A pouco mais de um mês do início do novo governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), analistas do mercado financeiro têm quebrado a cabeça para entender qual será o futuro das companhias que de alguma forma são sensíveis a qualquer tipo de mudança na política econômica do país.
E a preocupação não vale só para as estatais com ação negociada na Bolsa, como a Petrobras (PETR4) e o Banco do Brasil (BBAS3). O mercado também tem feito contas para antecipar o impacto do novo governo em empresas privadas que podem ser afetadas indiretamente.
É o caso do BTG Pactual (BPAC11), o maior banco de investimentos da América Latina, e que tem o BNDES, banco público focado em desenvolvimento econômico e social, como um dos seus concorrentes, além dos outros bancos estatais, o próprio BB e a Caixa.
Nas gestões petistas passadas, o BNDES era uma instituição financeira com grande protagonismo no financiamento de obras, inclusive em outros países, mas que passou a ter uma atuação mais discreta após a chegada de Michel Temer ao poder em 2016 e assim seguiu na gestão de Jair Bolsonaro.
Os analistas do Itaú BBA, que em setembro rebaixaram a ação do BTG para marketperform (equivalente a uma visão neutra), reiteraram a classificação e disseram que seguem cautelosos com o banco.
“Achamos que uma maior incerteza macroeconômica e política começará a afetar a atividade [econômica] e atenuar as previsões de mercado, talvez já otimistas”, escreveram os analistas Pedro Leduc, Matheus Raffaelli e William Barranjard, em relatório a clientes distribuído à imprensa nesta terça-feira (22).
O próprio BBA revisou para baixo a estimativa de lucro líquido para o BTG em 2023, de R$ 9 bilhões para R$ 8,7 bilhões, o que ainda representa expansão de 4,8% em relação ao esperado para 2022.
Para os analistas, o BTG continua sendo uma grande instituição financeira, com um negócio diversificado e capaz de entregar uma rentabilidade de 20% (medida pelo retorno sobre capital, ou ROE, na sigla em inglês), mas acreditam que os próximos balanços trimestrais serão gatilhos para revisões para baixo no mercado, com a percepção de que a ação da empresa não é mais uma pechincha.
Para tentar identificar se a ação do BTG está barata ou cara, o Itaú BBA recorreu ao múltiplo P/L, que divide o preço da ação pelo lucro por ação. Com isso, calcula-se quantas vezes o preço atual da ação da empresa está superando o lucro por ação. Quanto maior o resultado, mais cara está a companhia.
Segundo os analistas, o BTG tem sido negociado com um preço que supera o lucro por ação em 25 vezes, enquanto os demais bancos listados têm uma média de seis vezes. “O BTG é um ótimo banco, mas não está no melhor preço ou momento”, afirma o Itaú BBA.
Para os analistas, a incerteza política tem aumentado, pois é esperado que os bancos públicos desempenhem um papel significativo na próxima administração, incluindo o BNDES.
Em um relatório anterior, publicado no início de novembro, o Itaú BBA afirmou que a saúde financeira dos principais bancos estatais (BNDES, Caixa e Banco do Brasil) é forte em diversas métricas. Eles estimaram mais de R$ 2 trilhões em capacidade de concessão de crédito, se todos os seus índices de Basileia excedentes fossem usados.
“Seria improvável que isso acontecesse de uma só vez, e ainda seriam necessários recursos para expandir o balanço, mas esse é um número significativo dentro do sistema de crédito total de R$ 5 trilhões do Brasil”, disse o BBA à época.
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Como referência, eles lembraram que a parcela de crédito dos bancos públicos passou de cerca de 40% em 2010 para quase 60% em 2016, e voltou a cair para 40% atualmente.
“Sua expansão de crédito poderia alimentar o desenvolvimento e retroalimentar positivamente o crescimento, se feito corretamente”, disse o banco. “Mas também pode criar um efeito de ‘afastamento’ para outros atores ao longo do caminho e, posteriormente, se mostrar insustentável e causar danos econômicos”.
Segundo o Itaú BBA, a redução da participação do BNDES teve um impacto positivo na atividade do mercado de capitais (e dos bancos de investimento) nos últimos anos.
No BTG, a carteira de crédito para grandes empresas terminou o terceiro trimestre com R$ 129,7 bilhões, alta de 33% em relação a igual trimestre do ano passado.
Por volta das 12h37, a ação do banco operava em queda de 2,49%, a R$ 24,69.