Os fundos de investimento brasileiros registraram em outubro uma saída líquida – quando há mais saques do que captações – de R$ 4,4 bilhões, segundo dados da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais).
Outubro foi o segundo mês consecutivo com saída líquida de recursos, mas o fluxo de dinheiro que saiu dos fundos diminuiu na comparação com o mês anterior. Em setembro, a indústria registrou resgate líquido de R$ 19 bilhões.
Antes, o fluxo já havia ficado no vermelho em maio e em julho, com a retirada de R$ 54,2 bilhões e R$ 54,8 bilhões, respectivamente.
O clima negativo, apesar de mais ameno, reflete a falta de incertezas no mercado internacional, principalmente a escalada dos juros americanos, além da crise energética na Europa e indefinições da economia chinesa, pauta fundamental para as commodities brasileiras.
Com mais um mês de saques, os fundos passaram a acumular saída líquida de R$ 13,6 bilhões de janeiro a outubro.
Confira a seguir o desempenho das principais classes da indústria de fundos brasileira em outubro, no ano e em 12 meses.
Renda fixa lidera baixas
Mais uma vez, os fundos de renda fixa puxaram o resultado negativo do mês, com saída de R$ 5,24 bilhões em investimentos. No mês passado, o segmento já havia registrado fuga de R$ 11,73 bilhões. Apesar da sequência de resultados no vermelho, os fundos de renda fixa lideram a captação em 2022, com saldo positivo de R$ 90,14 bilhões.
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O desempenho positivo no acumulado de 2022 reflete o nível relativamente alto da Selic, a taxa básica de juros, de 13,75% ao ano. Este é o maior nível para a taxa desde o final de 2016.
Além disso, ao longo de 2022 os investidores fugiram de ativos de risco em meio ao aumento dos juros domésticos e à intensificação de turbulências na economia global.
Já nos últimos dois meses, a saída de recursos dos fundos de renda fixa pode ser explicada por dois fatores.
A Anbima considera que os resgates refletem investidores trocando os fundos por aplicações diretas em títulos de renda fixa, com o objetivo de cortar custos incorridos com impostos e possíveis taxas de administração.
Rodrigo Cabraitz, especialista em alocação de ativos da Principal Claritas, considera que, além disso, há também o aumento na busca por ativos de risco diante da perspectiva de que, a partir de agora, é mais provável os juros caírem do que subirem.
“Quando um fundo de ação ou multimercado vai mal, os recursos são retirados rapidamente. Mas quando os juros começam a sinalizar queda, os investidores ficam sensíveis em alocar no risco, mas de forma gradual”, explica.
Os fundos de investimento em renda fixa são os mais representativos da indústria, com 38,8% do patrimônio dos fundos brasileiros.
Ações e multimercados também sofrem
Mantendo o comportamento visto ao longo dos últimos meses, os fundos expostos aos ativos de risco também tiveram mais saídas do que entrada de investidores no mês passado. As opções de ações registraram a perda de R$ 4,5 bilhões, próximo dos R$ 4,1 bilhões observados no mês anterior.
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Já os multimercados, que podem aplicar em ativos de renda fixa e variável, tiveram saldo negativo de R$ 965 milhões, ante retirada de R$ 8 bilhões em setembro.
Entre as principais categorias, apenas os fundos de previdência registraram mais aportes do que saídas, com saldo no azul em R$ 2,16 bilhões. Já os de câmbio perderam 71 milhões, enquanto os ETFs registraram a entrada de R$ 2,32 bilhões.
Apesar do rendimento negativo, Cabraitz afirma que essas opções devem ser as mais beneficiadas nos próximos meses a partir da maior percepção de queda dos juros domésticos aguardados para o ano que vem.
“Ainda há muito desafio no cenário internacional, mas os investidores institucionais, e depois as pessoas físicas, tendem a alocar mais em risco”, diz o especialista.