A taxa de desemprego no Brasil caiu para 10,5% no trimestre encerrado em abril, atingindo o menor nível para o período desde 2015, conforme dados divulgados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) nesta manhã. Ao todo, são 11,3 milhões de brasileiros sem emprego.
O número veio abaixo do previsto pelos analistas ouvidos pela Reuters, de 11%. O índice de pessoas desempregadas está menor que no trimestre móvel anterior, encerrado em janeiro (11,2%), e também em comparação ao mesmo período de 2021 (14,8%).
Os dados positivos na geração de emprego contrastam com a queda do rendimento dos brasileiros. No trimestre encerrado em abril, a renda média mensal do trabalhador foi de R$ 2.569, praticamente estagnada em relação aos três meses anteriores (R$ 2.579).
Mas em um ano o tombo foi muito maior. Nos três meses findados em abril de 2021, a média salarial era de R$ 2.790, diferença de 7,9% ao número atual.
A queda reflete os efeitos que a inflação elevada têm na corrosão da renda do trabalhador e no impacto das famílias brasileiras. No acumulado de 12 meses em abril, o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) foi de 12,13%.
“Se por um lado a geração de postos de trabalho é um fator positivo, por outro, a renda tem sido corroída pela inflação elevada, que é algo que precisa ser endereçado para que os trabalhadores avancem nos ganhos salariais”, afirma Luciano Rostagno, estrategista-chefe do Banco Mizuho.
A perda do poder de compra do trabalhador é mais séria do que uma questão pontual e desencadeia reações que devem ser refletidas na análise do PIB (Produto Interno Bruto) e na geração de emprego, explica Hélio Zylberstajn, professor sênior da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA-USP).
“Dois terços do PIB são formados pelo consumo das famílias. Se não há renda, elas estão perdendo poder de compra. Isso significa menos PIB, e portanto, um crescimento econômico menor. Tudo afeta a possibilidade de criação de emprego”, diz.
População ocupada bate recorde
Apesar da diminuição da renda média mensal, os dados do IBGE mostram que houve um incremente na massa de rendimento real habitual, que soma toda a renda dos trabalhadores no período. Em abril, o valor foi de R$ 242,9 bilhões, 1,3% acima dos três meses anteriores e estável na comparação com o ano passado.
A soma traduz o incremento na população ocupada, que passou para 96,5 milhões de brasileiros, o maior da série histórica iniciada em 2012. Em relação ao trimestre anterior, a alta foi de 1,1% (95,4 milhões), já na base anual houve um incremento de 10,3% (87,5 milhões).
A melhora do mercado de trabalho coincide com a retomada das atividades econômicas após o repique da pandemia da Covid-19 no primeiro trimestre, somada as ações do governo federal para aquecer a economia, como a liberação dos saldos do FGTS e medidas de estímulo ao crédito.
Além da melhora das taxas de ocupação, Zylberstajn chama a atenção para a dinâmica da recuperação do mercado. Do 1,1 milhão a mais de trabalhadores em comparação com o trimestre anterior, 690 mil pessoas conseguiram trabalho com carteira assinada.
“Também houve alta no número de trabalhadores domésticos. Se as famílias estão contratando mais, é porque a situação está melhor para elas”, afirma.
Segundo semestre mais desafiador
Os fatores responsáveis pela melhora do mercado de trabalho podem perdurar por mais alguns meses e levar a taxa para até um dígito no curto prazo. Porém, os desafios econômicos e políticos esperados para o segundo semestre devem reverter o quadro.
No primeiro caso, o mercado espera maior dificuldade quando a alta dos juros pelo Banco Central (BC) afetar em cheio as atividades. Apesar de a elevação da Selic ter começado há mais de um ano, os efeitos demoram em média seis meses para chegar na ponta.
Já no cenário político, a questão incide na polarização que a disputa terá nos mercados e na disposição dos agentes econômicos.
“Pode haver uma reversão parcial dessa tendência de queda e voltar para um patamar de dois dígitos no fim do ano, mesmo que ainda baixo”, diz Rostagno. A Mizuho projeta que a taxa de desemprego encerre 2022 na casa de 10%.
Com um tom mais cauteloso, Zylberstajn afirma que o fator político vai ter grande peso no mercado. “Essa virada [em abril] foi totalmente surpreendente, mas o caminho da eleição vai ser uma variável-chave para o comportamento da economia”, diz.