A Cielo (CIEL3) — que foi uma das empresas do setor de pagamentos que elevaram as taxas que cobram de seus clientes no ano passado, em um esforço para aumentar suas margens de lucro — ainda vê um “ambiente propício” para que novos aumentos sejam aplicados pelo mercado em 2023.
Em coletiva de imprensa realizada na manhã desta sexta-feira (27) para comentar os resultados do quarto trimestre, o CFO (Chief Financial Officer) da companhia, Filipe Oliveira, lembrou que o cenário macroeconômico que permitiu os reajustes em 2022 não se dissipou e tende a continuar presente este ano, com uma inflação elevada e juros altos.
Mais importante do que isso, o executivo ressaltou que ainda há concorrentes da Cielo que têm apresentado uma rentabilidade inferior ao que seria o mínimo exigido por investidores, o que gera a necessidade de as companhias continuarem perseguindo a melhoria das margens de lucro.
O mínimo exigido pelos investidores para a rentabilidade é o que o mercado chama de custo de capital e tem como referência básica a Selic. Para o negócio se provar atrativo, é necessário apresentar retornos que superem pelo menos o rendimento da taxa de juros, um investimento de baixo risco. A Selic está em 13,75% ao ano.
“Ainda vemos empresas com retornos abaixo de 10%, abaixo de 15%, abaixo do custo de de capital. Ainda vemos uma rentabilidade abaixo para nossos pares, então há um ambiente mais propício para que a indústria possa ter eventuais posicionamentos de precificação”, disse o executivo.
A Cielo apresentou uma rentabilidade (ROE) de 17,9% no quarto trimestre do ano passado, como parte do esforço para apresentar aos acionistas um retorno interessante. O lucro líquido recorrente, por sua vez, somou R$ 490 milhões no quarto trimestre, alta de 63% em relação ao mesmo período anterior.
O indicador que melhor mostra o movimento de reprecificação da empresa é o chamado yield da receita, que calcula o quanto a companhia teve de receita em comparação ao quanto transacionou em pagamentos para seus clientes. O resultado seria, em tese, uma taxa média do que é cobrado pela Cielo.
No quarto trimestre do ano passado, essa taxa ficou em 0,72%, contra 0,66% em igual período de 2021. Em reais, foram R$ 1,67 bilhão em receita líquida nos últimos três meses de 2022, 22,2% a mais que o montante anotado nos últimos três meses de 2021.
O CFO da companhia chamou a atenção para o fato de que a receita cresceu mais do que o volume transacionado em pagamentos, que teve alta de 11,1% no mesmo tipo de comparação, para R$ 231,3 bilhões. “Isso mostra que a empresa foi mais eficiente em precificar seus produtos”, disse o executivo.
Ele também destacou que os gastos, que cresceram 5,8%, para R$ 1,89 bilhão, também evoluíram mais devagar do que o aumento do volume transacionado, o que junto com a expansão mais rápida da receita, contribuiu para que o lucro operacional (medido pelo Ebitda recorrente) tivesse um salto de 40%, para R$ 1,1 bilhão.
Ainda em relação à eficiência, Oliveira afirmou que os gastos têm crescido menos que a inflação e que a empresa tem conseguido fazer isso “sem solavancos ou cavalo de pau”.
Foco em 2023
O CEO da Cielo, Estanislau Bassols, que assumiu a empresa em setembro do ano passado, também participou da coletiva e ressaltou que tem como foco para este ano aumentar margens e retornos, melhorar processos, reduzir custos e aumentar a base de clientes.
Em relação às margens e ao retorno, ele reconheceu que a alta de preços pode ajudar, caso as condições macroeconômicas e de mercado permitam, mas afirmou que a maior contribuição deve partir de uma maior atenção aos clientes, procurando diminuir atritos e melhorando processos.
“Vamos continuar trabalhando muito com experiência do cliente, automatizando processos mais simples. Se, por um lado, isso se reflete em melhor experiência para o cliente, para nós, se reflete em menores custos”, disse o executivo, que reforçou também a importância de aumentar a penetração dos serviços na receita da Cielo, como os produtos a prazo, que oferecem maiores margens.
Um dos objetivos da empresa é também continuar dando uma atenção importantes aos clientes que fazem parte do segmento que a Cielo chama de “varejo e empreendedores”, que são basicamente pequenos e médios negócios e empreendedores individuais.
A Cielo é historicamente uma empresa de pagamentos que tem grandes empresas como clientes, a exemplo de redes de supermercados e grandes varejistas, mas nos últimos anos a companhia passou a dar maior atenção aos clientes menores, dos quais pode cobrar taxas maiores. Com grandes clientes, o poder de barganha é menor para cobrar taxas maiores.
Com a mudança de foco, a empresa viu que o segmento de “varejo e empreendedores” aumentou a sua contribuição para o resultado da Cielo em 28% no quarto trimestre, em comparação a igual período do ano passado.
Caso Americanas
Os executivos foram também questionados na coletiva sobre a crise da Americanas. O CEO ressaltou que a Americanas, embora seja cliente da Cielo, não tem dívidas com a empresa.
E, em relação a um possível impacto na contribuição da empresa para o resultado da Cielo, Bassols procurou mostrar que a participação da varejista na carteira de clientes é pouco relevante.
“No segmento de grandes clientes, nenhum, individualmente, responde por mais de 0,9% do nossos clientes, e esse em específico não está entre nossos maiores”, disse.
Sobre um possível impacto da crise da Americanas nos preços que são cobrados pela Cielo, o CFO respondeu que as consequências disso serão avaliadas “caso a caso”.