Copom sobe juros em 1,5 ponto, a 7,75% ao ano, e sinaliza nova alta igual na próxima reunião

Mudança do teto de gastos para elevar despesas em 2022 e disparada da inflação em outubro pontuam decisão

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Em meio à brusca mudança no cenário fiscal e à disparada da inflação, o Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) decidiu nesta quarta-feira, dia 27, subir a taxa básica da economia, a Selic, em 1,5 ponto percentual, a 7,75% ao ano. A autoridade monetária sinalizou nova alta, da mesma magnitude, na próxima reunião –se isso se confirmar, os juros terminarão o ano em 9,25% ao ano.

Foi a maior alta desde dezembro de 2002, quando a taxa foi elevada em 3 pontos após a primeira vitória de Luís Inácio Lula da Silva em eleições presidenciais.

A decisão, unânime, foi tomada em um cenário de incertezas provocadas pela decisão do governo de alterar a regra do teto de gastos e assim permitir mais despesas em 2022, ano eleitoral, e ficou em linha com o esperado pela maior parte do mercado.

“Para a próxima reunião, o Comitê antevê outro ajuste da mesma magnitude. O Copom enfatiza que os passos futuros da política monetária poderão ser ajustados para assegurar o cumprimento da meta de inflação e dependerão da evolução da atividade econômica, do balanço de riscos e das projeções e expectativas de inflação para o horizonte relevante da política monetária”, afirmou o comitê no comunicado que acompanha a decisão.

O atual ciclo de aperto monetário teve início em março, quando os juros básicos estavam em 2% ao ano. Após três altas de 0,75 ponto, o Copom intensificou os aumentos a partir de agosto, passando a elevar a taxa em 1 ponto percentual.

Entenda a seguir os dois pontos que, somados, explicam por que o BC optou por uma alta tão expressiva.

Reviravolta fiscal

Até o início da semana passada, a maior parte do mercado colocava as fichas em uma alta de um ponto nos juros. Mas o anúncio de que o governo, com a concordância do ministro Paulo Guedes, vai aumentar o benefício do Bolsa Família de R$ 192, em média, para R$ 400 no Auxílio Brasil (novo programa social) mudou esse quadro.

A mudança será viabilizada via PEC (Proposta de Emenda à Constituição) dos precatórios: ao alterar o teto de gastos e prorrogar o pagamento dessas dívidas, o texto permite a abertura de um espaço de quase R$ 100 bilhões a mais no Orçamento do ano que vem. A esse contexto se somou a debandada da equipe do Tesouro Nacional do Ministério da Economia e indicações de que a escalada de gastos pode não parar por aí.

Quando o risco de descontrole das contas públicas de um país se eleva, investidores passam a pedir taxas de juros bem maiores lá na frente para comprar títulos públicos – ou, se você preferir, emprestar dinheiro ao governo. O medo em relação às contas públicas também faz o dólar ficar mais caro, o que acelera a inflação.

Ao promover um forte ajuste na Selic, o BC sinaliza que não vai permitir que um cenário de descontrole da inflação se concretize e, assim, tenta oferecer um “choque de credibilidade” no mercado ao sinalizar que fará qualquer coisa para ancorar as expectativas de inflação.

Inflação ainda acelerando

O objetivo principal da política monetária do Banco Central é manter a inflação sob controle. Ontem, diferentemente do esperado pelo mercado, o IPCA-15 (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) de outubro apontou para uma aceleração no ritmo de alta dos preços neste mês.

Na primeira quinzena, o índice de preços subiu 1,20% (acima do avanço de 1,14% de setembro) e, em 12 meses, a alta já chega a 10,34%.

Qual o impacto da alta de juros sobre a economia?

Os efeitos principais se dão em duas frentes: nos empréstimos e nos investimentos.

O crédito mais caro refreia o consumo, o que já leva analistas a esperarem um crescimento cada vez menor da nossa economia no ano que vem. Se há uma semana os especialistas ouvidos pelo Boletim Focus acreditavam que o PIB (Produto Interno Bruto) cresceria 1,5% em 2022, agora já preveem alta de 1,4%, na média.

O que uma alta de 1,5 ponto da Selic pode significar para a renda fixa?

A tendência é que os títulos de curto prazo se desvalorizem, isto é, que os preços caiam e as taxas pagas aumentem, o que representaria uma boa oportunidade de entrada.

Já para o longo prazo, a ideia é que, em um cenário de inflação mais controlada por causa de alta forte na Selic, as taxas de juros sejam menores, o que valorizaria os títulos no presente.

“Os investimentos prefixados e indexados à inflação de prazos mais longos apresentariam valorização neste primeiro momento, com queda nas taxas dos títulos. Para quem já detém este tipo de ativo, poderia ser uma oportunidade de ganhos de capital”, apontam analistas da XP, em referência à venda dos papéis antes do vencimento.

A equipe da XP lembra que o momento é favorável para os papéis com retornos pós-fixados, como aqueles que remuneram o investidor com um percentual do CDI. “Enxergamos o cenário atual como positivo para alocação nos títulos pós-fixados, que acompanham a taxa de juros, uma vez que a expectativa para a taxa Selic é de elevação em qualquer um dos cenários apresentados.”

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