De Petrobras (PETR4) a BRF (BRFS3), o que estes 3 gestores recomendam em ações para 2022

Conheça as maiores convicções de gestores da Equitas Investimentos, da Taruá Capital e da Âmago Capital

Foto: André Motta de Souza / Agência Petrobras

Depois de cinco anos seguidos de valorização, a Bolsa redescobriu em 2021 o gosto amargo de terminar um ano no negativo, com queda de 11,9%. 

Para o investidor mais cauteloso, pode parecer o momento de pisar no freio, ainda mais se ele para e olha para o que se espera de 2022, um ano que deve ser marcado por uma volatilidade causada pelas turbulências da eleição presidencial.  

Já aquele de perfil mais arrojado provavelmente já percebeu que o tombo da Bolsa pode representar uma oportunidade para encontrar bons investimentos, com ações a preços baixos e com potencial de valorização. 

Na última semana de 2021, a Agência TradeMap fez um levantamento entre analistas de bancos e corretoras para saber quais eram as ações mais recomendadas para 2022. A preferida foi a Vale (VALE3), que nos primeiros dias de janeiro já acumula uma valorização de 9,5%. 

Mas, dessa vez, decidimos consultar aqueles que, de fato, põem dinheiro nas empresas: os gestores de ações. 

Confira três gestores entrevistados e saiba o que eles recomendam para 2022: 

Luis Felipe Amaral, sócio-fundador da Equitas Investimentos 

Petrobras (PETR4)

A maior estatal do Brasil está, na visão do gestor, entre as empresas que valem o risco. Em ano de eleição, os investidores costumam fugir das companhias públicas, em especial Petrobras, que tem um histórico de escândalos de corrupção e ingerências políticas. “Apesar de todo o risco político, a empresa está em um momento operacional espetacular”, argumenta Amaral. 

O resultado final da empresa em 2021 ainda não foi publicado, mas o acumulado dos três primeiros trimestres mostra que a Petrobras conseguiu virar o jogo e voltar a dar lucro. De janeiro a setembro, a companhia anotou ganhos líquidos de R$ 75,1 bilhões, depois de ter registrado prejuízo de R$ 52,7 bilhões em igual período do ano anterior, segundo dados disponíveis na plataforma do TradeMap.

Além disso, a companhia anunciou em novembro um plano estratégico para os próximos cinco anos que envolve um robusto programa de pagamento de dividendos, que pode chegar a algo entre US$ 60 bilhões e US$ 70 bilhões entre 2022 e 2026. “Mesmo com todo o ruído político, o investidor verá o dinheiro de volta via dividendos”, afirma o gestor da Equitas. 

Amaral ainda ressalta que a companhia tem um plano de negócios bem definido, com foco em áreas mais rentáveis, como a exploração de águas profundas e ultraprofundas. O que não interessa mais está sendo vendido, como campos terrestres. Para investimentos, a empresa prevê aportes de US$ 68 bilhões entre 2022 e 2026, acima dos US$ 55 bilhões do plano anterior. 

A área de exploração e produção receberá 84% dos recursos, dos quais dois terços serão destinados ao pré-sal, segundo a empresa. “É um plano que faz muito sentido”, diz Amaral. 

Sobre as possíveis ingerências políticas, com o país podendo trocar de governo em 2023, Amaral admite que o risco não está totalmente eliminado, mas acredita que, com o novo estatuto da empresa, reformulado após as ingerências no governo de Dilma Rousseff, ficou mais difícil interferir nas decisões. 

“Isso foi testado com Bolsonaro, que tirou o CEO anterior [Roberto Castello Branco] para tentar influenciar e não conseguiu. Quem entrou, o general Joaquim Luna e Silva, está seguindo a política de preços e os planos de investimentos e desinvestimentos”, afirma.

Rede Mater Dei (MATD3) 

A rede de hospitais Mater Dei, de Minas Gerais, é a principal aposta da Equitas entre as empresas de saúde, um setor que tem passado por um momento aquecido de fusões e aquisições. E a Mater Dei não tem ficado de fora. 

No ano passado, a companhia adquiriu 70% do Grupo Porto Dias, do Pará, por R$ 800 milhões, e 99,6% do Hospital Santa Gênova, em Uberlândia (MG), em uma operação avaliada em R$ 309 milhões. Neste ano, já começou a todo vapor, com a aquisição de 95,5% do Hospital Premium, de Goiânia (GO), por R$ 250 milhões. 

Os investimentos ocorrem após a companhia ter levantado R$ 1,4 bilhão em uma abertura de capital realizada em abril do ano passado. E a empresa tem conseguido se provar lucrativa ao mercado. No terceiro trimestre, teve lucro líquido de R$ 43,6 milhões, alta de 19% em relação a igual período de 2020. A margem da companhia em relação ao Ebitda é de 36,23%, segundo dados disponíveis na plataforma do TradeMap.

“A Mater Dei tem uma das margens mais altas do Brasil e, mesmo com toda a incerteza econômica, vai seguir com crescimento do lucro, com a incorporação dos hospitais adquiridos e também com a inauguração de outro hospital em Salvador, prevista para o primeiro semestre de 2022”, afirma o gestor da Equitas.

Quanto ao risco de uma nova piora da pandemia, Amaral demonstra estar tranquilo em relação à posição da Rede Mater Dei. “Pode haver flutuações de curto prazo, uma nova onda de fechamento, uma nova postergação de procedimentos [eletivos), mas é questão de tempo que as coisas voltem à normalidade.”

Renan Vieira, sócio-fundador da Taruá Capital

Itaú Unibanco (ITUB4) e Bradesco (BBDC4)

Para o gestor da Taruá Capital, os dois maiores bancos privados do país estão sendo negociados a preços abaixo da média histórica. 

Segundo dados disponíveis na plataforma do TradeMap, o Itaú Unibanco é negociado a 7,2 vezes o preço sobre o lucro, enquanto a média dos últimos três anos é de 12,55 vezes. No caso de Bradesco, o múltiplo está em 7,49 vezes, contra 12,25 vezes para a média de três anos. São sinais de que as empresas podem estar baratas. 

Além disso, Vieira vê um cenário positivo para ambas em 2022, após terem feito “o dever de casa” em 2021, com corte de custos (fechamento de agências, por exemplo) e investimentos em tecnologia, para fazer frente ao avanço das fintechs. “Ficaram mais eficientes”, afirma. 

Na visão do gestor, os bancos também devem se beneficiar do aumento da Selic. Segundo a última edição do Boletim Focus, do Banco Central (BC), que colhe estimativas do mercado, a mediana das projeções aponta para uma taxa básica de juros a 11,75% ao fim de 2022. “Vai haver uma reprecificação do portfólio de produtos aos clientes”, diz.

Embora a estagnação econômica esperada para 2022 seja um risco para a oferta de crédito, com uma provável elevação da taxa de inadimplência, o gestor acredita que os bancos estão bem preparados para esse cenário.

“Vai haver aumento de inadimplência, até porque as taxas estão muito baixas [de 2,3% em novembro, segundo o BC], mas não será nada que assuste o mercado, pois os modelos de risco dos bancos estão bem mais sofistificados do que em 2013 ou 2014.” 

A Taruá Capital estima que o a oferta de crédito no sistema financeiro deve crescer algo entre 7% e 7,5% em 2022, com os bancos privados registrando um avanço superior, de 8,5% a 10%.

Vale (VALE3) e Gerdau (GGBR4)

Para Vieira, Vale e Gerdau são duas empresas que devem ser impulsionadas pela retomada da China. 

O gestor lembra que, na segunda maior economia do mundo, a produção de aço “caiu bem” no segundo semestre do ano passado, de forma intencional, como parte de um esforço dos chineses para diminuir níveis de poluição e melhorar o clima, para que o país possa sediar as próximas Olimpíadas de Inverno, no primeiro trimestre de 2022. 

“Quando os Jogos Olímpicos passarem, após o primeiro trimestre, a China vai permitir uma retomada muito mais forte da produção de aço, a um nível que seja saudável às empresas”, diz o gestor. “Isso vai impulsionar a demanda por minério de ferro e também deve elevar o preço do aço no mercado internacional, o que faz com que tenhamos Vale e Gerdau na carteira.

Além disso, ressalta Vieira, há três semanas, o governo chinês reduziu as taxas de juros, e os bancos do país estão aumentando os empréstimos para as empresas, o que deve estimular a economia, também incentivando a indústria.

Segundo dados disponíveis na plataforma do TradeMap, a Vale terminou o terceiro trimestre com lucro líquido de R$ 20,5 bilhões. A Gerdau, por sua vez, teve ganhos de R$ 5,59 bilhões no período.

Iram Siqueira, sócio-fundador da Âmago Capital

BRF (BRFS3) e Mafrig (MFRG3)

Quando a pandemia começou, em março de 2020, a Âmago Capital aumentou suas posições em BRF e Marfrig, por entender que, em uma crise de saúde e econômica, os alimentos não sairiam do orçamento dos brasileiros. 

Até então, porém, a gestora tinha uma posição maior em Marfrig do que em BRF (aliás, vale lembrar que a Marfrig é dona de quase um terço da BRF). No fim do ano passado, a Âmago resolver fazer uma mudança de prioridades. BRF passou a ser a maior aposta do setor, mas Marfrig continua como um investimento relevante.

O gestor Iram Siqueira explica que a mudança se deve, primeiro, a uma questão de preço. Ele lembra que Marfrig teve uma performance melhor que BRF nos últimos anos, o que a coloca, em termos relativos, em um preço mais atrativo. Nos últimos cinco anos, a Marfrig experimentou uma alta de quase 250%, enquanto BRF caiu cerca de 50%. 

Além disso, a BRF anunciou em dezembro que fará um aumento de capital no valor de R$ 6,6 bilhões, por meio de uma nova oferta de ações (follow on). A injeção de recursos, avalia o gestor, deve ajudar a empresa a melhorar o seu endividamento.  

Segundo dados disponíveis na plataforma do TradeMap, a empresa encerrou o terceiro trimestre com dívida líquida de R$ 16,95 bilhões, o maior patamar desde 2018. “Nos últimos anos, a empresa quase não conseguiu pagar dividendos ou investir o que precisava investir. O aumento de capital deve resolver isso”, afirma o gestor.

Evolução da dívida líquida da BRF (em R$)

brf

A oferta de ações que será feita para o aumento de capital também deve representar uma oportunidade para que a Marfrig eleve a participação na BRF, sem precisar fazer uma oferta para comprar todo o restante. Pelo estatuto da BRF, se a Marfrig chega a ter um terço da empresa (33,33%), terá de fazer uma oferta pela outra parte, a um valor 40% acima da média do preço da ação entre os últimos 30 ou 120 dias, qual for mais alto.

Contudo, está previsto no estatuto que uma exceção poderá ser aberta em caso de aumento de capital. Se a Marfrig aproveitar essa brecha, o gestor da Âmago entende que será positivo para a BRF.  

“Há alguns anos, a BRF está sem um acionista forte que seja uma referência no setor. Muitos são investidores financeiros, como diversos fundos. Vai ser bom para eles ter a Marfrig, que é do setor, na gestão”, diz. 

Suzano (SUZB3)

A Suzano é, hoje, a principal posição da Âmago, presente na carteira de ações da gestora desde 2018. Para Siqueira, um dos principais atrativos da companhia é que se trata de uma empresa que tem um custo baixíssimo de operação. “É bem difícil competir com a Suzano nesse sentido”, diz.

No terceiro trimestre, a margem da Suzano em relação ao Ebitda foi de 60,7%, acima dos 38% da média do segmento, de acordo com dados disponíveis no TradeMap.

Evolução da Margem Ebitda da Suzano em comparação à média do segmento

suzano

Segundo Siqueira, os custos da Suzano são praticamente iguais aos da Indonésia, onde a extração de madeira (principal componente da celulose) é feita diretamente da mata nativa, em vez de ser plantada pela própria companhia. 

Na visão do gestor, aliás, os princípios ESG (de meio ambiente, social e governança, em tradução para o português) da companhia ainda não estão devidamente precificados pelo mercado. “A Suzano tem muito mais reservas florestais que vão além da reserva legal. É um ativo oculto, que o mercado não paga nas ações da Suzano.” 

Finalmente, o gestor acredita que 2022 será um ano de aumento de demanda para o setor. O ano passado, ressalta, foi de “desestocagem de celulose”, quando os clientes das empresas do setor gastam boa parte dos seus estoques, abrindo espaço para novas compras. “O ciclo de reestocagem deve acontecer em 2022 e vai turbinar as entregas de celulose”, afirma. 

No terceiro trimestre, a Suzano teve um prejuízo líquido de R$ 959 milhões, uma perda 17% menor que a de igual período do ano anterior.

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