de renda variável.
Commodities seguem sustentando o Ibovespa
Com a guerra, que ameaça o fornecimento mundial, o preço do petróleo tipo Brent chegou a superar US$ 119 por barril na madrugada desta quinta, antes de virar e fechar em baixa de 2,19%, a US$ 110,46 – ainda em patamares elevados, deixando o mercado em alerta para a possibilidade de preços ainda mais altos à frente.
Com a alta do petróleo, crescem as preocupações em torno da defasagem dos preços praticados pela Petrobras (PETR4), que já gira em torno de 30%, na estimativa da equipe de analistas da XP Investimentos.
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Na tarde de ontem, o presidente da estatal, general Joaquim Silva e Luna, afirmou que a empresa segue avaliando a situação, mas que ainda não tomou uma decisão devido às incertezas. “Pelo menos enquanto isso o repasse inflacionário fica contido, mas, ao passo que os preços internacionais seguem se dilatando, o salto que a empresa deverá promover fica cada vez maior”, afirmou Étore Sanchez, economista-chefe da Ativa Investimentos, em comentários ao mercado.
Analistas da Genial Investimentos têm mais dúvidas quanto aos reajustes: “além de toda a dificuldade no que diz respeito a emprego e renda nos últimos anos, vale mencionar que esse ano teremos disputa eleitoral, o que nos faz ficar céticos quanto à possibilidade do repasse completo de preço”, comentaram.
Com isso, a Petrobras (PETR4) fechou em baixa de 1,24%, na contramão das outras petroleiras do Ibovespa: PetroRio (PRIO3) subiu 1,1% e 3R Petroleum (RRRP3), 0,92%.
Na visão da Ativa, essa situação é positiva para as distribuidoras de combustíveis, como Vibra (VBBR3), Ultrapar (UGPA3) e Cosan (CSAN3), que “devem manter suas margens em patamares elevados enquanto vigorar a maior defasagem de preços por parte da Petrobras”. Vibra teve queda de 1,64%, Ultrapar recuou 0,84% e Cosan subiu 2,84%.
Em meio a esta situação, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, voltou a afirmar que os projetos que tentam controlar os preços dos combustíveis serão pautados na semana que vem e que agora, mais do que nunca, vê a necessidade de aprovação.
A guerra também tem gerado preocupações sobre o fornecimento de fertilizantes – no Brasil, 30% da importação destes produtos vem da Rússia e de Belarus, que estão sendo impactados por sanções. De acordo com a ministra da Agricultura, Teresa Cristina, o Brasil possui estoques garantidos até a próxima safra.
Isso significa, na visão de analistas da Ativa, que as empresas do agronegócio brasileiro, como a SLC Agrícola (SLCE3) e a BrasilAgro (AGRO3), anteciparam a compra de fertilizantes para reduzir sua fragilidade a potenciais problemas de oferta, de modo que suas ações não devem ser impactadas no curto prazo. O papel da SLC teve avanço de 4,59% e o da BrasilAgro, de 0,74%.
O minério de ferro, por sua vez, subiu 6,8% na Bolsa de Dalian, na China, junto com outras commodities metálicas como cobre, alumínio e níquel, impulsionando as ações do setor, que lideraram as altas do Ibovespa: no fechamento, CSN (CSNA3) tinha o terceiro maior avanço do índice, de 5,01%, e Gerdau (GGBR4) ocupava a quarta posição, com alta de 4,43%.
Vale (VALE3), a ação de maior peso no Ibovespa, subiu 0,05%.
As duas maiores altas do índice foram de Cielo (CIEL3), que avançou 5,26%, depois de cair 3,89% no pregão de quarta-feira (2); e IRB (IRBR3), que subiu 5,16%. As maiores baixas, por outro lado, foram de Azul (AZUL4), Embraer (EMBR3) e Americanas (AMER3), com perdas de 4,71%, 4,17% e 4,16%, respectivamente.
Nova pressão inflacionária
O fluxo externo também ajudou a sustentar o Ibovespa, com o investidor estrangeiro buscando proteção em ações ligadas a commodities, e derrubou o dólar, que fechou em baixa de 1,55%, a R$ 5,0280. A queda da moeda levou consigo algumas ações exportadoras, como Suzano (SUZB3), que teve baixa de 2,31%, e Marfrig (MRFG3), que caiu 3,10%.
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O setor de frigoríficos sofre ainda com o aumento do preço dos grãos pelo mundo. Além de Marfrig, JBS (JBSS3) fechou em baixa de 1,67%; BRF (BRFS3), de 3,03%; e Minerva (BEEF3), de 2,07%.
A alta global nos preços das commodities, sobretudo do petróleo, acende uma luz de atenção para temores de inflação pelo mundo. Em resposta, o presidente do Fed (Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos), Jerome Powell, sinalizou que a instituição continua inclinada a começar o ciclo de aumento de juros neste mês – ainda que de forma menos agressiva – com um avanço de 0,25 ponto percentual na taxa.
Powell ainda destacou que não sabe o quanto a invasão da Ucrânia pela Rússia afetará a política monetária americana, e que os desdobramentos do conflito estão sendo monitorados de perto. Segundo ele, se for necessário aumentar os juros com mais força, o Fed estará pronto para isso.