(Esta matéria foi alterada às 10h10 do dia 18/10/2022 para a mudança de “resíduo” para “matéria-prima” no quadro referente à reciclagem avançada; e sobre a precificação do PE Verde, não sendo acerca dos produtos do mesmo.)
Criada a partir de uma fusão entre empresas do setor e a antiga Trikem há duas décadas, a Braskem (BRKM5) teve seu fundamento fincado na concepção antiga da indústria petroquímica.
Em seu cerne, a empresa já possuía compromissos para a atuação sustentável. Contudo, as primeiras iniciativas da Braskem sobre o que viria a ser o ESG apareceram no final dos anos 2000.
A despeito do escrutínio público de que a atuação da empresa não combina com essas premissas, tanto do ponto de vista de produção de derivados do petróleo, como o afundamento de quatro bairros em Maceió pela operação em 2018, a companhia é destaque no tema desde 2008.
Naquele ano, a Braskem colocou de pé um inventário sobre sua emissão de GEE (Gases de Efeito Estufa). No ano seguinte, lançou macro objetivos em um Manifesto de Mudanças Climáticas. Nesta segunda-feira (10), a empresa prestou contas.
No segundo ESG Day organizado pela empresa, em que a Agência TradeMap compareceu presencialmente, a Braskem mostrou que 85% dos compromissos assumidos foram atingidos em pautas que passam por saúde e segurança e recursos renováveis, até eficiência energética, desenvolvimento local e eficiência hídrica, além de outros temas.
Olhando para frente, a empresa coloca a sustentabilidade como um de seus pilares de crescimento, visando ser referência global no setor petroquímico em desenvolvimento sustentável.
Criação de negócios sustentáveis pela Braskem
No que se refere ao ESG, as avenidas de crescimento da Braskem são duas. A primeira é voltada à economia circular, enquanto a segunda tem ligação com biopolímeros – que é uma macromolécula, resultado da junção de outras moléculas, por uma ligação que se transforma em plástico e outras classes de produtos.
Do lado da economia circular, a ideia é atingir 1 milhão de toneladas em capacidade de produção até 2030, evitando, assim, o descarte de aterro em 1,5 milhão de toneladas por ano.
Nesse sentido, há dois processos principais: Reciclagem Mecânica e Reciclagem Avançada.
Mecânica | Avançada | ||||
Reformatação em matéria-prima plástica para reutilização | Substituição da nafta | ||||
Reaproveitamento da energia utilizada no processo | Transformação do produto em matéria-prima novamente | ||||
Agregar valor e qualidade ao resíduo no fim do processo | Reinserção na cadeia produtiva com tecnologia |
Já o biopolímero reutiliza carbono da atmosfera para a criação de plástico. Isso se dá pela transformação do CO2 em açúcar, que fermentado se transforma em etanol. Depois, o polietileno.
Atualmente, a Braskem é líder global na produção de polímeros. Em 2010, inaugurou sua fábrica em Triunfo, no Brasil, que hoje tem capacidade produtiva de mais de 200 mil toneladas por ano.
A cada 1 milhão de toneladas produzidas de Polietileno (PE) Verde, são retiradas 3 milhões de toneladas de CO2 da atmosfera. O Polietileno tradicional, o fóssil, gera 2 milhões de toneladas de CO2 a cada milhão produzido.
Ou seja, com a criação de cada milhão de toneladas de PE verde, há um benefício de 5 milhões de toneladas de CO2 a menos na atmosfera.
Também há a projeção da expansão de capacidade de produção de PE Verde para 1 milhão de toneladas até 2030, ampliando o portfólio da companhia para fins cada vez mais verdes.
Segundo a diretoria executiva, o Capex (investimento em bens de capital) para as operações relacionadas à reciclagem e PE Verde é menor do que o habitual na construção de novas unidades produtivas.
Mensuração do ESG no dia a dia
A Braskem também mostrou sobre como mensurar e priorizar suas iniciativas de descarbonização em seus negócios.
Foi criado a MACC (Curva de Custo Marginal de Abatimento), indicador que apresenta o custo por tonelada de carbono equivalente evitado, ou então quanto a iniciativa poderá mitigar ao longo de seu processo produtivo.
Na prática, segundo os executivos da empresa, mostra o retorno econômico em relação ao custo do carbono equivalente. Na prática, abaixo de zero mostra VPL (valor presente líquido) positivo, de 1 para cima mostra que haverá uma necessidade de abatimento do carbono à frente.
Com essas iniciativas em curso, a empresa tem investido em biomassa. A usina de biomassa da Braskem, em parceria com a Veolia, deve ficar pronta no início de 2024, retirando cerca de ⅓ do que emite de CO2 em Alagoas.
A rota para 1 milhão de toneladas em capacidade de produção de PE Verde passa por novas parcerias, como uma planta de etano verde na Tailândia, e aumento da base de ativos.
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A precificação do PE Verde não tem ligação com os de origem fóssil. Portanto, não há assertividade acerca do pagamento de prêmio por parte dos clientes para “produtos verdes”.
Todavia, em mercados como na Europa, a companhia disse que está na lei a obrigatoriedade da neutralidade de carbono até 2050. A Braskem, com isso, visa interceptar essa demanda presente e futura — e enxerga a regulação como um dos fatores de crescimento.
Há formas distintas de reciclagem, que podem utilizar biomassa, além da reciclagem mecânica e avançada. Esses formatos, todavia, são complementares, não competindo entre si.
Para isso, hoje o etanol tem mais escala e pode ser acessível, sendo a melhor alternativa para o curto prazo, mas não responderá a todos os problemas no longo prazo.
Segundo o CEO da Braskem, Roberto Simões, o futuro do setor petroquímico foi colocado em xeque pelas mudanças estruturais e necessidade de investimento em tecnologia para os aspectos relacionados ao ESG.
De acordo com ele, universidades, concorrência, clientes e startups trabalharão em conjunto para a solução de todos os desafios, os quais a Braskem (ainda) não tem todas as soluções.