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A curva de juros está invertida; entenda o que isso quer dizer para a economia e seus investimentos

A curva de juros está invertida; entenda o que isso quer dizer para a economia e seus investimentos

Taxas de títulos de curto prazo já pagam mais do que papeis de vencimento no longo prazo

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Considerada uma espécie de termômetro do que vem pela frente em uma economia, a curva de juros, que é a representação gráfica do quanto os investidores estão cobrando para emprestar dinheiro em diferentes prazos, está invertida. Isso quer dizer que está mais caro tomar financiamento no curto do que no longo prazo – uma coisa incomum, porque datas mais distantes de pagamento significam riscos maiores para quem faz o empréstimo.

Esta inversão fica evidente quando olhamos para o mercado futuro dos juros que os bancos cobram de empréstimos entre eles próprios – os contratos futuros DI. Às 10h30 desta quinta-feira, 30, a taxa para um empréstimo que vence em 2023 estava em 11,78%, enquanto a taxa para uma operação que termina em 2026 estava em 10,46%, mais de 1 ponto porcentual menor, de acordo com dados da plataforma TradeMap,

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Taxas dos contratos de DI com vencimento em janeiro no dia 30 de dezembro de 2021. Fonte: TradeMap

Esta inversão na curva tem motivo. Além da pressão inflacionária, o Brasil enfrenta, às vésperas de um ano de eleições presidenciais particularmente acirradas, um afrouxamento das regras do teto de gastos (que limita despesas à inflação) e que até então eram a nossa âncora fiscal. E não há nenhum sinal de que bagunça nas contas públicas irá parar por aí. Muito pelo contrário, que o diga a paralisação dos auditores da Receita Federal por reajustes salariais.

Nesse cenário, sobrou para o Banco Central tentar manter os preços sob controle por meio do aumento de juros. A instituição já avisou que para isso subirá a taxa mesmo se tiver que contratar uma recessão para o ano que vem.

A expectativa é que os juros se elevem no curto prazo, caiam e se mantenham nesse patamar por mais algum tempo. Tradicionalmente, quanto menor o prazo, mais baixos os juros cobrados, já que é mais fácil adivinhar as condições econômicas no curto prazo. Quanto mais longos, maiores as taxas, já que as incertezas se multiplicam.

Longe de ser um fenômeno teórico, essa mudança de formato na curva tem consequências muito práticas para os investimentos. Em momentos como o atual, o interesse em vencimentos com prazos mais curtos se torna muito maior. Afinal de contas, por que você vai investir em um papel que vence em quatro anos se o de prazo de um ano te entrega uma taxa maior?

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O que é curva de juros, e como monitorá-la pode te ajudar a investir melhor

Entre a inflação e a recessão

Mas afinal, o que essa inversão da curva diz sobre o andamento da nossa economia?

“Esse é um movimento contra intuitivo, até ao se considerar que prazos mais longos, dada a maior incerteza, deveriam se refletir em prêmios maiores. Basicamente, quando a curva inverte, o que podemos interpretar é que o mercado espera que, após o ciclo de aperto monetário, a economia vai enfraquecer”, aponta Camilla Dolle, analista de renda fixa da XP Investimentos.

Em outras palavras, após um choque de juros como o atual, a retração da inflação e da atividade econômica permitirá uma queda na taxa a partir de 2023.

Na avaliação da equipe de macroeconomia do Itaú Unibanco, há condições de que a Selic, que em sua avaliação terminará 2022 em 11,75%, seja reduzida para 8% até dezembro de 2023.

“Para 2023, esperamos que a taxa Selic seja reduzida em direção a patamares menos restritivos. Com os efeitos defasados da alta de juros e a capacidade ociosa na economia (em especial, no mercado de trabalho), a inflação tende a ir se aproximando da meta”, observou a equipe, em relatório.

Gustavo Ribeiro, economista-chefe da ASA Investments, aponta que há dois fatores principais que contribuem para isso: a variação de preços elevada, que é um fenômeno mundial como consequência da pandemia, e a quebra do compromisso do governo com o ajuste fiscal.

“Nesse cenário, o melhor que o Banco Central consegue fazer hoje é trazer a inflação para baixo o quanto antes”, afirma o economista. “Em um momento em que perdemos a âncora fiscal, não podemos entrar em uma espiral negativa de alta de preços”.

E o que isso quer dizer para os seus investimentos?

A avaliação de analistas é que os títulos de mais longo prazo de fato perderam atratividade para o pequeno investidor. Por outro lado, pode ser interessante  apostar nos vencimentos intermediários, entre dois e três anos.

“O caminho com melhor relação risco e retorno seria esperar que, após passado o choque de inflação atual, o ciclo de alívio monetário que deve ocorrer em 2023 será mais forte do que o precificado na curva. Em outras palavras, a Selic deveria voltar para o patamar de um dígito, abaixo de 10%, e a melhor forma de aproveitar esse movimento seria através de títulos prefixados intermediários”, afirma Dolle, da XP.

Ela aponta que isso não significa que títulos pós fixados ou atrelados ao IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) não sejam atraentes, muito pelo contrário. “Dado o cenário econômico que se desenhou ao longo deste ano, as taxas estão muito mais altas do que no começo do ano, o que pode sim também representar boas oportunidades para composição de carteira”.

Na avaliação de Ribeiro, da Asa Investments, o ambiente político e econômico continuará conturbado no ano que vem, o que significa um novo ano de volatilidade nos juros e na Bolsa. Ele acredita que em cenários assim títulos atrelados à inflação podem ser interessantes.

“Esse cenário sugere uma postura um pouco mais cautelosa por parte dos investidores”, diz. “A Bolsa está barata por várias métricas, mas existe uma incerteza relativamente grande sobre eleições, riscos fiscais. Períodos que antecedem momentos conturbados fazem com que títulos ligados à inflação se mostraram atrativos em períodos semelhantes no passado”.

O ideal é ter em mente que diversificação também é uma palavra chave quando se fala de renda fixa. Títulos pós e prefixados e atrelados à inflação têm seus pontos fortes e fracos, e se beneficiam de um portfólio balanceado.

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