O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central deve manter o ritmo do ciclo de aperto e elevar a taxa básica de juros em 1,50 ponto percentual, para 9,25%, na reunião que termina nesta quarta-feira, 8. Essa é a projeção majoritária do mercado financeiro e dos economistas das principais instituições segundo levantamento da Agência TradeMap.
A grande dúvida que fica é se a autoridade monetária vai manter o plano de voo e sinalizar outra alta na mesma magnitude para a reunião de fevereiro, dado o patamar ainda elevado das expectativas de inflação, ou se vai deixar a porta aberta para uma possível desaceleração no ritmo de alta da Selic, diante dos sinais fracos da atividade econômica. O Produto Interno Bruto (PIB) do terceiro trimestre recuou 0,1%, colocando o Brasil em recessão técnica.
A maioria das instituições do levantamento da Agência TradeMap espera que o BC sinalize a manutenção do ritmo de alta de juros para a próxima reunião, dadas as expectativas de inflação ainda elevadas e as incertezas no cenário externo e fiscal no Brasil.
Fonte: Instituições | ||
Perspectivas do mercado financeiro para os juros | ||
Instituição | Previsão para Selic em dezembro | Previsão para Selic ao fim do ciclo |
Capital Economics | 9,25% | 10,50% |
Bank of America Merill Lynch | 9,25% | 10,75% |
Banco Votorantim | 9,25% | 11% |
Morgan Stanley | 9,25% | 11% |
Goldman | 9,25% | 11% |
Mizuho | 9,25% | 11,25% |
XP | 9,25% | 11,50% |
UBS | 9,25% | 11,50% |
BTG Pactual | 9,25% | 11,75% |
Rabobank | 9,25% | 11,75% |
Itaú Unibanco | 9,25% | 11,75% |
LCA | 9,25% | 11,75% |
SulAmérica | 9,25% | 12% |
Genial Investimentos | 9,25% | 12% |
Banco Original | 9,25% | 12,25% |
Santander | 9,25% | 12,25% |
Quando o BC decide sobre a taxa básica de juros, ele está mirando a inflação no horizonte do fim de 2022 e para além desse período, e não a inflação corrente.
O BTG Pactual destaca que, desde a última reunião do Copom, em 27 de outubro, houve uma piora das expectativas de inflação.
As instituições classificadas no ranking “top 5” de curto prazo do Relatório Focus, que mais acertam as projeções econômicas, preveem alta de 5,51% do IPCA em 2022, acima do teto da meta de inflação, de 5%. As expectativas para 2023 e 2024 já estão em 4,0%, maiores que o centro da meta dos respectivos anos, de 3,5% e 3,25%.
Cenário fiscal e eleições agravam quadro
As incertezas na política fiscal em ano eleitoral contribuem para piorar ainda mais esse quadro. Apesar de o avanço da aprovação da PEC dos Precatórios no Senado — que embora não tenha um desenho ideal reduz a dúvida sobre qual será o rombo no Orçamento em 2022 — ter permitido uma redução dos prêmios de risco nos ativos brasileiros, o cenário fiscal ainda é muito ruim, com a PEC sacramentando de vez o estouro do teto de gastos.
“Se por um lado a evolução da PEC dos Precatórios evita o ‘cheque em branco’ para o governo em ano eleitoral, por outro, a flexibilização proposta está longe de auxiliar a autoridade monetária na melhoria da credibilidade econômica”, destaca o BTG, em relatório.
As incertezas quanto à política fiscal contribuem para a desancoragem das expectativas, ao sustentarem uma taxa de câmbio excessivamente depreciada, aponta a equipe da SulAmérica em relatório, prevendo mais duas altas de 1,50 ponto da Selic nessa e na próxima reunião, de fevereiro.
Para piorar o quadro, o cenário externo já não está mais tão benigno. A sinalização do Federal Reserve, o banco central americano, de que pode acelerar a redução dos estímulos e subir a taxa de juros nos EUA mais cedo que o esperado é negativa para os mercado emergentes, já que muitos investidores podem retirar o dinheiros desses países para aplicar em títulos do Tesouro americano, considerados os ativos livres de risco do mundo. Dessa forma, juros mais altos nos EUA significam que o Brasil precisa oferecer taxas ainda mais elevadas para atrair investidores.
Frente ao quadro de incerteza fiscal e à alta persistente dos preços contaminando as expectativas de inflação, o Itaú Unibanco espera que o BC suba a Selic para 9,25% hoje, indique um outro aumento de mesma magnitude para a reunião seguinte e siga reforçando o alerta sobre a necessidade de reduzir a incerteza sobre as perspectivas fiscais.
O BTG Pactual também espera que o BC suba a taxa Selic hoje para 9,25% e indique novo aumento na mesma magnitude para fevereiro.
“Caso o BC não desista de convergir a inflação para abaixo do teto em 2022, o amargo remédio da aceleração do ritmo de ajuste pode ser adotado. Contudo, o efeito colateral da contração da atividade econômica pesa contra esta decisão”, assinala o BTG, em relatório.
Acelerar o ritmo significa afundar de vez a atividade econômica para o terreno negativo, que já mostra desaceleração. Por isso, algumas instituições, como o Morgan Stanley, veem a possibilidade de o Copom apontar para uma desaceleração no ritmo de alta da Selic.
Saiba no que ficar de olho no comunicado do Copom
Mudanças em alguns pontos do comunicado do Copom podem trazer sinais sobre os próximos passos da política monetária, entre eles:
- Leitura sobre o quadro fiscal — Se o BC amenizar o impacto da política fiscal como um fator de incerteza, a medida pode ser interpretada como uma sinal de desaceleração do ritmo de alta, aponta o BTG. Já se a autoridade monetária repetir a preocupação com a piora no quadro fiscal e com a persistência da inflação global, pode sinalizar a manutenção do ritmo de elevação de juros.Já se o BC apontar que houve uma deterioração significativa do balanço de riscos fiscais e que a persistência da inflação global requer ajuste maior na taxa de juros para convergir a inflação para o centro da meta, o mercado pode interpretar a mensagem como uma aceleração no aperto da taxa Selic.
- Projeção de inflação para 2023 e 2024 e comentário sobre a dinâmica da inflação — Se as projeções para a inflação apresentadas pelo BC no comunicado seguirem acima do centro da meta, poderão exigir mais elevações da Selic para ancorar as expectativas.Importante ver também como o BC avalia o comportamento da inflação. A Genial Investimentos espera que o Copom adote um discurso mais duro ao falar do processo inflacionário, apontando que ele é mais persistente do que se imaginava e reduzindo a ênfase na transitoriedade.
- Ciclo de alta da Selic — O Itaú espera que o BC repita a mensagem que a taxa Selic irá até o nível necessário para trazer a inflação para a meta no horizonte relevante para a política monetária, o que pode sinalizar a continuidade do ciclo de aperto de juros. Já o Morgan Stanley prevê que o Copom indique uma desaceleração no ritmo de alta da Selic na próxima reunião de fevereiro.
Como a decisão do Copom impacta seus investimentos
No mercado de juros, a divulgação da queda do PIB fraco no terceiro trimestre, as notícias sobre o surgimento de uma nova variante do coronavírus e o avanço da aprovação da PEC dos Precatórios fizeram com que parte dos investidores passassem a apostar em um ciclo menor de alta da Selic, o que provocou a queda das taxas dos juros futuros e, consequentemente, dos títulos públicos.
“Acreditamos que o recuo das pressões fiscais e inflacionárias em meio a um ciclo de alta já historicamente agressivo deve permitir que o mercado comece a precificar taxas mais baixas no mercado de juros para os próximos dois anos”, aponta o Morgan Stanley, que recomenda a posição no contrato de Depósito Interfinanceiro (DI ) para janeiro de 2024, vendo chance de queda da taxa de 11,06% no dia 7 de dezembro, para 10%.
Já se o BC vier com um tom mais duro e preocupado com a inflação, as taxas de juros podem subir, com o mercado prevendo um ciclo de maior aumento da Selic.
Uma sinalização de taxa de juros maior pode ser favorável para o real, uma vez que torna o mercado de renda fixa brasileiro mais atrativo para o investidor estrangeiro. De outro lado, juros mais altos são negativos para empresas, porque elevam o custo de capital e podem impactar negativamente a bolsa.