Economia terá freio de mão puxado em 2023; entenda os riscos à frente

Inflação ainda alta, juros elevados, incerteza fiscal e desaceleração global são desafios à frente

Foto: Shutterstock/Nanthaphiphat watto

Se tudo correr bem, 2023 será o primeiro ano completo com a Covid-19 sob controle no Brasil. Apesar disso, o cenário econômico é desafiador para o presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que precisará lidar com inflação e juros altos, sérias restrições orçamentárias, a desaceleração da economia global e o esgotamento do efeito rebote do fim da pandemia.

O crescimento do PIB (Produto Interno Bruto), que deve superar 3% em 2022 impulsionado por benefícios sociais e a retomada pós-pandemia, provavelmente será reduzido a um terço desse avanço, ou até menos, no ano que vem.

Analistas consultados semanalmente pelo Banco Central acreditam que, quando dezembro de 2023 chegar, a economia terá crescido menos de 1% naquele ano, mais especificamente, 0,79%, segundo os últimos dados divulgados pelo BC.

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Ao mesmo tempo, o mercado cada vez mais precifica um cenário em que a economia internacional pode entrar em recessão, conforme os juros sobem em grandes economias.

Por isso, parte dos economistas acredita que o PIB brasileiro pode inclusive ficar no zero a zero no ano que vem.

Felipe Salles, economista-chefe do C6 Bank, avalia que além das condições desafiadoras do cenário externo, o efeito acumulado das altas de juros no Brasil terá força total em 2023, impedindo que o Brasil cresça.

“A economia global vai crescer pouco, e isso atrapalha. Além disso, já estamos vendo alguma queda em preços de commodities, o que já começou na metade deste ano”, lembra. “São fatores domésticos e externos puxando a atividade para baixo. Vai ser um ano desafiador no mundo todo.”

Economia já está em desaceleração

Os últimos dados de atividade econômica vêm mostrando que pouco a pouco o ciclo de alta da taxa básica de juros, a Selic, iniciado em março de 2021 com a taxa no piso histórico de 2% e encerrado neste ano com a taxa em 13,75%, finalmente começa a chegar à ponta.

O IBC-Br, indicador de atividade econômica do BC, teve leve queda em outubro, último dado disponível, na contramão do projetado por economistas. Após cinco meses de alta, os serviços recuaram 0,6% no mês, segundo dados do IBGE.

“A economia está perdendo impulso, e vamos começar 2023 com o freio de mão puxado”, diz o economista-chefe do Rabobank, Maurício Une, que espera alta de 0,6% do PIB em 2023. “Apesar de termos o Auxílio Brasil ampliado, que alimentou a perspectiva de crescimento, o impacto da política monetária começou a aparecer. Isso já impactou a demanda e deve continuar a acontecer.”

Outro ponto importante é o endividamento recorde dos brasileiros, que também joga contra o consumo.

“É um legado da pandemia. Muita gente perdeu renda, e você acaba tendo esse efeito de endividamento elevado das pessoas físicas”, lembra Maurício Oreng, superintendente de pesquisa macroeconômica do Santander, que acredita em um avanço de 0,8% do PIB em 2023.

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Mesmo assim, os brasileiros ainda estarão lutando com uma inflação de mais de 5% – a projeção do Focus é de alta de 5,17%, uma alta de preços herdada do ano anterior através de reajustes de contratos de serviços.

“Acreditamos que o processo de desinflação continuará nesse passo lento”, diz Une.

Inflação fora da meta pelo 3º ano seguido

Ou seja, pelo terceiro ano seguido, o BC deve descumprir a meta de inflação estipulada pelo CMN (Conselho Monetário Nacional), que é de 3,25% para 2023.

Com isso, o Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) até pode reduzir a Selic, mas isso deve demorar mais a acontecer.

Se há um mês o mercado esperava que os juros encerrariam o ano que vem em 11,50%, a expectativa hoje já é de uma taxa de 11,75% ao ano em dezembro.

“Vemos o Banco Central começando o ciclo de corte de juros na metade do ano, porque os preços já estão desacelerando”, diz Salles, do C6 Bank, que espera um IPCA de 5,9% e juros em 11,75% no final de 2023. “Por outro lado, a inflação não deve cair rápido, e sim paulatinamente.”

Ele explica que isso se dá devido a alguns fatores. Um deles é a inércia elevada da inflação brasileira, já que a nossa economia é bastante indexada (ou seja, os contratos de serviços reajustam os preços com base nos índices de períodos anteriores, o que retroalimenta a inflação).

Além disso, o mercado de trabalho brasileiro vem demonstrando um aquecimento acima do esperado nos últimos meses, o que faz com que muitos especialistas acreditem que o hiato do produto (ou seja, a diferença entre o PIB potencial e o PIB observado de fato) esteja bastante apertado.

Uma economia com baixa ociosidade é mais inflacionária.

“A taxa de desemprego felizmente caiu bastante, mas isso dificulta uma queda mais rápida da inflação”, afirma Salles. “Além disso, esperamos que o dólar continue subindo no ano que vem.”

É por isso que parte dos especialistas já trabalha com uma Selic intocada ou até maior no final de 2023. “Acreditamos que o Banco Central só vai ter espaço para cortar juros em janeiro de 2024”, afirma o economista-chefe da Quantitas, Ivo Chermont.

Política fiscal é o grande risco para a economia

Esse cenário de Chermont é válido para um dólar em torno de R$ 5,50 no final de 2023. Se a moeda americana escalar mais, para R$ 6, a tendência é que o BC precise subir a taxa básica.

Por enquanto, os especialistas ouvidos pelo Focus acreditam que a moeda americana encerrará 2023 praticamente no mesmo patamar estimado pelos especialistas para o final do ano, ou seja, em R$ 5,26.

“Caso a gente veja o cenário fiscal piorando, com o dólar subindo a R$ 6, mudaríamos o cenário novamente para alta de juros entre o segundo e o quarto trimestre de 2023”, avalia.

Ou seja: os rumos da política monetária dependerão da política fiscal do governo Lula e principalmente da definição de uma nova regra para substituir o teto de gastos.

A razão é simples.

O aumento sem controle de despesas leva a mais pressão inflacionária e ao aumento da dívida pública. Nesse cenário, e o BC é forçado a remar na direção contrária (ou seja, manter os juros altos por mais tempo ou até mesmo elevá-los para tentar esfriar o crédito, a atividade e a inflação).

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“Temos um cenário de incerteza fiscal elevada. Ainda há dúvidas do que vai sair em termos de negociação da PEC da Transição e sobre a extensão da decisão do STF sobre o Bolsa Família fora do teto”, aponta Oreng, do Santander. “Por enquanto, nossa hipótese de trabalho é que o espaço fiscal adicional será de R$ 150 bilhões, e parte disso será permanente.”

Para o especialista do Santander, apesar da perda de fôlego da economia global, os preços de matérias -primas devem se manter ainda em um patamar elevado, contraponto que deve frear voos ainda maiores da cotação do dólar.

 

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