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Por que varejistas como Magazine Luiza (MGLU3) caem se dados mostram vendas em alta?

Por que varejistas como Magazine Luiza (MGLU3) caem se dados mostram vendas em alta?

Setor esboça retomada com seguidos aumentos nas vendas, mas inflação camufla resultados

Shopping Corredor

Foto: Shutterstock

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O setor de varejo esboça uma retomada com seguidos aumentos nas vendas. Só em maio, o avanço das vendas foi de 9,1% frente ao mesmo período de 2021, e a expectativa é de crescimento de pelo menos 6% em cada um dos três meses seguintes, segundo dados do IAV-IDV (Índice Antecedente de Vendas do Instituto para Desenvolvimento do Varejo).

Apesar disso, os preços das ações de empresas do varejo listadas na Bolsa de Valores brasileira (B3) não seguem esses avanços e estão em queda livre em um ano. O preço das ações setor de varejo de eletrodomésticos caiu cerca de 82,2% no acumulado de 12 meses. Já as de varejo de materiais de construção e de vestuário recuaram, respectivamente, 63% e 48%.

O motivo para essa divergência é que, na prática, a receita das empresas está menor, visto que foi a inflação a principal responsável pelo aumento das vendas. Como a inflação nos 12 meses até maio foi de 11,7%, a receita das varejistas, na verdade encolheu 2,6% em relação ao mesmo período de 2021. Ou seja: por mais que as receitas das vendas tenham crescido, o volume de vendas foi menor.

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A inflação reduz o poder de compra do consumidor, que paga valores maiores pela mesma quantidade de produtos. Portanto, é natural que o volume de vendas do varejo passe por apuros neste período.

As projeções para os meses seguintes também não são animadoras. Ainda segundo dados do IDV, sem descontar a inflação, a previsão é de que as vendas do setor varejista cresçam 6,6%, 6,4% e 6,9% em junho, julho e agosto, respectivamente.

Quando o resultado é corrigido para descontar o efeito da alta nos preços, a expectativa passa a ser uma contração de 4,3% nas vendas de junho, enquanto para julho e agosto as estimativas ficam negativas em 3,4% e 1,3%, respectivamente.

Fora o problema da inflação no Brasil, o mercado também está preocupado com a possibilidade de uma recessão global puxada pelos Estados Unidos. Segundo o Citigroup, as chances de uma recessão em 2023 são de 50%, motivadas pelo contínuo aumento das taxas de juros em vários países – uma tentativa dos bancos centrais de combater a inflação.

Em situações como essa, investidores preferem alocar seus recursos em investimentos mais seguros, como em produtos de renda fixa. Aqueles que preferem a renda variável tendem a recorrer a setores mais sólidos e resistentes contra crise, como o setor de energia elétrica.

O varejo é um dos setores que fica mais exposto às condições macroeconômicas – sofrendo quando a atividade está fraca ou encolhendo, e crescendo quando ela está forte.

Como o momento atual é de fraqueza, a perspectiva é que o setor seja prejudicado, com alguns segmentos afetados por um maior período de tempo – como as lojas que vendem eletrodomésticos e material de construção.

Varejo de móveis e eletrodomésticos

O setor de eletrodomésticos é altamente sensível à inflação. Como os preços sobem, o consumidor dá preferência para produtos mais importantes no dia a dia, e tende a deixar de lado aqueles que não são essenciais.

Além disso, por ser um ano de eleições, a expectativa é que a atividade econômica tenha dificuldade de se recuperar por causa das dúvidas sobre quem serão os candidatos vencedores e qual será o plano executado pelo próximo governo.

Segundo o IDV, as vendas de lojas que vendem estes produtos é de recuperação, mas para níveis que ainda serão inferiores aos observados em 2021.

O Magazine Luiza (MGLU3), por exemplo, registrou um aumento de 4,5% na receita de vendas do primeiro trimestre em comparação com o mesmo período de 2021. Mesmo assim, teve prejuízo de R$ 98,8 milhões no período.

A inflação corroeu os resultados da empresa ao elevar o custo dos produtos vendidos. Além disso, o salto na taxa básica de juros (Selic) – que passou de 2% no início do ano passado para 13,25% este mês – fez com que as despesas com juros da empresa aumentassem 254% em comparação com primeiro trimestre de 2021.

Um outro problema é a alta concorrência do setor de varejo no comércio eletrônico. Isso dificulta o repasse da inflação de custos para o preço final dos produtos, o que resulta em uma margem operacional restrita. No caso do Magazine Luiza, a margem Ebitda (lucro operacional antes de juros, impostos, depreciação e amortização) caiu 4,3 pontos percentuais no primeiro trimestre, para 3,9%.

Com isso, investidores ligaram o sinal de alerta e foi perceptível o reflexo nos preços dos papéis. Em um intervalo de 12 meses, as ações de Magazine Luiza caem cerca de 88,4%, enquanto os papéis de companhias que vendem produtos semelhantes, como Via (VIIA3) e Lojas Americanas (AMER3), recuam 77,8% e 80,31% respectivamente.

Uma das consequências da queda de preços é que as companhias ficaram baratas do ponto de vista do indicador fundamentalista Preço por Valor Patrimonial (P/VPA). Esse índice, que mede quanto os investidores estão dispostos a pagar pela riqueza de uma organização, encontra-se no nível mais baixo dos últimos cinco anos.

O P/VPA mostra por quantas vezes o preço da ação está sendo negociado em relação à riqueza total (patrimônio líquido) de uma companhia.

Fonte: TradeMap

O Magazine Luiza registra um P/VPA de 1,5 vez atualmente, frente a um índice de 18 vezes em junho de 2021. Ou seja, a ação está sendo negociada a um valor 50% superior ao valor patrimonial que ela representa. Via e Lojas Americanas têm P/VPA de 1,5 e 1,7 vez, respectivamente, ante 4,0 e 3,7 vezes um ano atrás.

O indicador, porém, é apenas um elemento que pode sugerir se as ações estão realmente baratas. Para chegar a essa conclusão, é preciso analisar também outros indicadores e o cenário financeiro, econômico e político no qual a empresa está inserida.

Dados compilados pela Refinitiv e apresentados na plataforma TradeMap mostram que, entre 15 especialistas do mercado financeiro, nove recomendam a compra das ações de Magazine Luiza, enquanto seis adotam uma postura neutra – manter em carteira, se já possuir a ação, ou não comprar, se não possuir.

A recomendação dos analistas para Lojas Americanas também é majoritariamente de compra – nove entre 17 analistas consultados pela Refinitiv adotam essa indicação. Para a Via, 12 dos 15 analistas consultados adotam recomendação neutra.

Varejo de materiais de construção

Outro setor que deve enfrentar maiores dificuldades é o de varejo para materiais de construção, uma vez que as empresas dependem do aquecimento do setor imobiliário para realizar as vendas.

A lógica é a seguinte: o aumento da taxa de juros eleva o custo de crédito para o consumidor, que, por sua vez, evita fazer novas dívidas. Com isso, as empresas que vendem produtos de maior valor agregado, como eletrodomésticos, terrenos e automóveis, tendem a ser mais prejudicadas.

O custo alto do crédito também inibe as compras parceladas ou via cartão de crédito, o que afeta as vendas do varejo de materiais para construção.

Os resultados apresentados no gráfico de vendas não incluem a inflação medida pelo Índice Nacional de Custo da Construção (INCC-M), que chegou a 11,75% nos últimos 12 meses até junho, segundo dados divulgados pelo Fundação Getulio Vargas (FGV).

No gráfico acima, o resultado das vendas do mês de maio foi uma redução de 1% em comparação com o mesmo período de 2021. Caso a inflação fosse incluída na conta, o resultado seria uma queda de quase 13%.

A alta do INCC, que teve pico em julho de 2021, ao atingir 17,4% no acumulado de 12 meses, vem perdendo fôlego ao longo do período e deve se estabilizar em 10% até o fim de 2022. Mesmo assim, as empresas que vendem produtos relacionados ao setor de construção tiveram perda de rentabilidade.

A Lojas Quero-Quero (LJQQ3), por exemplo, sentiu os impactos nos resultados apresentados no primeiro trimestre de 2022. Apesar de um aumento de 6% na receita bruta em comparação com mesmo período de 2021, a margem bruta caiu 5,9 pontos, para 34,3%.

A margem bruta é a diferença entre a receita de vendas e o custo dos produtos vendidos dividido pela receita bruta. Indica a proporção de lucro que a empresa tem após abater os custos dos produtos vendidos.

Outra empresa do varejo de materiais de construção, a Eternit (ETER3), teve desempenho inferior. A receita bruta caiu 4,2% no primeiro trimestre, e a margem bruta diminuiu para 33%, queda de 12 pontos em comparação com o mesmo período de 2021.

Portanto, os preços das ações do varejo de materiais de construção listadas na bolsa refletem as dificuldades macroeconômicas que devem ser enfrentadas pelo setor nos próximos meses.

Ações da Lojas Quero-Quero reportam queda de 74,03% no acumulado de 12 meses, bem abaixo do desempenho do Ibovespa, que teve baixa de 22,2% no período. Enquanto isso, outras do setor, como Eternit e Porto Bello (PTBL3), desvalorizaram cerca de 57,41% e 53,78%, respectivamente.

Fonte: TradeMap

O preço das ações da Lojas Quero-Quero esta sendo negociado a 2,25 vezes o valor do patrimônio líquido, frente a um valor de 8,3 vezes em junho de 2021 – mais baratas do que no ano passado, portanto, embora ainda devam sofrer com o cenário macroeconômico desafiador por um bom tempo.

Fonte: TradeMap

A Eternit está sendo negociada com P/VPA de 1,06 vez, enquanto a Porto Bello tem P/VPA de 2,33 vezes. Nesse caso, a Eternit tem o melhor preço entre as concorrentes.

Para os cinco analistas consultados, em um compilado feito pela Refinitiv e disponibilizado na plataforma TradeMap, a recomendação para os papéis da Lojas Quero-Quero é unânime de compra. Para as demais, não há recomendações.

Varejo de tecido, vestuário e calçados

O varejo de vestuário foi o que teve melhor desempenho na evolução das vendas em comparação com os outros varejos citados. A reabertura dos shoppings em abril de 2021, após período de restrição, fez com que as vendas acelerassem. Com o passar o tempo as pessoas perderam o receio do vírus e ficaram cada vez mais à vontade para irem normalmente às compras.

Além disso, a chegada do frio e as datas comemorativas como Dia das Mães e Dia dos Namorados trouxeram uma perspectiva positiva para o setor. Em maio, houve avanço de 25% nas vendas em comparação com mesmo período de 2021, segundo dados do IDV.

Os fortes aumentos das vendas no início do ano, principalmente março e abril, têm como causa as fracas bases de comparação. Os shoppings estavam temporariamente fechados durante esses períodos em 2021 devido às restrições de funcionamento para evitar a disseminação da Covid-19.

O melhor desempenho nas vendas do setor reflete o fato de algumas empresas destes segmentos serem voltadas ao público de alta renda, menos afetado pela inflação e com menor pressão para reduzir o consumo.

A Arezzo (ARZZ3) é uma dessas companhias. No primeiro trimestre, a empresa teve aumento de 128% nas receitas de vendas em comparação com igual período de 2021. Além disso, conseguiu ampliar a margem bruta em 3,4 pontos, para 53,4%, demonstrando que consegue repassar os aumentos de preços para os clientes.

Mesmo as redes que vendem para os mais ricos, no entanto, também podem ser afetadas pela inflação – o que pesa sobre os preços das ações. Os produtos que elas vendem possuem uma demanda altamente elástica, o que significa que o aumento nos preços resulta quase imediatamente na redução da demanda. Ou seja: se a companhia repassa a inflação para o cliente, tende a vender menos.

No período de 12 meses acumulados, a Arezzo apresenta queda de 25,52%, enquanto concorrentes como Grupo Soma (SOMA3) e Lojas Renner (LREN3) têm baixa de 40,28% e 43,54%, respectivamente.

A Arezzo é a que sofreu menos com as oscilações do mercado e se manteve perto do desempenho do Ibovespa, de queda de 22,17% no ano. Isso porque apresenta bons resultados e diversificação. A companhia atua também nos Estados Unidos, o que a favorece em momentos de crise por aqui.

No primeiro trimestre, a Arezzo reportou uma receita de R$ 110,2 milhões em operações no EUA, um avanço de 88% em relação a mesmo periodo do ano passado. Esse foi um dos motivos para um lucro de R$ 58 milhões no período, crescimento de 94,4%.

Portanto, a queda das ações da Arezzo é reflexo da cautela dos investidores em um cenário de potencial recessão, e não por desempenho operacional.

Fonte: TradeMap

O P/VPA da Arezzo também está menor que há um ano – negocia a 3 vezes, ante 6,5 vezes em junho de 2021. Este resultado indica que a empresa está mais barata no presente em relação a níveis passados.

Fonte: TradeMap

A Lojas Renner apresenta um P/VPA de 2,3 vezes, enquanto o Grupo Soma tem o preço negociado a 1 vez o patrimônio líquido. Portanto, baseado apenas neste indicador, o Grupo Soma tem indícios de estar sendo negociado com desconto em relação às concorrentes.

Segundo o compilado da Refinitiv apresentado na platafoma TradeMap, a recomendação de 13 entre 14 analistas é de compra das ações da Arezzo. Para o Grupo Soma, seis dentre sete especialistas indicaram a compra da ação.

Por fim, a recomendação para os papéis da Lojas Renner foi de compra, segundo o compilado da Refinitiv. Entre os 16 analistas consultados, 12 recomendam a compra do papel, três recomendam manutenção e apenas um recomenda venda.

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