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O que a Netflix (NFLX34) pode aprender com outras big techs (para não perder ainda mais valor)

O que a Netflix (NFLX34) pode aprender com outras big techs (para não perder ainda mais valor)

Desde a chegada da pandemia da Covid-19, o contexto dessas empresas se tornou ainda mais volátil

Apps de redes sociais em celular

Foto: Shutterstock

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Nas últimas décadas, o Vale do Silício, nos Estados Unidos, foi o berço da inovação tecnológica. As companhias que sobreviveram à bolha da internet, na virada do século, conseguiram surfar um ambiente propício à tecnologia – algumas delas se tornaram as conhecidas big techs

Ao longo do tempo, a Bolsa de Valores americana passou a incorporar a mudança de paradigma que tais big techs trouxeram à economia, no modo de consumo e interação entre as pessoas.

Desde a chegada da pandemia da Covid-19, porém, o contexto dessas empresas se tornou ainda mais volátil. Num primeiro momento, elas ganharam tração com suas tecnologias sendo utilizadas para aproximar pessoas e otimizar processos em tempos de distanciamento social. 

Posteriormente, o cenário se inverteu e, esbarrando em limites para seus respectivos mercados, junto com a insurgência de novos players, as companhias passaram a demonstrar dificuldade em entregar crescimento. 

O ano de 2022 tem sido atípico – embora não possa ser classificado como uma surpresa. A crise na Netflix (NFLX34) foi o estopim do temor das big techs no primeiro trimestre deste ano.

A expectativa do mercado já era pessimista, mas a empresa conseguiu superar as projeções negativamente, perdendo assinantes pela primeira vez em dez anos. Alguns foram os problemas, entre aspectos conjunturais e estruturais. 

De um lado, a empresa suspendeu as operações na Rússia em função da guerra, mas também sentiu a menor renda disponível mundo afora e a alta concorrência em streamings – dado que a Netflix costuma oferecer o serviço mais custoso. 

No acumulado deste ano, a empresa já perdeu cerca de US$ 177 bilhões em valor de mercado, fazendo alusão a pontos de inflexão que outras grandes empresas de tecnologia já passaram – muitas delas, superando-os. 

Da falência aos US$ 3 trilhões

O caso da Apple (AAPL34) é emblemático. Criada como uma fabricante de computadores pelos “Steves” Jobs e Wozniak na década de 1970, a companhia beirou a falência em 1997, 12 anos após ter demitido Jobs de forma arbitrária.

A concorrência acelerada, demasiadas burocracias que impediam a empresa de crescer e problemas na gestão trouxeram o empresário de volta para tentar reerguer a companhia, após um período de sucesso na Pixar (adquirida por Jobs em 1986).

O turning point da Apple pode ser explicado por algumas razões. Entre elas, talvez a principal tenha sido o lançamento do iPhone, em 2007, gerando a sensação de escassez e luxuosidade para quem possuía o progenitor dos smartphones. 

Apenas no primeiro trimestre deste ano, o aparelho rendeu uma receita de US$ 50,57 bilhões, mais da metade de todo o restante do faturamento da companhia. 

A Microsoft (MSFT34), até então ainda liderada por Bill Gates, também ajudou a tirar a empresa de seu calvário, investindo US$ 150 milhões na Apple em 1997. Em agradecimento, Jobs disse a Gates que “o mundo era um lugar” a partir daquele momento.

Com inovação e até a colaboração da indústria, a Apple saiu de um valor de mercado de US$ 3 bilhões naquele ano para US$ 3 trilhões em janeiro de 2022, a primeira a ultrapassar tal marca.

Barreira natural

O Facebook (FBOK34) também sofreu no início deste ano, após a divulgação do balanço do quarto trimestre de 2021. 

Após a divulgação do resultado, a empresa chegou a perder quase US$ 300 bilhões em valor de mercado em dois pregões, com queda do lucro na comparação anual e perda da visibilidade, na visão do mercado, para o longo prazo da empresa. 

A Meta, controladora da empresa, viu seus custos e despesas aumentarem 38%, ao passo que o número de usuários caiu pela primeira vez na história – embora o Facebook ainda tenha contato com quase metade do planeta por meio das plataformas que fazem parte de seu guarda-chuva.

De forma análoga à Netflix, o Facebook também sente a pressão da concorrência – assumindo-a em suas falas públicas. 

Recentemente, o CFO da Meta, David Wehner, afirmou que a competição chegou para ficar e “ventos contrários” tendem a incomodar nos próximos trimestres. A principal concorrente é a ByteDance, dona do TikTok. 

Nos últimos três anos, a taxa de crescimento média do Ebitda da empresa foi de 29,4%, ao passo que o LPA (lucro por ação) retornou aos investidores um crescimento de 23,2% por ano neste intervalo. 

Recomendações para ações do Facebook são majoritariamente de compra

Fonte: TradeMap
Fonte: TradeMap

Mesmo assim, a empresa negocia a 15 vezes o lucro dos últimos 12 meses, patamar baixíssimo para uma empresa de alto crescimento. 

O ponto de inflexão da empresa para o futuro deve ser justamente os investimentos que vem realizando, principalmente no metaverso e monetização das plataformas, a fim de fomentar maior uso das plataformas pelos potenciais clientes. 

Vale dizer, contudo, que massivos investimentos em operações que queimam caixa e dão prejuízo nos primeiros anos de vida certamente irão diminuir as margens do Facebook no curto e médio prazos.

O problema de margens também já passou por Amazon (AMZN34) e Alphabet, a controladora do Google (GOOG). 

Na ocasião, no fim de 2010, a varejista fundada por Jeff Bezos estava investindo fortemente em centros de distribuição – o que, visto de forma retrospectiva, foi positivo para a sustentação da empresa enquanto a demanda se tornava cada vez maior. 

Ambas as companhias, entretanto, têm conseguido superar as adversidades e entregam resultados satisfatórios aos clientes. Afinal, ambas têm market cap acima de US$ 1 trilhão.

A varejista, em termos de diversificação de operações, conta com o AWS (Amazon Web Services) ainda muito forte e com investimentos em produção de conteúdo também relevantes. O Google, por sua vez, avança em sua proposta de nuvem e colhe os frutos de ter adquirido o YouTube por uma barganha em 2006, mas ainda encara os prejuízos de empresas incipientes

O fim do dinheiro fácil e barato para big techs

A contração monetária fomentada pelas consequências da pandemia trará um choque de US$ 410 bilhões (cerca de R$ 2,08 trilhões) nos mercados mundo afora. 

A projeção é da Bloomberg Economics, que estimou recentemente que esse valor sumirá dos países industrializados do G-7, após a massiva injeção de recursos pelos Bancos Centrais para combater a Covid-19.

O coronavírus trouxe uma injeção de US$ 8 trilhões na economia do G-7, fazendo com que o dinheiro fácil e barato no mundo desde 2008 parecesse ser infinito.

O Fed (Federal Reserve, BC americano) está diminuindo seu balanço, que mais do que dobrou desde 2020, e aumentando as taxas de juros no maior ritmo em mais de duas décadas. 

Veja também:
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Por mais que as big techs ainda estejam em ritmo acelerado de crescimento, entregando valor com sua rentabilidade sobre capital investido maior do que o custo de capital, o valor atribuído a essas empresas é percebido de forma diferente.

Como a maior parte do valor das companhias está no futuro – ou até mesmo na perpetuidade – quando os números são de difícil mensuração e sensíveis a mudanças, uma maior taxa de desconto é aplicada aos valuations

Esse processo é aprofundado pela sensação cada vez mais factível de que a tecnologia não é de “winner takes all”, ou seja, que o vencedor – ou o primeiro a chegar – leva tudo.

Para os consumidores, a variedade de ofertas, soluções e corporações lutando pela atenção de cada um é, em tese, cada vez melhor. Para as empresas, a concorrência e as margens apertadas não são boas notícias.

Há de ser analisado caso a caso. Para a Netflix, que tem pouco diferencial frente a seus pares, a não ser o excelente software e maior número de usuários vigentes, o cenário é amplamente desafiador.

A empresa já tem expectativa de entregar resultados ainda mais desacelerados, quiçá negativos, ao longo deste ano. Para que o cenário seja revertido, a companhia deve aprender com as demais integrantes da FAANGs (sigla para Facebook, Amazon, Apple, Netflix e Google).

Todas as big techs citadas passaram por momentos de turbulência e conseguiram superar com investimentos assertivos, gestão eficiente, produtos diferenciados e, também, uma pitada de sorte. Na Netflix, o desafio está em manter o crescimento de usuários sem transformar o preço acima do acessível. Só o tempo dirá o futuro da indústria de streamings.

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