A indústria conseguiu resistir e manter a produção em alta em quatro dos seis primeiros meses deste ano, mas essa resiliência foi insuficiente para contornar os problemas de oferta, decorrentes da pandemia de Covid-19 e da guerra entre Rússia e Ucrânia, e da demanda, comprimida pelo aumento dos juros.
Em junho, após subir de forma moderada entre fevereiro e maio, a produção industrial recuou 0,4%, segundo dados divulgados nesta terça (2) pelo IBGE, o que somado ao tombo de janeiro fez o setor contrair 2,2% no primeiro semestre.
Na segunda metade do ano, segundo especialistas, o desempenho não deve ser muito melhor, e a expectativa é que a indústria ou ande de lado ou volte a cair no final de 2022, em um ambiente de juros ainda elevados e recessão global.
Para o estrategista-chefe do banco Mizuho, Luciano Rostagno, a expectativa é que as medidas anunciadas pelo governo, como o aumento do valor do Auxílio Brasil e o crédito consignado que poderá ser concedido tendo o benefício como garantia, deem algum fôlego à indústria no terceiro trimestre.
“Por outro lado, as taxas de juros elevadas e os problemas persistentes nas cadeias de suprimento mundiais, com retirada de estímulos, e as eleições presidenciais polarizadas podem provocar alguma contração no quarto trimestre.”
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Produção industrial cai 0,4% em junho após quatro meses de alta
De acordo com o IBGE, a variação negativa em junho foi disseminada pela maior parte das atividades econômicas acompanhadas pela pesquisa, com destaque para produtos farmoquímicos e farmacêuticos, que recuaram -14,1%.
Entre as grandes categorias pesquisadas pelo IBGE, somente o consumo de bens duráveis cresceu no mês retrasado. A maior queda foi em bens de capital (máquinas e equipamentos), que tombou 1,5% na comparação com maio.
O economista-chefe da Necton, André Perfeito, lembra que desde 2014 o setor não apresenta melhoras significativas.
“Até o setor extrativista vêm apresentando queda. A situação é complexa e extrapola as urgências de curto prazo. Há bons motivos para crermos que a queda da indústria pode estar ancorada em questões estruturais importantes, tanto domésticas quanto externas”, avaliou. “Um segmento tão intensivo em capital e economia de escala encontra sérias limitações com juros elevados, queda das margens de lucro e uma piora no mercado externo.”
Anda de lado ou cai?
Na avaliação da economista Claudia Moreno, do C6 Bank, a produção industrial deve seguir fraca no segundo semestre.
“Nossa expectativa é que a indústria ande de lado, podendo até cair ao longo do segundo semestre. Esse ritmo lento vai ser puxado pelo impacto da alta de juros, que começa a ser mais fortemente sentido no segundo semestre, e pela desaceleração da economia global. A queda do preço das commodities também afeta a produção industrial.”
A economista-chefe do banco Inter, Rafaela Vitória, lembra que o destaque negativo do mês retrasado foi o segmento de bens de capital (máquinas e equipamentos), que já sentiu o impacto de uma taxa básica de juros mais alta.
Nesta quarta-feira (3), o Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) deve voltar a elevar a Selic em 0,50 ponto percentual, a 13,75% ao ano – a taxa começou a ser elevada em março do ano passado para combater uma inflação persistente.
“Os efeitos da política monetária mais restritiva já podem ser vistos na desaceleração da produção de máquinas e equipamentos. Para o segundo semestre, esperamos que o desempenho da indústria continue mais fraco, não só pelo impacto da Selic maior, que deve afetar a demanda por bens, com o crédito mais caro e escasso, mas também pelo cenário global de desaquecimento.”