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Da guerra aos preços: por que a Netflix (NFLX34) perdeu assinantes pela primeira vez em 10 anos

Da guerra aos preços: por que a Netflix (NFLX34) perdeu assinantes pela primeira vez em 10 anos

Em Nova York, as ações da empresa operavam em queda de 35% por volta das 12h30, enquanto a BDR negociada no Brasil caía 24,23%

Pessoa assiste Netflix

Foto: Shutterstock

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Antes mesmo de a Netflix divulgar os resultados para o primeiro trimestre e frustrar o mercado, a expectativa dos analistas que acompanham a empresa já era pessimista.

O consenso dos analistas apontava para um saldo positivo de 2,8 milhões de novos assinantes nos primeiros três meses de 2022, uma desaceleração em relação aos 4 milhões registrados em igual período do ano passado.

Ainda assim, a previsão do mercado era mais otimista que a da própria empresa, que esperava um saldo positivo de 2,5 milhões de novos assinantes.

O resultado de fato, divulgado no fim da tarde de ontem, não só foi pior do que todas as projeções, como mostrou perda de assinantes, algo que não acontecia na companhia há 10 anos, com a saída de 200 mil usuários.

Ao desmembrar a Netflix por região do mundo, a única região que apresentou crescimento no resultado líquido de assinaturas foi a da Ásia e do Pacífico, com 1,09 milhão de novos usuários.

O avanço, porém, foi mais do que compensado pelas perdas nas demais regiões. A região que envolve Estados Unidos e Canadá foi a que mais perdeu clientes, com a saída líquida de 640 mil. A Europa, o Oriente Médio e a África tiveram, juntos, um saldo negativo de 300 mil. A América Latina perdeu 350 mil.

Mas o que aconteceu?

Segundo a própria empresa, a suspensão dos serviços na Rússia, como parte das sanções ao país em razão do conflito com a Ucrânia, é responsável pela saída de cerca de 700 mil. Se não fosse por isso, portanto, a Netflix teria registrado a entrada líquida de 500 mil assinantes no primeiro trimestre.

Ainda assim, porém, o número estaria bem abaixo da expectativa da empresa. Para ser mais preciso, representaria apenas um quinto da projeção da Netflix.

O problema vai além dos russos, então. Ainda segundo a empresa, o avanço da inflação pelo mundo foi um dos principais motivos. Com a alta dos preços, as vendas de novas assinaturas foram diretamente afetadas, não só da Netflix, como do setor de streamings como um todo.

A Inglaterra, por exemplo, cancelou cerca de 1,5 milhões de assinaturas de todos os serviços de streaming durante o primeiro trimestre de 2022, segundo relatório da consultoria de mídia Kantar.

Nos países economicamente mais frágeis, a piora da conjuntura econômica torna a situação ainda mais delicada. O Brasil, como se sabe, é um dos principais mercados para a Netflix e não só enfrenta o avanço da inflação, para níveis que não se viu desde 2015, como tem assistido a um rápido aumento da taxa de juros, que voltou aos dois dígitos.

Um dos sinais de avanço dos preços é que, na América Latina, onde houve perda de 350 mil clientes no primeiro trimestre, a receita da empresa por assinante na região cresceu 13,26% no período.

Não bastasse tudo isso, a Netflix também tem enfrentado uma competição cada vez mais acirrada, com o surgimento de novos stramings, a partir de investimentos feitos por companhias tradicionais de mídia ou de outros setores, e várias delas com preços mais acessíveis.

A HBO, por exemplo, lançou a HBO Max, enquanto a Disney tem a Disney Plus e a Hulu, e a Amazon tem o Prime Video, com a oferta do frete grátis para os assinantes. O mercado tem ainda nomes como a Apple TV+ e a Paramount+. No Brasil, a Rede Globo tem apostado na GloboPlay, que reúne os canais por assinatura do grupo.

Não por acaso, a participação de mercado da Netflix caiu de 64% em 2019 no mercado global para 45,2% em 2022.

No Brasil, a Netflix também lidera, mas já sem a mesma folga de antes. Segundo dados da Just Watch, a companhia tem 30% do mercado e é seguida de perto pela Prime Video, com 23%. Na sequência, aparecem Disney+ com 12%, HBO Max, com 9%, e Globoplay, com 7% dos assinantes.

A empresa, além disso, reconheceu que o boom de assinaturas vivido durante a pandemia acabou mascarando um lento crescimento que já vinha ocorrendo. Quando as pessoas estavam passando mais tempo em casa, houve um aumento expressivo de novos assinantes na Netflix. Com a reabertura da economia, os números foram ficando mais tímidos, mais próximos da realidade.

Bateu na receita

Estes são fatores que afetam não somente a base de assinantes da companhia, mas também o faturamento, um indicador que também mostrou desaceleração.

No primeiro trimestre de 2022, a receita atingiu US$ 7,8 bilhões, alta de 9,7% em relação a igual período do ano passado.  No último trimestre do ano passado, o avanço havia sido maior, de 16%. Em 2020, no primeiro do ano da pandemia, o crescimento tinha sido de 27,6% em relação a 2019.

A empresa afirma que a desaceleração do faturamento está diretamente relacionada ao arrefecimento da pandemia, com as pessoas voltando às ruas, mas há também a questão do compartilhamento de senhas de contas, que faz com que cerca de 100 milhões de usuários não pagantes utilizam o serviço de streaming oferecido pela Netflix.

E as perspectivas não são das melhores. A própria Netflix afirmou que espera uma nova redução da base de assinantes no segundo trimestre, dessa vez ainda mais severa, com a saída de 2 milhões de usuários, um número dez vezes maior que a perda do primeiro trimestre, ainda como reflexo dos mesmos efeitos que pesaram sobre o início do ano e também porque se trata de um período historicamente pior para a entrada de novos clientes.

A consequência disso é uma nova desaceleração no ritmo de expansão do faturamento. A empresa espera que a receita cresça 9,6% no segundo trimestre, 0,1 p.p abaixo do crescimento visto no primeiro trimestre.

Apesar desse cenário, a empresa enxerga oportunidades para o crescimento e tem possíveis soluções para sanar os resultados apresentados em um curto e médio prazo.

Uma delas é a criação de um sistema de compartilhamento de contas mais eficiente de modo que o cliente pague pelos serviços utilizados ou que melhore a monetização de seus produtos já oferecidos.

Além disso, a empresa espera avançar na qualidade das produções próprias e fazer um melhor direcionamento de recomendações dos filmes e séries para os usuários.

Outra forma que a empresa tem para impulsionar os faturamentos no médio e longo prazo é a entrada da empresa em outros setores, como já ocorreu no segmento de games.

Até lá, por enquanto, a Netflix tem um longo caminho até recuperar a confiança do investidor.

Em Nova York, as ações da empresa operavam em queda de 35% por volta das 12h30, enquanto a BDR negociada no Brasil caía 24,23%.

Leia mais: Confira as gestoras brasileiras com maior exposição às ações da Netflix (NFLX34); queda supera os 20% no after-market

Após os resultados frustrantes da Netflix, o mau humor do mercado também respingou sobre as ações de outras grandes companhias de tecnologia.

A Amazon, que concorre com a Netflix por meio do Prime Video, tinha queda de 2,38% em Nova York, enquanto  BDR recuava 2,53%. A Apple, por sua vez, recuava 0,34% em Wall Street, enquanto a BDR tinha retração de 0,35%.

A ação do Facebook caía 6,68%, enquanto a BDR no Brasil tinha desvalorização de 7,83%.

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