As ciclicidades do mercado se repetem entre diversos setores. Em maior ou menor grau, segmentos subpenetrados e de alta rentabilidade são desbravados por poucos players até que a concorrência pressiona as margens e, consequentemente, os resultados. É o que a Randon (RAPT4) enxergou.
A companhia anunciou, na noite da última quinta-feira (1), uma joint venture com a Gerdau (GGBR4) para a prestação de serviços de locação de caminhões, semirreboques e outros produtos relacionados a transporte.
A nova empresa (NewCo, por enquanto) terá como objetivo aumentar a operação das companhias do grupo Randon em tudo que se refere à mobilidade no Brasil.
Em linhas gerais, o grupo produz carrocerias, reboques, semirreboques e vagões ferroviários em quatro unidades industriais no Brasil e duas no exterior e possui um centro de distribuição.
É a principal exportadora brasileira do segmento, com uma participação de 70% do setor, e tem seus produtos movimentados em mais de 70 países.
Sendo a líder do segmento de seu core business, agora a Randon parte para um novo viés no que se refere ao transporte no Brasil: o aluguel.
Atualmente, a Vamos (VAMO3), do grupo Simpar (SIMH3), controla 85% do mercado de aluguel de caminhões no Brasil.
Entretanto, o mercado ainda não é (quase) nada desenvolvido. Segundo a empresa, apenas 1% da frota de caminhões no Brasil é alugada, enquanto nos Estados Unidos e na Europa a taxa de aluguel gira em torno de 25%.
Nesse sentido, chama atenção o crescimento acelerado e rentável da Vamos enquanto navega sozinha neste oceano azul. No segundo trimestre deste ano, a companhia teve um lucro líquido recorde de R$142,5 milhões, 42,4% superior ao mesmo trimestre de 2021.
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No ano passado, a empresa traçou a meta de crescer sua frota em 200%, entre 2021 e 2025, ao passo que o ROE (retorno sobre capital) da empresa se mantém em dois dígitos altos.
A tese de investimento nas locadoras de veículos – seja de caminhões ou as tradicionais de veículos leves, como a Localiza (RENT3) – é pautada na ampliação desse mercado no Brasil, junto à criação de valor aliada ao retorno sobre o capital investido.
Isso porque o setor é altamente intensivo em capital. É necessário levantar capital para a aquisição de veículos continuamente, colocando-os para aluguel em seguida. A venda da frota seminova complementa o ecossistema do negócio, mas o grosso da bem-sucedida operação vem da boa gestão de capital neste ínterim.
A esta altura do campeonato, vale lembrar, a Vamos já possui uma escala de negócio muito à frente da concorrência, com variedade de produtos e soluções diversas – algo que não é trivial de ser atingido. O primeiro aluguel de caminhão da companhia foi realizado na década de 1990, ainda sob o guarda-chuva da JSL.
O negócio entre Randon e Gerdau passará pelo habitual crivo do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica).
A capacidade de investimento da Randon
No fim do segundo trimestre deste ano, a Randon possuía R$ 1,80 bilhão em disponibilidades, na visão consolidada.
Do lado dos encargos financeiros, a dívida bruta da empresa está em R$ 4,11 bilhões, sendo que a maior parte estava no longo prazo, ou seja, para pagamento daqui a pelo menos 12 meses.
O prazo médio da dívida bancária (desconsiderando o Banco Randon) é 2,4 anos, com um custo médio atrativo, de 5,9% (em reais) e 4% (em dólares).
Para que o negócio de aluguel de caminhões ganhe tração, seria necessário que a companhia aumentasse sua capacidade de investimento e alongasse o prazo de pagamento de seu endividamento.
A ideia, entretanto, ainda está em estágio inicial. O investimento de Randon e Gerdau será de apenas R$ 250 milhões, divididos igualmente entre as companhias, da mesma forma que o controle do capital da nova empresa (50% para cada).
Decerto, a nova empresa – que será sediada em São Paulo – estará aberta para receber investimentos privados para alavancar seu negócio, enquanto ainda é pouco operado. O fato relevante divulgado ontem já indica essa procura.
Por volta das 13h desta sexta-feira, as ações das empresas envolvidas acompanhavam a forte movimentação da média de mercado. Os papéis preferenciais da Randon subiam 2,67%, enquanto as ações da Gerdau avançavam 3,56%. A Vamos subia 0,82%.
No acumulado do ano, as ações da Randon caem 7%. A companhia segue com múltiplos pressionados, perante a incerteza da economia global. A empresa, que detém mais da metade da Fras-le (FRAS3), possui valor de mercado menor do que a controlada.