Carros usados se valorizam na pandemia, mas preços altos estão com os dias contados

Para Fenauto, estagnação da economia e poder de compra limitado dos consumidores devem travar os preços

Oito meses atrás, quando colocou seu carro à venda na internet, um Jeep Compass, o empresário paulista Wesley Azevedo fez um ótimo negócio. Após pagar R$ 110 mil para comprá-lo seminovo em 2019, conseguiu a proeza de vendê-lo por um preço ainda maior, a R$ 135 mil — contrariando a máxima do mercado de veículos de que, quanto “mais velho” fica um automóvel, mais barato se torna.

O negócio deu a Azevedo um retorno de 23%. Isso significa que ter comprado o carro em 2019 foi um investimento melhor do que se ele tivesse aplicado o seu dinheiro em títulos de renda fixa que pagassem 100% da Selic, o que lhe daria um rendimento de 8,62%.

A rentabilidade conquistada pelo empresário, porém, não se deu por obra do acaso. Foi um movimento calculado. “Vendi o carro porque vi que houve uma supervalorização dos seminovos, por causa da pandemia e pela falta de carros zero quilômetro para pronta entrega”, conta Azevedo, que mostra estar atento ao que tem acontecido no setor automotivo nos últimos dois anos.

Com o início da pandemia, o mundo assistiu a uma escassez de um dos principais insumos para a produção de veículos, os semicondutores, que basicamente são chips utilizados nos equipamentos eletrônicos que compõem os carros, cada vez mais tecnológicos.

A falta de chips está relacionada ao isolamento social. Com as pessoas ficando mais tempo em casa, aumentou a demanda por dispositivos eletrônicos como computadores, tablets e celulares, que também são produzidos com semicondutores.

As empresas que produzem esses chips acabaram priorizando o fornecimento para as fabricantes de eletrônicos, deixando as montadoras em segundo plano, que passaram a ter problemas para produzir os carros e entregá-los às concessionárias.

A falta de carros novos no mercado fez aumentar a procura pelos usados, que, por sua vez, foram inflacionados. Segundo o Monitor de Variação de Preços da KBB Brasil, empresa que analisa os preços de veículos novos e usados, os carros usados que têm entre quatro e 10 anos viram os preços subirem 22% na pandemia.

Não por caso, a venda de carros seminovos e usados cresceu bem mais que a de novos em 2019. Os seminovos e usados tiveram uma expansão de 18,8% em relação a 2020, com a comercialização de 11,2 milhões de unidades.

Já os carros novos tiveram um crescimento de apenas 2,9% em 2021, com a venda de 2,1 milhões de unidades.

Após o ótimo negócio que fechou com o Compass, Azevedo está de olho em uma nova oportunidade. Recentemente, ele comprou um Volkswagen Nivus por R$ 105 mil, já abaixo do valor da tabela Fipe, de R$ 123 mil, e acha que pode repetir a dose. “Já estou ganhando nesse também e confesso que estou pensando em vender”, ele diz.

Vai passar

A maré de boas oportunidades no mecado de usados, porém, deve passar em breve. Pelo menos é o que aponta Enilson Sales, presidente da Federação Nacional das Associações de Revendedores de Veículos Automotores (Fenauto). 

“A tendência para 2022 é que no primeiro semestre a gente tenha uma queda no valor do preço dos carros, porque a economia já está menos aquecida e o poder aquisitivo continua ainda num nível muito baixo”, afirma o executivo.

Segundo ele, a oferta de semicondutores ainda não está em um nível que atenda plenamente as montadoras, mas ainda existe uma série de fatores que trava o mercado neste instante.

“No primeiro semestre a gente espera que o mercado ande bem mais lento e no segundo semestre com um pouco mais de controle da inflação”, afirma. “E aí, os organismos de crédito e a própria Selic começam a flexibilizar e a voltar a patamares melhores, mais acessíveis para população”.

 

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