Quanto mais o Federal Reserve subir os juros americanos agora, maior a chance de recessão e de começar a cortar a taxa dos Estados Unidos mais cedo, já em 2023. O cenário mais provável, entretanto, é que o banco central da maior economia do mundo mantenha os juros básicos em patamares elevados até o final do ano que vem, com o objetivo de combater a persistente inflação de serviços e os novos desafios globais que vêm pela frente.
A avaliação é do analista especializado em economia internacional Lucas Zaniboni, da Garde Asset Management. Para ele, fatores como a guerra entre Rússia e Ucrânia e o protagonismo da China no comércio mundial – os recentes lockdowns no gigante asiático colocaram ainda mais pressão nos preços – são fatores de risco inflacionário por um tempo mais longo.
“A oferta global de produtos e serviços piora, é um mundo mais inflacionário que a gente via antes. Óbvio que isso pode mudar, mas não há sinais disso ainda”, apontou ele, em entrevista à Agência TradeMap.
O especialista afirmou que o aquecimento persistente do mercado de trabalho americano, com a oferta de trabalhadores aquém da demanda, vem se traduzindo em uma inflação que surpreende para cima mês a mês.
“Podemos procurar histórias micro, mas a macroeconomia explica tudo. Vimos pelo payroll [relatório sobre o mercado de trabalho dos EUA] que a oferta de trabalhadores ainda está aquém da demanda. Esse aperto resulta em preços pressionados, com os trabalhadores com um poder de barganha muito forte. Isso resulta nitidamente em inflação de serviços”, avaliou.
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Esse movimento cria uma situação em que, quanto mais o Fed subir juros agora para tentar segurar os preços, maior o risco de desaceleração brusca da economia dos Estados Unidos, o que poderia fazer com o que o BC americano corte a taxa mais cedo que o previsto.
“A ata do Fed [documento que detalha a última reunião de juros] mostrou um número relevante: quanto mais altos os juros ficam, mais receosos [os membros do banco central americano] ficam com a economia”, lembra.
Leia abaixo a entrevista completa com Zaniboni, que conversou com a reportagem nesta quinta-feira (13).
O CPI [índice de preços ao consumidor americano] de setembro veio pior que o mercado esperava, com a inflação ainda incomodando. Qual a sua avaliação do indicador, e por que os mercados caíram com força, mas depois subiram?
O número foi bem ruim, portanto esse retorno parece mais técnico do que qualquer outra coisa.
Os mercados ainda estão muito voláteis, com a situação melhorando no Reino Unido, o que gera efeitos colaterais que não tem nada a ver com os mercados americanos.
O que achou do comportamento do índice no mês passado?
Há duas histórias aí. Se a gente abrir o núcleo de bens e serviços, que exclui energia e alimentos, é possível ver que a parte de bens vem aliviando, rodando a patamares mais aceitáveis na margem, o que é fruto da melhoria das cadeias de produção, das commodities, de empresas que fizeram estoque no pânico e que, quando o consumo desacelera, tem que baixar o preço. Isso era esperado.
Mas a força de serviços mais que compensou esse movimento. O que mais surpreendeu foi isso. O núcleo de inflação de serviços [medida que exclui preços mais voláteis] veio com alta de 0,8%, a maior leitura desde o início dos anos 1980.
Você pode dizer que esses são indicadores bastante inerciais [ou seja, índices de inflação que resistem mais a cair ou subir], que vão mesmo permanecer elevados por mais tempo. Mas vamos olhar o resto. Todas as categorias de serviços voltaram a acelerar, como transportes, comunicações. Só teve uma que não acelerou.
Isso mostra que a inflação está super disseminada, e essa é a parte mais preocupante para a política monetária.
E qual a razão dessa inflação de serviços nos Estados Unidos estar rodando em patamar elevado?
É o mercado de trabalho. Podemos procurar histórias micro, mas a macroeconomia explica tudo.
Vimos pelo payroll [relatório sobre o mercado de trabalho dos EUA] que a oferta de trabalhadores ainda está aquém da demanda. Esse aperto resulta em preços pressionados, com os trabalhadores com um poder de barganha muito forte. Isso resulta nitidamente em inflação de serviços.
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A poupança dos americanos também contribui para esse mercado de trabalho apertado?
Sim. Os americanos usaram pouco mais da metade do excesso de poupança que acumularam desde o início da pandemia, então conseguem absorver por mais tempo o impacto de um período fora do mercado de trabalho, se necessário.
E quais os riscos no caminho da inflação americana, com a Opep+ cortando a produção diária de barris de petróleo em 2 milhões por dia e a guerra entre Ucrânia e China?
Olhando à frente, há ainda todos esses obstáculos. Hoje em dia, mesmo que de forma mágica o Putin [Vladimir Putin, presidente da Rússia] queira negociar um acordo para parar a guerra, as sanções vão se manter por muito tempo. Grande parte do que foi perdido da oferta global de energia não volta tão cedo.
Há ainda outro fator, que é o fato de a China ser o vetor que torna o mundo menos focado em blocos comerciais, e mais globalizado.
Tudo isso joga na direção de um mundo com juro neutro [aquele que não estimula nem desestimula a economia] hipoteticamente maior do que de antes da pandemia. A oferta global de produtos e serviços piora, é um mundo mais inflacionário que a gente via antes. Óbvio que isso pode mudar, mas não há sinais disso ainda.
Talvez nos próximos anos teremos que nos acostumar com taxas de juros maiores do que o pré-pandemia.
Não é que não haja vetores positivos para a inflação. O envelhecimento da população mundial e menor demanda, por exemplo, não deve mudar.
Quando na sua avaliação o Federal Reserve deve desacelerar o ritmo de alta de juros, que atualmente é de 0,75 ponto percentual?
Já tínhamos um cenário de desaceleração em dezembro, e após o CPI mantivemos. A ata do Fed mostrou um número relevante: quanto mais altos os juros ficam, mais receosos ficam com a economia.
Acreditamos que, depois da reunião de novembro, vai começar a ficar mais brigado, e vão se ater a algum aspecto que permita desacelerar o ritmo para 0,50 ponto.
Dito isso, não quer dizer que vão ser mais dove [mais propensos a juros mais baixos], mas talvez estendam um pouco mais o ciclo e irão colhendo os efeitos defasados de política monetária. Podem aumentar mais duas vezes em 0,50 ponto, e fica aí até o final de 2023.
É possível um cenário em que o Fed já corte os juros no ano que vem, como alguns relatórios passaram a apontar?
Sim, esse é o cenário alternativo, que é quase tão provável quanto o nosso cenário base. Esse ponto de vista é de que quanto mais o Fed tem que puxar o freio de mão hoje, mais vão se acumulando os efeitos da política monetária restritiva mais para a frente, e mais perto a gente fica de ter uma recessão como consequência.
Nesse cenário, seria plausível um corte de juros já em 2023.
Como a crise do Reino Unido mexe com os mercados?
Começaram a sair informações de que a primeira-ministra Liz Truss estaria disposta a voltar atrás, mesmo que parcialmente, no pacote fiscal, com o corte de algumas propostas mais gordas.
O mercado leu isso com bastante alívio, como um recado. Era mais fácil fazer política fiscal expansionista em um mundo de juro zero, mas agora vemos divergências, já começaram a aparecer as primeiras tensões.