Fiagros, os fundos blindados da queda da inflação – veja quais deles bateram o CDI

Retorno dos portfólios, considerando o dividend yield mais a isenção fiscal, tem batido o CDI no ano, até agosto, segundo levantamento da Órama

Foto: Shutterstock

A desaceleração da inflação nos últimos meses diminuiu a atratividade de fundos imobiliários de papel – que investem em instrumentos financeiros em vez de em imóveis. Mas há um segmento de fundos de recebíveis na Bolsa que têm surfado bem o cenário de juros altos: o de Fiagros (Fundo de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais).

A CVM (Comissão de Valores Mobiliários) autorizou esses fundos a funcionar em julho de 2021. Os Fiagros contam com isenção de Imposto de Renda sobre os rendimentos, e a maior parte dos 24 fundos deste tipo listados na B3 investe em títulos de dívida do agronegócio, como CRAs (Certificados de Recebíveis do Agronegócio).

Estes títulos são atrelados ao CDI, conferindo ao investidor uma remuneração próxima à da Selic, de 13,75% ao ano, mas muitas vezes proporcionando rendimento ainda maior.

Segundo levantamento da Órama, 87% das carteiras de Fiagros investem em papéis que pagam um retorno atrelado ao CDI mais um spread (prêmio adicional) médio de 5,4%.

E esse rendimento alto não deve acabar tão cedo. A média das projeções dos analistas no último Boletim Focus, divulgado nesta segunda-feira (19), é de que a Selic permaneça em 13,75% até o fim deste ano e termine 2023 em 11,25% ao ano.

“A perspectiva é que a taxa básica de juros vá ficar em patamar elevado por longo período, o que traz maior previsibilidade e resiliência para essas carteiras”, diz Marx Gonçalves, analista de FIIs da Nord Research, que vê os Fiagros como interessantes para o investidor que busca renda.

Fato é que, considerando o retorno médio com dividendos dos Fiagros (dividend yield), incluindo a vantagem da isenção fiscal, esses portfólios têm batido o CDI em todos os meses deste ano até agosto, segundo levantamento da Órama.

No mês passado, o dividend yield médio dos Fiagros negociados na Bolsa foi de 1,26%, gerando um retorno de 1,49% considerando a isenção de Imposto de Renda, o que equivale a mais de 126% do CDI do período, acrescentou.

“O que podemos concluir é que esses fundos conseguem entregar de forma recorrente um retorno líquido ainda acima do CDI, e isento de IR”, aponta a Órama em relatório.

gráfico desempenho fiagros versus CDI

Veja os fundos que bateram o CDI no ano

Dos 24 Fiagros listados na B3 em 17 de setembro, oito bateram o retorno do CDI no acumulado do ano, que foi de 8,39% até 17 de setembro, segundo levantamento do TradeMap. Os dados consideram apenas o dividend yield das carteiras (distribuição de dividendos mais a variação da cota na Bolsa), sem incorporar a vantagem fiscal.

Dos fundos listados na Bolsa, alguns começaram a ser negociados recentemente, como o caso do 051 Agro (FZDA11), em 2 de setembro, e três estão em fase pré-operacional: Canvas Fiagro (CCFA11), MAV Crédito (MAVC11) e o SFI Investimentos do Agronegócio (IAGR11).

O fundo Valora CRA (VGIA11) lidera o retorno no ano, com um dividend yield de 13,70% até 17 de setembro. O fundo acumula valorização de 0,20% da cota na Bolsa e em agosto distribuiu um dividendo de R$ 0,17 por cota referente ao mês de julho, o que equivale a um retorno de CDI mais 9,27% ao ano, aponta a Valora, gestora do portfólio, em relatório.

A carteira iniciou a negociação na Bolsa em 15 de dezembro de 2021 e somava R$ 393,5 milhões de patrimônio líquido em julho, 100% investido em CRAs indexados ao CDI.

Veja abaixo os Fiagros que bateram o CDI no acumulado do ano.

tabela dos fiagros que batem o CDI em 2022

Existem hoje 34 Fiagros no mercado, entre fundos listados e não listados, que podem utilizar três tipos de estruturas: de fundos de crédito (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios – FIDC); de fundo de investimento em participação (FIP) e de fundo imobiliário (FII).

Desses, 26 eram de fundos que seguiam a mesma estrutura dos fundos imobiliários e somavam R$ 4,5 bilhões de patrimônio segundo dados da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais).

Segundo a Órama, o agronegócio tem um perfil anticíclico e vem representando a cada ano um percentual maior do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. Além disso, o crédito subsidiado não está dando conta da demanda do setor, e, por isso, o mercado de capitais vem se tornando uma alternativa importante para empresas e produtores rurais.

Os Fiagros devem democratizar o acesso aos investimentos atrelados ao agronegócio. Apesar de CRAs estarem disponíveis para os investidores pessoas físicas, o fundo pode acessar ofertas que estão fora do alcance deste grupo, restritas a investidores considerados qualificados, que podem oferecer taxas de retorno melhores.

Além disso, o investimento em CRAs por meio dos Fiagros proporciona maior diversificação, reduzindo o risco da carteira.

Riscos dos Fiagros

Além do risco inerente ao setor do agronegócio – como de quebra de safra, do ciclo de commodities e ambiental –  investidores devem ficar atentos a alguns fatores como qualidade do crédito em carteira, liquidez dos fundos e também às garantias oferecidas pelos papéis, diz Gonçalves.

“O primeiro ponto é procurar gestores tradicionais, com boa experiência, e escolher fundos que ofereçam boa diversificação da carteira”, diz Gonçalves.

O analista da Nord também destaca que é importante avaliar a liquidez das carteiras, já que se trata de uma categoria de investimentos nova.

“Hoje há Fiagros com boa liquidez como o KNCA11 [ver na tabela acima], que negocia com um volume médio de R$ 1,3 milhão por dia”, diz Gonçalves.

Além disso, é importante prestar atenção na estrutura de garantia dos papéis em carteira, que pode envolver a alienação fiduciária de terras e propriedades rurais, que podem ser executadas pelo fundo em caso de inadimplência dos pagamentos, diz Gonçalves.

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