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Menor renda em 10 anos: brasileiro só irá recuperar poder de compra no final da década

Menor renda em 10 anos: brasileiro só irá recuperar poder de compra no final da década

Aperto nos juros no Brasil e outros países e mercado de trabalho debilitado atrasarão retomada

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Crescimento mais fraco, contexto internacional desfavorável, inflação em alta, a variante Ômicron do coronavírus.  Esses são alguns dos fatores que vão retardar ainda mais a recuperação da economia brasileira, cenário que se reflete diretamente no bolso. Com tantos pontos jogando contra, o restabelecimento do poder de compra ao nível alcançado antes de o Brasil entrar em crise após crise a partir de 2015 só será possível no final da década.

Nesta sexta-feira (28), o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) informou que a renda média real (ou seja, descontada a inflação) no trimestre terminado em novembro ficou em R$ 2.444, a menor desde 2012, quando tem início a série histórica. Mais que um número, esse dado mostra que está mais difícil não só comprar itens de maior valor, mas também encher o carrinho de compras.

“O retorno a níveis vistos antes de 2015 depende de uma série de fatores que não são só conjunturais. Não vamos ter o bônus do cenário externo e temos desafios internos”, diz Izis Ferreira, economista da CNC (Confederação Nacional do Comércio).

A dificuldade do cenário externo vem das medidas de restrição monetária, que reduzem a liquidez aos países emergentes, além do aumento do preço das commodities, que pressionam a inflação. Internamente, ela destaca o mercado de trabalho debilitado e uma recuperação econômica desigual. O avanço acelerado da nova cepa do coronavírus pelo mundo tampouco ajuda.

“Esse quadro não muda em 2023 e nem em 2024”, afirma Ferreira.

Consumo ladeira abaixo

Essa deterioração na economia, que vem desde a recessão de 2015 e 2016 e que piorou ainda mais com a chegada da Covid-19, fará com que os brasileiros demorem mais para voltar a consumir o que compravam com certa facilidade anteriormente.

No caso da carne bovina, o consumo aparente em 2013 foi de praticamente 32 quilos por pessoa. No ano passado, em um cenário de inflação disparada, caiu para 24,3 quilos. O dado faz parte do levantamento feito por Cesar Castro Alves, especialista da Consultoria Agro do Itaú BBA. Foram levados em conta os dados de abate e produção de carne bovina, descontando as exportações e incorporando as importações.

Alves explica que essa redução do consumo de carne não está ligada às exportações, uma vez que a maior parte da produção (70%) fica no país –é importante lembrar que mesmo com os embargos impostos pela China em 2021, que afetaram as vendas ao exterior, não houve alta no consumo aparente.

“Essa queda está ligada ao ciclo pecuário. A recomposição do rebanho leva em média sete anos, mas o fator principal é a renda. A renda no Brasil não acompanhou a alta dos alimentos. O consumo desceu a ladeira”, explica.

Para ele, no médio prazo não há como a renda acompanhar o aumento dos preços da carne e o consumo do produto voltar para a casa dos 30 quilos por pessoa.

“O nosso cenário não é nada confortável. Temos incertezas fiscais e o dólar em patamar elevado encarece os insumos da agropecuária. Não está no horizonte uma melhora de renda para aumento de consumo”, explica.

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Sonho de consumo mais distante

Silvio Paixão, professor de macroeconomia da Fipecafi (Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis), lembra que essa dificuldade de recuperação está atrelada a problemas estruturais do país, que tem um nível de produtividade baixo dado à falta de capacitação da mão de obra. Sem produtividade, os ganhos de renda são mais difíceis.

“Vamos levar de cinco a dez anos para a gente atingir bases sólidas e recuperar o nível de emprego, renda e de crescimento sustentável”, diz.

Essa situação de menor renda média real e elevada taxa de desemprego também leva os consumidores a se afastarem de produtos e serviços que antes eram vistos como “sonhos de consumo”.

Com maior desemprego, está menor a cobertura de pessoas com planos de saúde. O auge dessa cobertura, que inclui tanto convênios individuais como privados, ocorreu em 2014.

Vendas de veículos em queda

Processo similar acontece na venda de veículos novos, que chegou a 3,63 milhões em 2012 e nos últimos dois anos não passou só de 2 milhões. O Brasil só deve bater o recorde anterior de venda de automóveis em 2030, segundo estimativas da empresa de pesquisa IHS Markit.

A pandemia da Covid-19 causou uma quebra na cadeia de produção de veículos e explica boa parte das vendas baixas em 2020 e 2021. No entanto, o processo de redução das vendas já havia começado antes do coronavírus chegar, e está ligado ao nível de emprego e renda. Sem folga no orçamento, as famílias desistem ou postergam a compra de veículos. E um outro agravante tende a piorar essa decisão, que é o aumento dos juros.

“Os carros atualmente precisam de um conteúdo tecnológico maior por questões de segurança e meio ambiente. E também houve aumento dos insumos e o preço, mas a sociedade brasileira não está com renda para isso”, diz Antônio Jorge Martins, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Antônio Jorge Martins.

 

 

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