A Cielo, que tem elevado as taxas que cobra dos lojistas nas maquininhas ao longo de 2022 para aumentar a margem de lucro, admitiu nesta terça-feira (1) que é difícil saber se esse movimento vai continuar ou não, mas ressaltou que tem buscado garantir uma rentabilidade mínima aceitável aos acionistas da companhia.
Em balanço divulgado na noite de segunda-feira (31) referente ao terceiro trimestre, a Cielo mostrou que a receita da empresa como proporção das transações realizadas ficou em 0,73%, acima da taxa de 0,70% registrada um ano antes.
Com taxas maiores cobradas pelos serviços, o lucro líquido recorrente da companhia praticamente dobrou, para R$ 422 milhões, alta de 99%, em comparação a igual período do ano passado.
Ainda assim, as ações da Cielo lideravam as quedas do Ibovespa no pregão desta terça (1º). Por volta das 12h50, os papéis caíam 6,56%, a R$ 5,56.
A estratégia de reprecificação tocada pela Cielo ocorre após uma acirrada competição no setor ao longo dos últimos anos ter forçado uma diminuição de preços, o que pressionou as margens de lucro e, consequentemente, afetou negativamente a rentabilidade.
Em coletiva de imprensa, realizada hoje. o CFO (Chief Financial Officer) da Cielo, Filipe Oliveira, lembrou que os níveis de retorno das empresas do setor têm ficado abaixo do rendimento oferecido pela Selic, a taxa básica de juros do país. Isso significa que há ainda uma necessidade de aumentar os preços para elevar a rentabilidade.
No terceiro trimestre, porém, a Cielo registrou um retorno sobre capital (ROE, na sigla em inglês) de 15,6%, alta de 7 pontos percentuais em relação ao nível de um ano antes e um pouco acima da Selic, que está em 13,75% ao ano e é considerada uma referência mínima pelo investidores na hora de definir o que seria uma rentabilidade atrativa.
“A Cielo foi a primeira empresa do mercado a mostrar que não iria trabalhar com margens negativas ou abaixo [da Selic] porque precisa remunerar o seu acionista, o nosso é foco é estabelecer uma rentabilidade mínima aceitavel para remunerar os acionistas”, disse.
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Para Oliveira, se o mercado de maquininhas se comportar de forma racional, os preços deveriam continuar aumentando. “É claro que não tenho como prever o comportamento alheio, mas existe um background econômico que deveria permitir esse tipo de rentabilidade”, afirmou.
Analistas da Genial Investimentos, por exemplo, acreditam que o setor de maquininhas deveria perseguir uma rentabilidade similar aos dos grandes bancos, de algo entre 15% e 25%, uma vez que algumas das companhias têm os próprios bancões como acionistas. Este é o caso da própria Cielo, cujo controladores são o Bradesco e Banco do Brasil) e a Getnet, controlada pelo Santander.
Nos últimos anos, o setor passou a ter retornos menores não só por causa da competição mais acirrada, mas também em razão do rápido aumento da Selic desde 2021. A alta elevou o custo de captação de recursos das empresas, pressionando as margens.
A companhia tem tentado aumentar os preços mesmo com a competição, mas, como há uma expectativa de que a Selic volte a cair no ano que vem, diminuindo o custo de captação, é possível que as empresas do setor se sintam novamente mais confortáveis para reduzir preços, acirrando ainda mais a concorrência e talvez obrigando a companhia a interromper a reprecificação.
“A Cielo procura acompanhar os movimentos macroeconômicos para definir suas políticas de preços, mas é difícil saber se esse movimento [de reprecificação] vai continuar ou não, principalmente quando olhamos para os concorrentes e vemos que ainda há um nível baixo de rentabilidade”, disse Oliveira.
Embora a Cielo esteja conseguindo elevar os preços, o novo CEO da companhia, Estanislau Bassols, que assumiu o cargo em setembro e participou da sua primeira coletiva de imprensa nesta terça, afirmou que não existe momento mais competitivo do que o que vivido pelo mercado atualmente.