Em meio ao avanço da variante Ômicron do coronavírus, alta de juros e inflação alta, a produção industrial teve queda de 2,4% em janeiro na comparação com dezembro, de acordo com dados divulgados nesta quarta (9) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
Analistas ouvidos pela Reuters esperavam um recuo menor, de 1,9%. Com esse desempenho no início do ano, a indústria está 3,5% abaixo do patamar pré-pandemia, em fevereiro de 2020.
Na comparação com janeiro de 2021, a queda foi de 7,2%, segundo os números da PIM (Pesquisa Industrial Mensal). O tombo fez a produção industrial devolver quase toda a alta registrada em dezembro, quando subiu 2,9%.
“Este é um péssimo sinal para o início do ano e pode sugerir de fato que os bons dados do quarto trimestre de 2021 ficaram para trás”, avaliou o economista-chefe da Necton, André Perfeito. “Sabemos de todos os desafios que o setor industrial passa e agora há mais desafios, com alta de insumos devido a guerra no Leste Europeu”.
Claudia Moreno, economista do C6 Bank, apontou que a queda da indústria foi generalizada, com destaque para bens de capital (máquinas e equipamentos) e bens duráveis.
“Ao olhar para o histórico da pesquisa, verificamos que a produção industrial teve um pico de recuperação em janeiro de 2021 e desde então segue uma trajetória de queda, impactada pela ruptura das cadeias globais de produção, que prejudicou, principalmente, a indústria automotiva. Mais recentemente, a política monetária contracionista que o Banco Central vem adotando também pesou nesse cenário”.
O gerente da pesquisa do IBGE, André Macedo, ressaltou no material de divulgação do levantamento que o mau desempenho foi disseminado.
“O mês de janeiro está bem caracterizado pela perda de dinamismo e de perfil disseminado de queda, uma vez que todas as grandes categorias econômicas mostram recuo na produção, tanto na comparação com o mês anterior quanto na comparação com janeiro de 2021”, afirmou.
20 de 26 atividades caíram
A pesquisa mostrou que 20 de 26 atividades industriais acompanhadas pelo IBGE tiveram recuo na produção, cenário relacionado com a desorganização das cadeiras produtivas por causa da pandemia, além de encarecimento de custos de produção e dificuldade na obtenção de insumos e matéria-prima.
No início do ano, o pico de casos de coronavírus por causa da variante Ômicron, muito mais contagiosa, levou ao afastamento de muitos funcionários.
“Juros e a inflação em elevação, juntamente com um número ainda elevado de trabalhadores fora do mercado de trabalho, ajudam a explicar o comportamento negativo da indústria”, avaliou Macedo.
Os piores desempenhos foram veículos automotores, reboques e carrocerias (queda de 17,4%) e indústrias extrativas (recuo de 5,2%).
“O segmento de veículos automotores é um exemplo importante de desarticulação da cadeia produtiva, já que tem dificuldades na obtenção de insumos importantes para a produção do bem final. Já o setor extrativo, em janeiro de 2022, teve a extração do minério de ferro bastante afetada pelas chuvas em Minas Gerais”, esclarece Macedo.