Magazine Luiza (MGLU3), Méliuz (CASH3) e Totvs (TOTS3): o que tem acontecido com as empresas de tecnologia na Bolsa?

Companhias, outrora queridinhas do mercado, têm sofrido nos últimos meses em contexto de alta de juros; entenda

Foto: Pixabay

A pandemia alterou drasticamente a conjuntura econômica mundial. A inflação global tem pressionado os bancos centrais a elevarem a taxa de juros, diminuindo a liquidez jorrante dos últimos anos. O setor de tecnologia, antes aquecido pela busca por risco, agora levanta dúvidas.

Também nos Estados Unidos, mas principalmente no Brasil, as empresas de tecnologia, outrora queridinhas do mercado, têm sofrido nos últimos meses com essas mudanças — ou a expectativa por isso. 

A deterioração das expectativas de inflação fizeram o Banco Central elevar a Selic de sua mínima histórica, a 2%, para próximo de dois dígitos. Isso impacta tanto a visão do mercado frente às ações dessas empresas quanto o próprio operacional delas, em menor medida. 

Por aqui, as companhias de tecnologia se confundem com players do setor varejista, de comércio eletrônico e até do mercado de pets. Todas essas entram no bolo das que estão sofrendo. Mas por quê?

Qual o impacto da taxa de juros sobre as empresas de tecnologia

Em linhas gerais, sobretudo no Brasil, as empresas de tecnologia são companhias de alto crescimento. 

Dessa forma, muitas vezes abrem mão da lucratividade no curto prazo para crescerem o top line de seus resultados, isto é, número de clientes ou usuários e receita — por mais que isso possa representar prejuízos. Isso significa que o valor destas empresas está no futuro. 

Ao traçar uma análise de uma companhia de alto crescimento, percebe-se que os principais fluxos de caixa a serem retornados aos investidores ficam lá na frente. 

Esses fluxos de caixa, ou seja, o quanto de dinheiro que a empresa vai gerar, são abatidos a uma taxa de desconto, que geralmente é uma taxa de juros de longo prazo, sendo livre de risco. 

Isso porque os investidores procuram saber o quanto de prêmio adicional eles terão ao investir em uma empresa que cresce de forma acelerada, deixando de alocar seus recursos na renda fixa. 

O valor justo de uma empresa é dado pela soma desses fluxos de caixa pelos próximos anos. Quanto maior o desconto sobre as quantias de dinheiro a serem geradas, menor o valor delas no presente.

Reflexos no Brasil

Por aqui, os impactos são claros. Os valuations das empresas com múltiplos elevados sofreram com os impactos da abertura da curva de juros, isto é, com a elevação das taxas de juros futuras. 

A taxa do DI futuro negociado para janeiro de 2022 está em 8,73%, sendo que chegou a estar na casa dos 2,8% no início deste ano. Isso é projeção de capital na veia das empresas.

Histórico do DI de janeiro de 2022

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Fonte: TradeMap

Estimativas mostram que, na média, 1% de aumento no custo de capital das companhias pode fazer com que o preço justo de uma ação recue em até 15%. O mercado mostrou que isso se prova na prática.

As ações do Magazine Luiza (MGLU3), destaque da Bolsa na última década e varejista com viés voltado à tecnologia — como sempre disse o CEO Frederico Trajano –, caem 65% no acumulado do ano.

Desde a máxima histórica, atingida em 6 de novembro do ano passado, a R$ 27,34, as ações foram ladeira abaixo. 

Desempenho das ações do Magazine Luiza desde a máxima histórica, em 06/11/2020

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Fonte: TradeMap

A conjuntura macroeconômica também se mostra desfavorável à empresa. A inflação, que corrói o poder de compra, pesa sobre o bolso dos clientes, ao passo que o e-commerce, carro chefe da companhia, desacelera com a reabertura total da economia. 

Ainda assim, os múltiplos da empresa parecem esticados. O preço/lucro atual está em 80,96 vezes, anta a uma média dos últimos três anos de 182,56 vezes.

A rentabilidade, que ancorava esse valuation e prometia a contração dos múltiplos através do crescimento, também já não está aquelas coisas: Retorno sobre Patrimônio Líquido (ROE) de 6,60% nos últimos 12 meses, frente à média de 14,16% dos últimos 36 meses.

O mesmo movimento é observado em empresas que abriram capital na Bolsa há pouco tempo, como Méliuz (CASH3), que cai 71% desde julho, e Getninjas (NINJ3), que recua 78% desde junho.

Essa última, por exemplo, tem um valor de mercado menor do que possui em caixa líquido (R$ 301 milhões contra R$ 307 milhões). O mercado precifica que, além do maior custo de capital, a empresa terá de queimar caixa para sustentar suas operações nos próximos meses.

O caso da Totvs (TOTS3) também entra nessa conta. Isso ocorre mesmo com a empresa estando mais rentável do que nunca, mostrando-se mais robusta do que as novatas da Bolsa. 

No acumulado dos últimos 12 meses, a Totvs lucrou R$ 344 milhões. Em março de 2019, com base nesta mesma métrica, o resultado era positivo em R$ 38,45 milhões. Desde setembro, todavia, as ações caem 20%. 

Históricodo lucro líquido da Totvs, no acumulado de 12 meses*

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*Em base trimestral Fonte: TradeMap

A boa notícia é que os entraves apresentados ao setor não parecem estar prejudicando o nascimento de companhias tech no Brasil. 

No primeiro semestre deste ano, foram criadas mais de 16 mil empresas no segmento, após o surgimento de mais de 25 mil no ano passado. As informações são da Associação das Empresas Brasileiras de Tecnologia da Informação no Paraná (Assespro-PR), em parceria com a Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Liquidez e incentivo à inovação

A partir de 2008, com a crise dos subprime, o mundo entrou em um espiral de taxa de juros baixas — até zeradas ou negativas — e alta liquidez, com a compra de ativos pelos bancos centrais.

Com isso, o custo de oportunidade de deixar recursos na renda fixa ou ativos com pouco risco se tornou alto e, consequentemente, o valor de companhias de alto crescimento se tornou maior. 

Neste contexto, empresas como Uber e Wework foram montadas e mudaram a forma de interação entre os consumidores e a tecnologia. Por muitos anos, deram prejuízo e surfaram a onda da liquidez abundante que incentivou a inovação.

A expectativa pela alta da taxa de juros já pressiona as ações do aplicativo de compartilhamento de viagens, causando um efeito reverso. No acumulado do ano, as ações do Uber, negociadas na Bolsa de Valores de Nova York (Nyse), tombam quase 20%, enquanto o S&P 500 sobe 29%.

Desempenho das ações do Uber em comparação ao VOO, ETF que replica o S&P 500

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Fonte: TradeMap

O Federal Reserve (Fed), BC dos Estados Unidos, ensaia voltar a elevar os juros no país, que atualmente está entre 0% e 0,25%. A dúvida que fica é sobre a sustentabilidade dessas empresas.

O questionamento também vale para o Brasil, que recebe fluxo estrangeiro e viu a Selic acompanhar essa tendência até o ano passado. A maior parte das empresas desse setor existiria sem esse fomento global há mais de uma década? 

A ponderação que as autoridades monetárias mundo afora devem fazer diz respeito ao impacto da contração monetária frente ao desenvolvimento enquanto sociedade, aspecto que está intrinsecamente ligado ao benefício das empresas de tecnologia.

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